23/03/2014

Exu - A Boca do Universo


É sintomático e extremamente oportuno que, no exato momento histórico em que parcelas mais exaltadas da população branca, cristã e direitista brasileira, acostumadas a ter o mundo aos seus pés, esbravejam contra a irrefreável roda da História, ao perceber que, gradualmente, o controle lhes escapa das mãos, uma peça chamada Exu - A Boca do Universo tenha seu imenso cartaz orgulhosamente desfraldado na frente do Teatro Castro Alves.

Nosso país parece estar sempre caminhando para trás, mas de uma coisa é possível orgulhar-se: sempre vai haver quem não fique quieto; quem não fique resignado ao papel de vítima; quem grite mais alto ainda ao ouvir um grito, ao invés de baixar a cabeça.


Daniel Arcades e Antônio Marcelo (foto: Andrea Magnoni)


Daí ser tão legal que, ao mesmo tempo em que forças obscuras (felizmente, menos representativas do que seus latidos e chiliques fazem supor) tentam padronizar o comportamento, a espiritualidade e até a cor da pele tidos como "normais", um espetáculo sobre uma divindade (e não entidade) africana, tão desconhecida quanto demonizada pelas forças supracitadas, inicie uma temporada gratuita no teatro mais renomado da capital mais negra do país, como que dizendo: "Venha! Venha conhecer Exu e, assim, quem sabe, você se conheça um pouco melhor!"

Este é a primeira peça do NATA (Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas) que presencio, fato que me deixa duplamente orgulhoso. Primeiro, por tratar-se de uma companhia teatral da cidade que é meu lar há quase 10 anos, encenando no principal teatro do Estado e colhendo elogios a cada novo espetáculo. Segundo, porque pude, finalmente, pagar uma antiga dívida com dois amigos que integram o grupo e há tempos me cobravam presença: Daniel Arcades (também autor de Exu) e Antônio Marcelo. A eles, juntam-se o também figurinista Thiago Romero, Fernando Santana e Fabíola Júlia.


Uma espectadora interage com Thiago Romero (foto: Andrea Magnoni)


Exu - A Boca do Universo começa solene e ritualística, enquanto o elenco adentra o vão livre do TCA, ladeado pelo público que se espalha da maneira mais informal possível (de pé ou sentados em esteiras e nas próprias estruturas do teatro, exceto pelo público idoso, que foi carinhosamente contemplado com uma espécie de "camarote", com cadeiras). Não tema, porém, estar assistindo a uma representação purista ou reverente em excesso (coisa que costuma redundar em chatice e espantar o público que, afinal, quer se divertir): não demora nada e o bom humor esperto e desbocado do texto (co-escrito por Daniel e pela diretora Fernanda Júlia) se revela, em interações com o público e afiadas observações sobre os autoproclamados inimigos das religiões africanas e a ignorância sobre Exu que ajudam a fomentar.

A trilha sonora é um show à parte. Além dos esperados cantos de domínio público, as canções escritas pelo diretor musical Jarbas Bittencourt (com ajuda de Daniel Arcades em algumas) passeiam por gêneros populares, com letras (algumas bem chulas) que desmistificam o Dono das Ruas para a gente que ainda o desconhece, enquanto o elenco se esmera em danças ora cômicas e atrevidas, ora de uma beleza plástica de encher os olhos (sensação ampliada pelo rústico e vistoso figurino criado por Thiago Romero).


Fabíola Júlia e Fernando Santana (foto: Andrea Magnoni)


E se é verdade que todo o elenco tem sua chance de brilhar e surpreender, fazendo a gente rir, refletir ou corar, tento não estragar nenhuma surpresa ao falar do belíssimo último ato de Fabíola Júlia, em que um fato frequentemente ignorado da história do orixá vem à tona, numa sequência simplesmente emocionante.

A opção pelo espaço aberto traz certo desconforto e algumas dificuldades (o vento, por exemplo, igualmente ajuda e atrapalha) e a sessão que assisti teve problemas de som que, felizmente, não comprometeram o ritmo, mas esses são detalhes pequenos demais para se reclamar, diante de um espetáculo tão bonito em forma, tão rico em conteúdo e tão nobre em intenções. Definitivamente, eu preciso ver mais do teatro do NATA.