08/05/2014

Nação Zumbi (2014)


A Nação Zumbi é uma banda acostumada a vencer desafios gigantescos. 

Em 2000, eles mostraram que estavam prontos para seguir em frente sem seu vocalista (Chico Science, morto em 1997), sem perder a identidade ou a dignidade (alguém ousa dizer que "Quando a Maré Encher" não está à altura do legado de Chico?). O som da Nação estava ligeiramente modificado, mantendo o peso das guitarras e tambores, mas com um andamento mais contemplativo. O vocalista Jorge Du Peixe firmou-se como um substituto digno e o prestígio dos mangueboys no Brasil e no mundo só aumentava.

Na primeira década do século 21, os bons discos da Nação se acumulavam rapidamente, em total contraste com a mediocridade do mainstream do rock brasileiro, que se via refém da praga emocore. Depois de Fome de Tudo (2007), porém, a banda anunciou uma pausa indefinida. Os projetos paralelos (Maquinado, Los Sebosos Postizos) e discos de regravações (o Ao Vivo no Recife, de 2012, e o Mundo Livre S/A vs. Nação Zumbi, de 2013) ajudaram a diminuir a saudade dos fãs. O que todos mais queriam, porém, era um disco novo.

Nação Zumbi chega quebrando o prolongado silêncio, trazendo o duplo desafio de atualizar o som da banda, evitando que ela caia na autocaricatura, e de atrair um novo público, sem perder o respeito dos fãs de longa data.

Para nossa sorte, mais uma vez, a Nação Zumbi sai vitoriosa da contenda.

O single "Cicatriz" entrega o jogo: a nítida influência da música brega mostra que a Nação quer ampliar suas opções e sabe como fazer isso sem descaracterizar-se. A letra é de um romantismo aberto e direto, sem paralelos na história da banda até aqui (o que deve significar que Du Peixe andou sofrendo um bocado por amor). É uma canção pop das boas, coisa de quem talvez esteja cansado de tanto experimentalismo e papo-cabeça, querendo não se levar mais tão a sério (sabedoria que chega, com a idade, para todo grande artista).

Isso quer dizer que a Nação Zumbi perdeu seu peso e deixou de lado a crítica social? Claro que não, e "Bala Perdida" e "Pegando Fogo" estão ali pra quem se liga no discurso de protesto da banda. Não dá pra negar, porém, que é o amor que guia o repertório. Mesmo em faixas nas quais pesam tambores de maracatu e guitarras, o romantismo dos versos faz a cama onde se espraiam as ótimas intervenções do guitarrista Lúcio Maia. Canções absurdamente groovadas como "Defeito Perfeito" e "Foi de Amor" trazem de volta um pique que parecia perdido lá no começo da banda, há 20 anos, ainda com Chico Science à frente.

Além de "Cicatriz", duas outras faixas devem tomar de assalto os corações e levar fãs às lágrimas nos shows: "A Melhor Hora da Praia", em que Marisa Monte gentilmente retribui a passagem de Dengue, Lúcio e Pupilo por sua banda, em sua última turnê; e "Um Sonho", talvez a canção romântica brasileira mais bonita de 2014, em que chama atenção a versatilidade vocal de Du Peixe.

Seria uma indesculpável má-vontade, mas é possível que alguém não se dê por satisfeito com esta "nova" Nação Zumbi e prefira agarrar-se ao papo sci-fi e maconheiro de outros tempos, mas, por favor, entenda: os caras estão 20 anos mais velhos. Eu acharia bem pior se eles não mudassem, evoluíssem ou amadurecessem. Os mangueboys entendem que se existe uma coisa pior do que falta de assunto, é a falta de outros assuntos. Nação Zumbi merece ouvidos e corações abertos ao amor e à novidade.