20/07/2014

Diário das terras sem Facebook


30 de Junho - 23:38. Muito sono. Não quero esperar até meia-noite. Perfil deletado, aplicativo apagado. Até breve, Facebook!

1º de Julho - Acordar e não ter na tela do celular as notificações de costume faz parecer que está faltando alguma coisa no dia. Hoje, li o quarto volume de Planetary e o último capítulo do último volume de Sandman - Edição Definitiva.

2 de Julho - Saco... Tudo que vejo de interessante na internet me faz pensar, "Vou postar isso no Facebook"... mas, aí, eu lembro que não tenho Facebook. =\ Acabei de ler Fábulas 17.

3 de Julho - Já pensei bem menos em Facebook, embora tenha sentido um comichão incontrolável de partilhar o vazamento do novo disco de Morrissey, ocorrido no fim da noite de ontem. Hoje foi dia de visitar a agência da Caixa e reafirmar a certeza de que lá é uma sucursal do inferno. Pelo menos, o que realmente importava deu certo: chaves do meu apartamento na mão! :)

4 de Julho - Assisti a Brasil 2 x 1 Colômbia na casa de um ex-aluno que faz mestrado em Física, em Edimburgo, capital da Escócia. Conosco, estava um amigo dele, também físico. De repente, eles engataram um papo sobre pontos quânticos, física de materiais e outros bichos cabeludos. Nunca pensei que me veria em meio a uma cena de The Big Bang Theory!

8 de Julho - Alemanha 7 x 1 Brasil, um dos espetáculos mais deprimentes já vistos no esporte, praticamente uma vitória por W.O.

10 de Julho - Dez dias fora do Facebook. A maior diferença percebida, até o momento, é que não estou usando Facebook. 

13 de Julho - Acordei cedo de minha primeira noite dormida no novo apartamento. O corpo ainda está cansado das muitas escadas subidas e descidas para realizar a mudança. No começo da noite, a Alemanha sagra-se campeã da Copa do Mundo, com todos os méritos e mais alguns. Estou segurando numa boa a vontade de usar Facebook, mas parece que tenho um problema mais sério: as limitações da internet na área do condomínio onde vim morar. Hoje, reli apropriadamente Os Supremos 2.

15 de Julho - Assembleia do condomínio. Um monte de gente metida a consciente e entendida, aproveitando 15 minutos de fama e disputando quem fala mais alto. Fome, sono, tédio e um incontrolável desejo de ter meu raio da morte à mão me consomem.

18 de Julho - De onde vem tanta água que cai sobre esta cidade? São Pedro, você é um exibido! Reli We3 e os quatro volumes de Corporação Batman. Grant Morrison ruleia demais.

19 de Julho - Ói, quer saber? Eu já não tenho internet em casa (Velox não atende o bairro e escolher um provedor local depende de outra p*rra de assembleia), os sinais de TV e de celular também são umas drogas... Além disso, minha vida não mudou para melhor ou pior sem o Facebook. Não houve epifania alguma. Não fiquei mais inteligente, mais ativo fisicamente e nenhuma nova amizade foi conquistada na base do "tirei o olho da tela e vi que tinha gente ao meu redor". Como já suspeitava, sou um usuário moderado de Facebook, longe de precisar de rehab. Além disso, sinto falta das dicas, das notícias, do humor e da interação com o pessoal que vive longe. Prometi passar todo o mês fora, mas, como diz o mestre Lulu Santos, "quem fica parado é poste". Mudei de ideia, simples assim, e, nas palavras do mesmo mestre, "eu tô voltando pra casa". Logo!

07/07/2014

Planetary

 

Talvez Planetary fosse a HQ da Vertigo/Wildstorm que eu mais queria ver republicada pela Panini. Não que ela seja superior a títulos como Y - O Último Homem, 100 Balas ou Ex Machina. Acontece que, destas três últimas, eu era um virgem total, sabendo apenas por alto do que tratavam. Tive um gostinho de Planetary, porém, em algumas edições da extinta Pixel Magazine, durante a malfadada tentativa da Pixel/Ediouro de publicar o material dos selos adultos da DC Comics, lá pelos idos de 2007.

A Pixel Magazine começou a publicar Planetary a partir da edição original nº 13. As edições 1 a 12 haviam sido publicadas anteriormente pela Devir, em dois encadernados já raros (porque as tiragens eram sempre pequenas, mesmo) e bem caros (porque a Devir não só metia a faca: também dava uma torcidinha). Ou seja, usando uma metáfora adequada a estes tempos de Copa do Mundo, eu cheguei ao jogo apenas no segundo tempo.

Após oito meses, eu interrompi minha coleção de Pixel Magazine, tendo lido até a edição 20 de Planetary. Por mais que Hellblazer (que a Pixel chamava de Constantine) fosse cativante e que a Promethea de Alan Moore fosse de alto nível, era pelo desenrolar de Planetary que eu mais aguardava, mês após mês. A criação de Warren Ellis e John Cassaday era responsável por uma sequência quase ininterrupta de "uaus" em minha mente, frequentemente acompanhados de uns "p*rra, que f*da!" que se viam verbalizados.


Planetary é o nome de uma organização ultrassecreta que existe desde os primórdios do século XX, dedicada a proteger conhecimento histórico e científico não-catalogado oficialmente. Sabe aquelas coisas que a gente sempre acreditou serem mera ficção, como alienígenas, meta-humanos, gigantes radioativos e viagens espaço-temporais? Pois bem, elas estavam acontecendo de verdade, bem debaixo do nosso nariz. É este o tesouro que a Planetary tenta proteger, ao passo em que seus obstinados inimigos, conhecidos apenas como Os Quatro, tentam, a todo custo, afastá-lo da humanidade.

Warren Ellis escreveu histórias que são apaixonadas declarações de amor aos livros, ao cinema e aos quadrinhos. As referências a personagens e fatos, sejam históricos ou ficcionais, são tantas que uma leitura desatenta pode resultar na perda de muita informação interessante. Planetary é melhor curtida se você tem uma boa cultura geral, mas iniciantes têm nela uma desculpa perfeita para se aventurar pelas mídias e obras aqui homenageadas. O coquetel de ciência, história, mitologia e cultura pop seduz e converte leitores à exploração do real e do fantástico.

Guiando a expedição, estão os carismáticos personagens centrais: O Baterista, um jovem com capacidade de "enxergar" e interagir com informação sobre virtualmente qualquer coisa; Jakita Wagner, uma espécie de Mulher-Maravilha moderna e esquentada; e Elijah Snow, líder do trio, um homem capaz de manipular baixas temperaturas e com graves lacunas na memória. Enquanto catalogam as proezas que fazem deste um mundo maravilhosamente estranho, as peças do quebra-cabeças da mente de Snow vão se encaixando - e ele parece ter contas a acertar com muita gente.

O eficiente texto de Ellis, porém, não teria o mesmo impacto sem o auxílio do lápis genial de John Cassaday. Captando com precisão e beleza a escala grandiosa e ação frenética das missões da Planetary, a arte de Cassaday nos deixa atônitos com suas criaturas e cenários de cair o queixo. Como o texto, a arte, também, "esconde" sutilezas ao alcance de leigos e iniciados. Ler esta série provoca intenso prazer visual e aquela sensação maravilhosa de que estamos aprendendo enquanto nos divertimos (muito!).


A Panini Comics deu início à publicação de Planetary em outubro de 2013 e concluiu-a apenas seis meses depois, em abril de 2014. Foram quatro belos e baratos encadernados com a saga completa, cuja última parte, até aqui inédita no Brasil, foi publicada espantosos 10 anos após a primeira, devido a suspensões temporárias (algumas bastante longas) por problemas pessoais e outros compromissos dos autores. A chance de ler, do começo ao fim, em tão pouco tempo, uma HQ tão rica em sentimentos e propósitos, uma ode ao conhecimento e à imaginação, é uma dádiva do porte de um passeio pela Sangria, com escalas em dimensões oníricas e cemitérios de deuses. Não permita que isso seja tirado de você.