16/06/2014

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido


Este texto está recheado de SPOILERS.

É por apenas um nariz que X-Men: Primeira Classe (2011) perde para X-Men 2 (2003) o páreo de melhor filme dos mutantes da Marvel. O filme de Matthew Vaughan alcançou um raríssimo equilíbrio entre qualidade de roteiro e ação eletrizante, com ótimo conflitos, intérpretes e pano de fundo histórico. Apesar disso, ele possuía sérias incoerências em relação aos quadrinhos e aos três filmes anteriores, dos quais não se assumia como reboot.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido chegou ao cinema com a ambição de amarrar essas pontas soltas, trazendo de volta o diretor que deu respeitabilidade ao gênero de super-heróis com X-Men (2000) e X-Men 2, Bryan Singer, que se ausentou de X-Men: O Confronto Final (2006) para cuidar do malfadado Superman: O Retorno, voltando como autor e produtor no filme de 2011.

Coincidência ou não, a presença de Singer nos créditos ajuda a manter um bom nível e o filme cumpre suas pretensões de maneira bastante satisfatória, servindo com um adeus digno à primeira geração de atores (Patrick Stewart, Ian McKellen, Halle Berry) e ampliando as possibilidades para a nova geração (James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence), com o virtual zeramento de algumas "cagadas" cometidas ao longo dos filmes anteriores (pelo próprio Bryan Singer, inclusive).

Há erros que já estão além de qualquer conserto, como a criação da equipe sem seus membros clássicos (exceto pelo Fera) ou a inclusão de dois vilões notórios (Magneto e Mística) em suas fileiras. É de se lamentar, também, o desperdício de figuras como Banshee e Emma Frost, citados como mortos neste novo filme.

Certas mancadas, porém, ainda podem e devem ser corrigidas, a maior delas sendo o Ciclope banana dos dois primeiros filmes, em contraste com o líder nato das HQs. O desejo da produção é encontrar novos intérpretes para os papéis de Ciclope, Jean Grey, Tempestade (sinto cheiro de Lupita N'yongo) e Noturno. Existe ainda a possibilidade de que a morte de Azazel (mais uma citada no filme) não modifique a origem de Noturno como sendo seu filho com Mística, uma vez que Raven passou os dez anos entre o filme anterior e este sumida das vistas de Magneto e Xavier.

Ao filme em questão, sem mais delongas.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido começa alguns anos no futuro, em que os Sentinelas do magnata bélico Bolivar Trask (o excelente Peter Dinklage) massacraram não só aos mutantes, mas à humanidade como um todo, com pouquíssimos focos de resistência. (Falha grave de roteiro #1: ninguém explica se alguém ainda controla os Sentinelas ou se ficaram autoconscientes). As versões sênior do Professor X (Patrick Stewart) e de Magneto (Ian McKellen) comandam a pequena força rebelde completada pelos já conhecidos Colossus (Daniel Cudmore), Homem de Gelo (Shawn Ashmore), Kitty Pryde (Ellen Page) e Wolverine (Hugh Jackman), além das caras novas Blink (Bingbing Fan), Bishop (Omar Sy), Mancha Solar (Adam Canto) e Apache (Booboo Stewart).

Na desolação do futuro, o recurso dos X-Men contra a inevitável derrota diante dos aprimorados e terríveis Sentinelas é que um deles tenha a mente transferida para seu corpo alguns dias no passado, para avisar aos amigos do iminente ataque. Estranhamente, não é Xavier o responsável pela manobra, como seria de se esperar, mas Kitty Pryde. (Falha grave de roteiro #2: o poder de Kitty é unicamente o de atravessar objetos sólidos e o filme não explica como ela consegue tal proeza sozinha ou se tem ajuda de Xavier). Na HQ em que o filme se inspira, quem manda Kitty pro seu corpo mais jovem é Rachel Summers, filha telepata de Scott e Jean.

Diante do fracasso e extinção certos, a última esperança dos mutantes é evitar a criação dos Sentinelas, enviando a mente de Wolverine ao passado para impedir o evento catalisador da ativação dos Sentinelas: o assassinato de Bolivar Trask por Mística (Jennifer Lawrence), no distante 1973. Para ter sucesso, Logan precisará reunir os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender), num tempo em que as feridas deixadas pelos eventos de Primeira Classe ainda não cicatrizaram. Como Magneto se encontra preso muito abaixo no subsolo do Pentágono, eles precisarão de uma ajuda discreta e veloz, que atende pelo nome de Peter Maximoff (ei, por que não Pietro, hein?), vulgo Mercúrio (Evan Peters).

A invasão do Pentágono gera uma cena em aprimorado bullet-time, visualmente tão impactante quanto o ataque de Noturno à Casa Branca, em X-Men 2. A diferença é que o que aquela tinha de tensa, esta tem de cômica. Ao som de "Time in a Bottle", de Jim Croce, Mercúrio protagoniza gags dignas de um desenho do Pernalonga, evitando o banho de sangue para o qual Magneto já se armava. Uma sequência pra História do Cinema.

O cenário histórico, desta vez, é a derrota americana no Vietnam. Com o fracasso na guerra, não é difícil para Trask convencer o presidente Richard Nixon de que conter a proliferação de mutantes (mal-vistos desde o incidente em Cuba no filme anterior e a morte de John Kennedy, atribuída a Magneto) seria benéfico à sua imagem política. O Programa Sentinela é sancionado, mas, para variar, Magneto tem seus próprios - e terríveis - planos. Para quem achava que o Magneto dos filmes não se decidia entre vilão declarado ou anti-herói, qualquer dúvida desaparece aqui.

A recente onda de premiações a Jennifer Lawrence favorece o protagonismo de Mística. Além de ser o pivô da trama central, suas cenas de combate são sempre de cair o queixo (a quem devo parabenizar por tamanha elasticidade, à própria atriz ou sua dublê?). A única reclamação a fazer é quanto à sua maquiagem, cada vez menos detalhada, agora que Jennifer é um rosto a reconhecer. As escamas em sua pele foram drasticamente diminuídas em relação ao caprichadíssimo trabalho feito com Rebecca Romjin-Stamos, nos três primeiros filmes.

Sobre os novos mutantes apresentados, não há muito o que dizer, porque eles praticamente entram mudos e saem calados. Mesmo assim, é difícil não se empolgar com suas demonstrações de poder e com as perfeitas interações, principalmente as que envolvem Blink e seus portais. Chega a ser doloroso vê-los sofrer mortes as mortes mais violentas já vistas na franquia (o tom geral do filme é bem mais sombrio que nos anteriores).

Com o futuro devidamente consertado (coisa que nem chega a ser um spoiler), abre-se a possibilidade de que sejam corrigidas as mancadas que mencionei e mais algumas. De certo modo, por mais arbitrário que pareça simplesmente dizer "esqueçam tudo que foi feito até aqui", isso está em plena concordância com o que é visto nos quadrinhos, com certa regularidade. Os X-Men sempre foram os mais ativos protagonistas de sagas acaba-mundo-muda-tudo. Imagine só que bênção é ignorar a existência daquela bomba chamada X-Men Origens: Wolverine!

Mesmo sem o capricho dramático apresentado em Primeira Classe (com falas-clichês pipocando), este X-Men: Dias de um Futuro Esquecido se coloca entre os melhores da franquia e sua cena pós-crédito faz menção ao vilão da próxima aventura, nada menos que o primeiro mutante da história. X-Men: Apocalipse chega em 2016 e, pelo jeito, nem tão cedo a Fox abrirá mão dos direitos dos mutantes. Aos Marvel Studios, impedidos de fazer um filme mutante (teoricamente) como se deve, continuará sobrando apenas fazer beicinho.