16/02/2014

Batman: Xamã


Não há reboot que esconda o óbvio: até o momento, nada nos Novos 52 da DC Comics se equipara ao cânone sobre o qual está montada a mitologia de suas personagens, em especial o Batman e, particularmente, logo depois de Crise nas Infinitas Terras (1985). Foi nesse período que o então inspiradíssimo Frank Miller escreveu as duas histórias que norteariam praticamente tudo que foi feito com a personagem desde então: O Cavaleiro das Trevas e Batman: Ano Um.

A primeira, por passar-se no final da carreira do Batman, é meio que "imexível" (e o fiasco que foi a sequência escrita por Miller em 2001 apenas prova isso), mas foi a responsável por transformar o Batman em um sargentão neurótico e recluso, em boa parte da produção do fim dos anos 80 e começo dos anos 90. A segunda tornou-se a história de origem definitiva para a personagem e, após quase 30 anos, não dá sinais de que perderá a importância ou relevância (sobretudo, após ter sido utilizada como base para Batman Begins, de 2005, primeiro episódio da bilionária bat-franquia no cinema).

Muita gente escreveu histórias que acrescentavam dados à origem mostrada em Ano Um, mas poucos foram tão bem sucedidos e coerentes quanto Dennis O'Neil nesta Xamã, série em cinco partes que inaugurou o título Legends of the Dark Knight, em 1989. No Brasil, foi publicada pela primeira vez como minissérie semanal em cinco partes e com o título em inglês, Shaman, pela Editora Abril, em 1991.

Este encadernado da Panini Comics chega com bom preço (R$ 14,90), bom trabalho gráfico e editorial (com prefácio de Kevin Dooley) e, para mim, faz o resgate de uma obra que muito ajudou a fortalecer a paixão que tenho pelo Batman, mas que havia sido perdida em um desses meus lapsos de desapego, que me fazem doar ou vender coleções inteiras de HQs. Não me lembro da última vez que havia lido Xamã, mas já devia fazer uns 20 anos ou mais.

Na história escrita por O'Neil, desenhada com extrema competência por Ed Hannigan (também responsável pelas famosas capas) e colorizada por John Beatty, vemos um aprofundamento de parte do treinamento de Bruce Wayne, quando se preparava para atuar como Batman pela primeira vez. Enquanto exercita técnicas de rastreamento com o caçador de recompensas William Dogget, no Alasca, Bruce Wayne é emboscado pelo perigoso Tom Woodley e fica à beira da morte por congelamento. Resgatado por membros de uma tribo indígena, tem contato com um ritual de cura que conta a história de como o morcego criou asas para ajudar a um amigo doente (numa sequência inesquecível de iconografia indígena). Cético que é, Bruce não acredita que foi salvo por uma velha lenda, mas assassinatos ocorridos em Gotham o fazem ponderar se existe mais de sobrenatural do que ele gostaria de admitir.

Escritor de fase clássica do Batman, O'Neil capricha na faceta detetivesca da personagem, mas permite que ele tenha lapsos de incerteza (afinal, era o início da sua carreira) quanto às suas crenças e suas próprias capacidades de realizar a missão a que se propôs. Embora sem grandes pretensões neste aspecto, também funciona como denúncia da degradação cultural das tribos. O traço de Hannigan homenageia, em certos momentos, o de David Mazzucchelli - inclusive repetindo momentos icônicos de Ano Um, praticamente uma regra não escrita dessas retcons - mas tem personalidade e fluidez. A colorização econômica de John Beatty ajuda a manter o clima noir, herdado da obra de Miller.

Xamã passou à história, para mim, como o melhor "Um Conto de Batman" (nome da série sob a qual a Abril publicava as histórias de Legends of the Dark Knight), seguida de perto por Acossado (de Doug Moench) e, um pouco mais de longe, por Veneno (também de Dennis O'Neil), outras por cuja republicação torço. Era uma história que eu ansiava por reler, por suas muitas qualidades e pelo alto impacto que teve no meu hábito de ler HQs do Batman. Um retorno muito aguardado e muito bem-vindo.

15/02/2014

Gravidade


Gravidade já está chegando ao mercado de DVD e blu-ray, mas, para minha sorte, as 10 indicações ao Oscar que ele recebeu garantiram seu retorno ao cinema, há algumas semanas. À época do seu lançamento, eu havia tentado vê-lo duas vezes, mas, em ambas, fui traído pela programação anunciada na internet, diferente daquela que realmente havia em salas de Feira de Santana e Salvador.

Era absolutamente necessário ver este filme no cinema. Embora o 3D dele seja pouco eficiente (penso que foi pensado mais para IMAX do que para 3D), o impacto visual do espantoso trabalho de direção de Alfonso Cuarón (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) faz da tela grande o habitat natural de Gravidade. Só assim é possível ter a melhor noção possível da escala de nossa pequenez diante da vastidão do infinito e do isolamento por que passa a dra. Ryan Stone (personagem de Sandra Bullock, em atuação merecidamente indicada ao Oscar).

É incrível o que um diretor competente é capaz de fazer com um fiapo de história, basicamente, resumível em "astronauta fica à deriva na órbita terrestre e precisa enfrentar seus medos para poder voltar pra casa", e um elenco de apenas dois atores. No começo do filme, vemos a ansiosa dra. Stone, acompanhada do sempre otimista comandante Matt Kowalski (George Clooney) e de um terceiro cosmonauta (voz de Phaldut Sharma), em reparos ao telescópio Hubble. O descuidado abatimento de um velho satélite chinês, porém, inicia uma sequência de destruição de outros equipamentos espaciais, colocando os três astronautas na rota de uma "onda" de destroços, viajando a dezenas de milhares de quilômetros por hora. Alguns segundos de atraso na desacoplagem do ônibus espacial e o caos se instala.


Mesmo que os trailers já dessem conta de algumas das melhores cenas, há outras tão ou mais espetaculares que aquelas. A tensão e a sensação de impotência, a cada desastre anunciado em gravidade zero, chegam a ser angustiantes. Cuarón nos brinda com planos-sequências de tirar o fôlego, enquanto a voz de Sandra Bullock canaliza nossas próprias reações ao perigo. Em meio às consecutivas ameaças de morte, a dra. Stone ainda achará tempo para aprender algumas importantes lições sobre si mesma.

Exceto pelas categorias técnicas, é exagero contar com vitórias importantes de Gravidade no Oscar, em 2 de março. Alfonso Cuarón é o mais provável premiado e não é para menos: o que ele realiza aqui é um feito cinematográfico digno de nota. Se você não assistiu ao filme no cinema, eu só posso lamentar e recomendar que o veja em blu-ray, na maior e melhor TV que tiver por perto. Gravidade é um desses casos em que um produto de Arte se transforma em uma autêntica experiência sensorial. É preciso dar a filmes assim a oportunidade de nos afetar e de nos deixar com sucessivos "uau!" na boca e na mente.