27/01/2014

Teste dos 20 Anos - Especial 1994


1994 foi realmente um ano marcante: fomos tetracampeões mundiais de futebol, mas perdemos Ayrton Senna; alcançamos a estabilidade econômica; Kurt Cobain suicidou-se; Steven Spielberg ganhou seu primeiro Oscar como diretor. Na música feita lá fora, foi o ano do histórico MTV Unplugged do Nirvana; do então subestimado Grace, de Jeff Buckley; da estreia do Oasis, em Definitely Maybe. Não à toa, o período foi escolhido recentemente como o mais relevante para a música nos últimos tempos.

Aqui no Brasil, também, 1994 foi um ano de efervescência musical. Pela primeira vez, viu-se nascer uma geração de bandas capaz de suceder àquela formada 10 anos antes, no fim da ditadura militar, em número suficiente para estabelecer uma cena sólida, prolífica e relevante. Além disso, gente surgida tempos antes, também, soltava trabalhos bastante inspirados.

A tarefa de lembrar discos importantes de 1994 ficou, então, árdua demais para este pobre blogueiro. Pelo menos dois grandes lançamentos daquele ano (as estreias de Planet Hemp e O Rappa) passaram por baixo do meu radar e, portanto, não tenho opinião formada sobre eles. Convoquei, então, o luxuoso auxílio de duas figuraças do recôncavo baiano, dois grandes amigos: Léo Araújo (homem de história, de boas causas, de boa música e de ouvido absoluto) e Fábio Fernandes (parceirão de brejas e combos de riso; futuramente, um dos grandes artistas gráficos deste país, com a bênção de Jah).

Divirta-se e não deixe de comentar!


Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos


Foi amor à primeira vista?
"Monólogo ao Pé do Ouvido" já dava a deixa: feito um neo-profeta do caos, Chico Science chegava metendo os dois pés na porta do conformismo. No ano anterior, Recife havia sido eleita a quarta pior cidade do mundo para se viver e o rock aliou-se ao maracatu para a criação de uma sonoridade ímpar, o peso de um contrapondo-se e complementando ao outro, fazendo a cama onde Chico e a Nação deitavam a crítica social mais contundente daqueles tempos ("A Cidade", "Banditismo por Uma Questão de Classe"), temperada com bom humor ("A Praieira") e até romantismo ("Risoflora"). Chico Science & Nação Zumbi eram, sem dúvida, a novidade mais extraordinária da música brasileira em muito, muito tempo.

Ainda rola gostoso?
Nada mudou tanto assim e as sagazes letras de Chico Science continuam encontrando eco na nossa realidade atual. A qualidade de vida em Recife e em outras metrópoles brasileiras continua em queda livre e, hoje, temos um terço das 50 cidades mais violentas do mundo. A Nação Zumbi resistiu à morte de Chico em 1997 e virou um dínamo musical reconhecido mundo afora, mas a força do discurso e do som da sua estreia permanecem intactos. Um grande disco até hoje, que diverte e leva à reflexão.


Cidade Negra - Sobre Todas as Forças


Foi amor à primeira vista?
Não sei se foi a declarada intenção da banda ou uma genial estratégia de produtor, mas o fato é que trocar Ras Bernardo por Toni Garrido deu ao Cidade Negra uma cara mais pop e o som refletiu a mudança. Apesar de a crítica social (ora ingênua, ora afiada) estar presente, o aspecto roots foi praticamente sepultado pelo esmero pop das composições e pela produção cristalina, com concessões à disco music ("A Sombra da Maldade") e ao lovers rock ("Onde Você Mora?"). Um disco que rolava redondinho do começo ao fim e animou muitas noites de minha recém-conquistada maioridade.

Ainda rola gostoso?
Sim, este disco ainda é capaz de divertir, apesar de a debilidade das letras já não passar despercebida. Não é exagero dizer que, a seu modo, tornou-se um clássico. As canções são muito boas, mas, quando eu ouço Toni Garrido hoje, sempre me lembro do cara que protagonizou um dos piores filmes deste e de outros universos: Orfeu (1999). Fato é que o Cidade Negra sumiu de vez da minha playlist e quase nada de seu repertório, após este disco, me animou a resgatá-los.


Gilberto Gil - MTV Unplugged


Foi amor à primeira vista?
O MTV Unplugged de Gilberto Gil não foi o primeiro programa brasileiro da série (estreia que coube a João Bosco), mas foi o primeiro a ganhar registro em disco. Para mim, foi, também, a primeira chance de escutar músicas sempre comentadas e nunca escutadas, como "Refazenda" e "Expresso 2222", além de reencontrar velhas conhecidas em nova roupagem. Com quase três décadas de carreira, Gil reservou o melhor de si para este disco: é preciso ter um bloco de granito no lugar do coração para não se emocionar com as versões celestiais de coisas como "Tenho Sede", "Esotérico" e "Drão".

Ainda rola gostoso?
Qualquer lista decente de melhores acústicos de todos os tempos tem que incluir este. O nível é alto demais e tudo nele que me empolgava e emocionava há 20 anos, continua fazendo-o hoje. Este disco é prova cabal do inigualável esmero lírico, melódico e rítmico de Gilberto Gil. Como os melhores vinhos, ele vai apenas ficando melhor, conforme passam os anos.


Jorge Cabeleira e O Dia em que Seremos Todos Inúteis



Foi amor à primeira vista?
A primeira vez que vi Jorge Cabeleira foi no velho Programa Livre, de Serginho Groissman. Liguei a TV no exato instante em que eles começavam a tocar sua furiosa versão de "Carolina", de Luiz Gonzaga. "Que negócio bom é esse?", pensei. O restante do disco não negava fogo: canções incendiárias como "Jabatá e o Diabo", "Silepse" e "O Dia em que Conceição Subiu a Serra" misturam de forma impecável rock e baião. O ponto alto, porém, era uma versão arrasadora de "Os Segredos de Sumé", de Zé Ramalho, com sua participação.

Ainda rola gostoso?
Sim, ainda soa muito bem. A produção de Frejat colocou guitarras em primeiro plano e este disco está cheio de riffs muito bons. As letras recheadas da realidade e do imaginário nordestinos ainda funcionam. Depois do segundo e psicodélico disco, "Alugam-se Asas Para o Carnaval", a banda passou 15 anos inativa. Voltaram em 2013 e lançaram um DVD ao vivo, comemorando as duas décadas de seu primeiro lançamento. Grandes pernambucanos!


Little Quail & The Mad Birds - Lírou Quêiol en de Méd Bârds


Foi amor à primeira vista?
A geração BRock se levava cada vez mais a sério, aos poucos transformando-se em tudo aquilo que combatiam na geração anterior. Nada mais necessariamente demolidor, então, do que um disquinho curto, aceleradíssimo e com letras totalmente descerebradas, que provavelmente provocariam uma careta de desprezo nos fãs mais roxos de Renato Russo. Perfeito! Era ISSO que eu queria! Dei muitas risadas e fiz farras homéricas com este disco estúpido e maravilhoso.

Ainda rola gostoso?
Várias canções deste disco viravam duradouros memes entre meus amigos, num tempo em que sequer existiam memes! Frases como "Oh Carla, Carla!" e "O olho doeeeeeu!" eram recursos a que apelávamos constantemente (e que deixavam as pessoas ao redor boiando). Obviamente, hoje em dia, nem tudo tem mais a mesma graça, mas ainda sinto uma certa ponta de inveja, por não ter sido eu a escrever "O Sol Eu Não Sei".


Marisa Monte - Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão


Foi amor à primeira vista?
Marisa Monte era aquele ser diáfano que surgiu como "cantora eclética" (uma praga da época) debaixo do pistolão de Nelson Mota, num irregular disco de intérprete, em 1989. As parcerias iniciadas no segundo disco, MM (1991), com Nando Reis, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, deram belos frutos neste terceiro esforço. Um disco caprichadíssimo, em que Marisa passeia confortavelmente por samba, baião e rock, dando liga a uma massa sonora que, talvez, não alcançasse tamanho sucesso na voz de outra cantora. Rico, incomum e prazeroso, era o álbum certo, na hora certa, na voz certa.

Ainda rola gostoso?
Este disco tem participação de Gilberto Gil e Laurie Anderson, além de obras de Lou Reed, Jorge Ben, Paulinho da Viola e algumas das melhores coisas já escritas por Brown, Nando e Arnaldo. É sério que você ainda precisa perguntar se ele funciona? Ele é praticamente um medicamento para os ouvidos e a alma. Deveria ser obrigatório na casa de todo brasileiro.


Raimundos


Foi amor à primeira vista?
Um disco todo montado em cima de dois tabus: sexo e maconha. Pretensões líricas, sutileza e bom senso devidamente mandados à puta-que-pariu, a estreia dos Raimundos era uma pequena obra-prima de inconsequência e humor chulo, especialmente engraçado nas intervenções do sanfoneiro Zenilton. O peso do hardcore era temperado com toques de sonoridade nordestina (embora a banda fosse brasiliense) e, naquele tempo, isso agregava interesse.

Ainda rola gostoso?
Com ideias bem mais liberais sobre os assuntos centrais do que então, o discurso dos Raimundos já não me incomoda em sua franqueza, embora eu ache que o machismo que exala de suas letras não resistiria aos patrulheiros do politicamente correto no Facebook, se fosse lançado hoje. O som resiste bem e ainda diverte, porque o rock, afinal, sempre foi bastante generoso, neste aspecto.


Renato Russo - The Stonewall Celebration Concert


Foi amor à primeira vista?
Renato Russo escancarou a militância gay e gravou um disco quase panfletário, com diversas de suas canções favoritas, em arranjos econômicos, essencialmente de teclados e violão. Com delicadeza ímpar, revisitou Eagles, Billy Joel, Madonna, Bob Dylan e standards de jazz norte-americanos, colocando o coração na garganta. Não apenas por conta da óbvia força do repertório, mas, também, pela interpretação de Renato, um disco tocante, perfeito para embalar aquele recolhimento que precede o sono.

Ainda rola gostoso?
Há tempos Renato Russo deixou de ser uma unanimidade para mim. Ouvir seus discos hoje é, para mim, um exercício de muitos altos e baixos. Quando Renato era chato, putz, como ele era CHATO! Por outro lado, quando ele acertava, era difícil não se render. Algumas destas faixas ainda me encantam muito seriamente, principalmente "Send In The Clowns", "Cherish", "If Tomorrow Never Comes" e "If I Loved You".


Skank - Calango


Foi amor à primeira vista?
O Skank passou rapidamente de curiosa novidade vinda de Minas Gerais a prioridade na Sony Music, que providenciou produção de primeira linha. Obviamente, não adiantaria nada se o grupo não tivesse cunhado uma porção de joias pop de autoria própria e uma versão matadora de "É Proibido Fumar", de Roberto Carlos. Um sacolão de hits que tocou até a exaustão, associando o Skank ao chacundum do dancehall e raggamuffin. O sucesso era tanto que todo mundo cantava, feliz da vida, uma tolice sem sentido algum como "Jackie Tequila".

Ainda rola gostoso?
Não mais. Não tão bem, pelo menos. O dancehall é uma coisa morta, ponto final. O Skank percebeu isso e, hoje, é praticamente outra banda. Sendo tão representativo da produção com toques eletrônicos da época, Calango envelheceu, mas ainda é possível curtir o romantismo de "O Beijo e a Reza" ou o humor da briga de compadres em "A Cerca".


Timbalada - Cada Cabeça É um Mundo


Foi amor à primeira vista?
O primeiro disco da Timbalada havia legado "Beija-Flor" e "Toque de Timbaleiro" ao repertório de todo mundo que gostava de música baiana. Este segundo disco contou com uma produção mais caprichada e tinha composições melhores. O começo era arrasador: "Toneladas de Desejo", "Se Você Se For", "Namoro a Dois". Ouvido no meu Discman, o CD primava pelo som cristalino, as saraivadas percussivas e os metais arrepiando todos os meus pelos. A segunda metade do disco é irregular, mas tem "Sambaê" - e aí, quem resistia?

Ainda rola gostoso?
Hoje em dia, as vozes de Ninha e Patrícia me incomodam muito. Mesmo Xexéu, de quem sempre gostei mais, me parece hoje bastante limitado. Eu sempre detestei essa mania de artista baiano conversar "com o público" em estúdio e a Timbalada abusa dessa interatividade. As boas canções soam um pouco menos boas e as ruins (como a pretensiosa "Prosoema Pra Ocê Ará") continuam ruins. Cada cabeça é um mundo e cada coisa em seu tempo. 


BÔNUS:


O Rappa (por Fábio Fernandes)


Foi amor à primeira vista?
Apesar da ampla concorrência, O Rappa soube pegar seu espaço no cenário nacional. Aquela foi, na minha opinião, uma das melhores épocas da música de qualidade, com grandes bandas surgindo: Nação Zumbi, Planet Hemp, Remanescentes do Paraguaçu, Raimundos, dentre outros. Já estava me cansando de Legião Urbana e semelhantes. Aí, veio O Rappa. Faixas como "Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro", "Não Vão Me Matar" e "Catequeses do Medo", me tomaram de assalto logo de primeira. Jovem, cheio de sonhos e descobrindo que nem tudo são flores, fiquei hipnotizado com a pegada de raggamuffin', reggae, hip-hop e rock que O Rappa me apresentou. Com Yuka à frente de quase todas as composições extremamente politizadas, O Rappa se tornou uma das bandas principais do novo despertar musical brasileiro.

Ainda rola gostoso?
O Rappa sempre rolará gostoso. Quando Yuka deixou o grupo devido a seus problemas pós-atentado, sua saída conturbada deixou uma forte preocupação nos fãs sobre como seguiriam as composições do grupo, já que a maioria destas eram total ou parcialmente suas. Entretanto, a banda se mostrou, como sempre, um camaleão musical e conseguiu emplacar ótimos álbuns em sequência. Não deixando de apegar-se as questão sociais brasileiras, O Rappa amadurece a cada disco com sua, até hoje, não classificada sonoridade. Sua estreia tem, portanto, grande valor por ter dado as bases de tudo que viria depois.


Planet Hemp - Usuário (por Léo Araújo)


Foi amor à primeira vista?
Escrevo estas linhas segundo a impressão que tive do Usuário aos meus 11 anos de idade. Digo isto porque, naquela época, eu ainda não tinha muito dessa noção musical, essa percepção de arranjos que arrepia não só o corpo, mas a alma. Com essa nostalgia em foco, "Não compre, plante", a primeira faixa, já dava ideia do que estava por vir – e que se confirmava nas canções que seguiam, como "Porcos Fardados, "Legalize Já!", "Desdasseis", etc. Com um grave não tão acentuado, o contrabaixista Formigão dava as primeiras notas de uma canção que carregava em si muito 'enganjamento', tanto quanto à problematização do uso da erva – recorrente em toda a carreira do Planet – como também sobre os problemas sociais pelos quais a sociedade brasileira vivia e vive. Funk rasgado e misturado com hardcore sempre foram os ingredientes dos caras da marijuana. Os riffs cortantes de Rafael, com efeitos que lembravam thrash metal; a levada suingada de Bacalhau; as sempre bem colocadas frases de B Negão e Gustavo Black Alien... Enfim, são inúmeros os elementos que compõem a obra músico-social do Planet, que fez e ainda faz parte da realidade de muitos amantes da música raprockandrollpsicodeliahardcoragga

Ainda rola gostoso?
N’alguns momentos, sim, principalmente quando este que vos escreve tem vontade de sentir mais uma vez aquela pegada crua, de garagem mesmo, adentrando em cada canto do corpo. É um álbum que serve como baliza musical, conceitual e cultural. Divisor de águas no rock nacional, uma vez que a forma como foi feito difere em muito das bandas nacionais que conhecemos. Sintoniza aí, relaxa e passa, por favor!

09/01/2014

Reino do Amanhã - Edição Definitiva


Uma coisa que posso dizer sobre Reino do Amanhã é que ela me causou uma grande aflição. Quando foi publicada pela primeira vez no Brasil, em uma minissérie de quatro partes, no ano de 1997, eu e minha família vivíamos um período de grande turbulência, em Goiás. Uma oportunidade de ter uma trégua naquele tempo de vacas magras como supermodelos surgiu para mim quando faltava apenas uma edição para o fim da série, mas isso implicava em uma mudança de volta para a Bahia.

Se você conhece a história, sabe que o gancho da terceira para a quarta edição é de prender a respiração e eriçar todos os pelos. Para meu azar, sem encontrá-la no meu destino, fiquei por meses sem saber como se concluía aquela história tão poderosa. Quando finalmente pude fazê-lo, sabia que ali estava uma HQ que eu guardaria para sempre - na estante e na memória.

Acontece que eu sou a) um mão-aberta desapegado e b) um ávido formador de "discípulos". Eu já havia lido e relido minhas revistas tantas vezes que poderia recitá-las de trás pra frente. Assim, elas - Reino do Amanhã, inclusive - acabaram ganhando novos donos, porque eu sempre adorei saber que contribuí para que alguém adquirisse o hábito da leitura de quadrinhos de super-heróis, frequentemente subestimados como "coisa de criança".


Em 2004, quando a Panini republicou num encadernado a história (que já ganhava ares de clássico), eu a comprei novamente e publiquei em meu antigo blog, o Gotham City, uma resenha que era encerrada com uma sonora "Nota 11", colocando-a acima de tudo que eu já havia lido e visto antes como "Nota 10".

Corta, enfim, para o final de 2013. A Panini anuncia nova republicação da série - desta vez, com capa dura, formato maior e os preciosos extras da versão Absolute americana. O que faz qualquer pessoa sensata numa situação assim? Simples: passa pra frente a edição de 2004 e fica aguardando ansioso a Edição Definitiva.

Existem mais de 100 motivos para querer esta edição: as mais de 100 páginas de extras (entre os quais, uma introdução do escritor da versão romanceada da história, Elliot S! Maggin, a genealogia dos personagens, inúmeros rascunhos de Alex Ross e entrevista com o roteirista Mark Waid) já serviriam para justificar os salgados R$ 89 pedidos pela Panini (o meu saiu por R$ 71). 

O grande motivo, porém, aquele que torna Reino do Amanhã especial, continua o mesmo: ela ainda é a mais poderosa história de super-heróis já escrita.


Imaginada como uma mera realidade paralela para o selo Elseworlds (aqui no Brasil, Túnel do Tempo) da DC Comics, Reino do Amanhã é, hoje em dia, informalmente aceita como o perfeito final do Universo DC, nascido com aquela primeira edição de Action Comics, em 1938. Uma poética e apoteótica saída de cena daqueles heróis que já encantavam o mundo por cerca de seis décadas.

A história começa com uma figura humana frágil e afogada em dúvidas: o pastor Norman McKay. Ele recebe de um moribundo Wesley Dodds (o Sandman da Era de Ouro) o dom de sonhar com um apocalipse que, aparentemente, dividirá o mundo entre humanos e meta-humanos, com trágicas consequências para ambos os lados.

O mundo em que vive Norman McKay, de fato, não é dos mais estáveis: os heróis veteranos saíram de cena ou atuam discretamente. Por sua vez, os jovens e impiedosos meta-humanos, filhos e herdeiros das lendas do passado, brigam nas ruas apenas por brigar, expondo os civis ao risco sem qualquer remorso. A humanidade virou coadjuvante de sua própria história e a falta de um pilar da virtude, como o aposentado Superman, tirou dos heróis do presente qualquer senso moral.

Quando uma tragédia abala o mundo, porém, os ícones do passado se veem obrigados a voltar. O que não se sabe, porém, é se este retorno será a solução para os problemas do mundo ou o definitivo agravante que o deixará à beira de extinção.


Esta é uma história que toca tão fundo no coração de quem a lê porque fala de coisas que fazem parte da vida de qualquer pessoa: a fé e a falta de fé; esperança e desespero; conflito de gerações; o ódio e o perdão; dilemas morais que testam a força de velhas amizades; a capacidade humana para o bem e para o mal.

O roteiro irrepreensível de Mark Waid, que humaniza ao máximo personagens normalmente vistos como deuses, porém, teria bem menos impacto sem os desenhos nunca menos que espetaculares de Alex Ross. Aliados, texto e arte proporcionam uma inigualável sucessão de momentos inesquecíveis. Se o fotorrealismo de Ross não for suficiente, ainda é possível divertir-se identificando as incontáveis referências a HQs clássicas e a outras formas de arte pop, espalhadas pelas páginas do livro em rostos, lugares e objetos.

Reino do Amanhã - Edição Definitiva é, portanto, uma aquisição obrigatória. Não apenas para quem gosta de histórias em quadrinhos. Para quem gosta de boa leitura. Para quem gosta de gente. Principalmente, para aqueles que creem que uma Obra de Arte (atenção às maiúsculas!) é capaz de modificar vidas e transformar o mundo para melhor - um leitor por vez.