10/08/2014

Guardiões da Galáxia


Quem vem curtindo filmes de super-heróis nos últimos 15 anos deve achar que é fácil fazer grana com eles; que os fãs vão lotar os cinemas para ver qualquer porcaria e babar por ela. Nada mais distante da verdade, porém. Os fracassos de Elektra, Demolidor, Lanterna Verde e Superman - O Retorno, entre outros, alertaram os estúdios para o fato de que efeitos visuais e lutas coreografadas só dão resultado quando existe uma boa história sendo bem contada - além, claro, de equipe técnica e elenco comprometidos com algo mais do que apenas a expectativa de ganhar uma montanha de dinheiro.

E não é que os bons e os ótimos filmes de super-heróis tenham sido feitos com genuína intenção de reinventar a roda, mas o fato é que pedaços preciosos de celulóide, como Batman: O Cavaleiro das Trevas, X-Men: Primeira Classe e Capitão América: O Soldado Invernal, agregam respeitabilidade dramática a um gênero que costuma ser entendido como a síntese do escapismo. Nada contra o caráter simplista de filmes divertidíssimos, como o Homem-Aranha de 2002, Homem de Ferro e Os Vingadores. Muito pelo contrário: é sabido e reconhecido que fazer humor em meio à ação, sem soar ridículo, não é para qualquer um.

É a esta categoria, de aventuras inteligentes, grandiosas e engraçadas, que os Marvel Studios acabam de acrescentar mais um grande acerto: Guardiões da Galáxia.

"Quem?", você talvez se pergunte, e não sem razão. Embora já sejam antigos dentro da mitologia cósmica do universo Marvel nos quadrinhos, os Guardiões nunca desfrutaram do sucesso dos X-Men ou do Homem-Aranha. Apenas a encarnação mais recente (não por acaso, a utilizada no filme) fez sucesso razoável, com vendagens beirando as 40.000 cópias (os grandes sucessos da Marvel Comics encostam ou ultrapassam facilmente a barreira dos 300.000 exemplares, pra você ter uma ideia).


O fato de você (como eu) não saber nada sobre os Guardiões, porém, não serve como desculpa para não ir ao cinema, tendo em vista que você estaria deixando de ver uma aventura empolgante, inteligente e muito engraçada. Algumas das nada inocentes piadas surpreendem pela sagacidade, como aquela que brota quando o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) tenta fazer a letal Gamora (Zoe Saldaña) dançar ao som da mixtape que carrega consigo desde criança. Vale dizer que a trilha sonora do filme é capaz de botar um sorriso no rosto de qualquer um que curta o rock/pop das décadas de 60, 70 e 80 - e se parece aleatório que um filme espacial traga essas canções a reboque, isso tem uma explicação que qualquer um, humano ou não, pode compreender.

Convém lembrar que o pé-no-chão, a discussão dos problemas mais comuns a todas as pessoas, mesmo quando através de personagens impossíveis, como Groot (voz de Vin Diesel) e Rocket Raccoon (voz de Bradley Cooper), sempre foi uma das chaves do sucesso da Marvel. Abordar os dramas dos desajustados e deserdados (só para completar a lista, vingança pela família morta é o que move o quinto guardião, Drax, papel de Dave Bautista) é uma marca da editora desde seus primórdios. Machismo, bullying e racismo são chamados à tona - sem grande profundidade, claro, mas de maneira que o recado seja entendido.

Apesar disso, não vá ao cinema pensando que o filme é choroso ou panfletário. Nada disso! Diversão é a palavra-chave aqui e isso provavelmente explica como atores de calibre, como Glenn Close, John C. Reilly, Michael Rooker, Djimon Hounsou e Benicio del Toro, se entregam a papéis coadjuvantes sem medo de serem felizes. O humor também não eclipsa a ação explosiva e grandiosa, com ótimos efeitos especiais e empolgantes lutas corporais.


Ah, sim! A história: um item encontrado pelo Senhor das Estrelas num planeta abandonado é objeto de desejo da divindade cósmica Thanos (voz de Josh Brolin, em ponta não creditada) e de outros colecionadores. Uma série de acasos aproxima e transforma os cinco bandidos em uma improvável equipe, unida para frear as ameaças de Thanos e do seu terrível agente, Ronan, o Acusador (Lee Pace).

Simples, mas longe de simplório, Guardiões da Galáxia ainda parece pouco conectado aos demais filmes da Marvel, mas o garantido retorno de Thanos em Os Vingadores 2: A Era de Ultron, ano que vem, deve aproximar os bambambans deste desconhecido e simpático quinteto de maus elementos, que também já têm sua segunda aventura garantida para 2017. Pelo embalo, ainda levará algum tempo para que deixemos de ouvir um diagnóstico que já está quase virando senso comum: "a Marvel acertou de novo".