06/10/2014

O U2 e o fim da minha inocência


Isso vai doer em mim tanto quanto em você, mas alguém precisa escrever isso: o U2 não tem mais nada a dizer. Quando isso acontece, o artista começa a apelar para não ter que descer do palco.

Antes, porém, vamos dar algum crédito à banda: eles já estão por aí há mais de 30 anos e não dão sinais de esgotamento criativo (entenda: apenas no que diz respeito a não cair na tentação de viver de glórias passadas). Dá pra contar nos dedos de uma mão as coletâneas oficiais do U2: os dois Best Of (1980-1990 e 1990-2000) e 18 Singles. Pode-se contar como certo um novo lançamento do grupo a cada quatro anos, em média. Há tempos não se ouve falar de qualquer escândalo envolvendo o nome do grupo e a amizade entre eles parece mais sólida a cada dia, sem disputas de ego. Um feito e tanto, num meio em que grandes bandas acabam pelas mais tolas razões.

Suas mastodônticas turnês sempre figuram entre as mais lucrativas e trazem inovações tecnológicas que deixam os queixos dos fãs em cacos no chão e a concorrência comendo poeira. Há sempre uma grande expectativa sobre como será o palco de cada nova turnê do U2, como tem sido desde a histórica Zoo TV, há mais de 20 anos.

Afagos feitos, vamos à porrada.

O U2 não tem mais relevância musical. Tanto não tem, que precisou apelar a uma torpe estratégia de marketing para o lançamento de seu novo álbum, Songs of Innocence: o disco apareceu em todos (TODOS!) os dispositivos Apple (iPods, iPads, iPhones) mundo afora, no dia 9 de setembro. Não importava se você era fã ou não, se queria ou não o álbum: ele foi enfiado na sua biblioteca e você tinha que acostumar-se com ele ali, porque ele não podia ser excluído pelas vias normais. Diante da chiadeira generalizada que tomou conta da internet, com anônimos e famosos esculhambando o grupo pela invasão, a Apple teve que montar uma página especialmente para quem quisesse apagar o "presente".

E não é que Songs of Innocence seja um disco ruim - é ligeiramente superior ao seu predecessor, No Line on the Horizon (2009), por exemplo. O problema é que mesmo esse indicativo de razoável qualidade já não esconde o fato de que o U2 está fazendo hora extra. Para cada centelha pop genuína ("Every Breaking Wave"), existe uma canção mala para testar nossos nervos ("Sleep Like a Baby Tonight"). Para cada semi-blues com um pouco mais de fibra ("Cedarwood Road"), uma coisinha pseudo-épica e desimportante ("The Miracle of Joey Ramone").

A verdade é que a mesma artimanha que garantiu a longevidade do U2 vai, agora, apressar seu declínio: a opção pelo pop de alcance mundial. Com todo o dinheiro que já ganharam, se quisessem, Bono, Edge, Larry e Adam poderiam optar por trabalhos mais experimentais e menos ambiciosos, como Zooropa (1993). Poderiam investir na pegada mais blues que sempre rendeu bons frutos ("Bullet the Blue Sky", "Silver and Gold", "Breathe"). Caramba, poderiam simplesmente admitir que a idade chegou e não ficar correndo atrás de parecerem eternamente jovens, mas, não. O U2 quer estar sempre na crista da onda e não só trazer como SER a novidade - e, convenhamos, ser a novidade, com quase quatro décadas de história no lombo, é complicado pra qualquer um.

Daí que o disco de 2009 já não vendeu tanto e este novo deve vender menos ainda. Ninguém, desde que minimamente ligado ao que acontece no mundo da música hoje em dia, parece dar muita bola para o U2. Sua importância está encolhendo a olhos vistos, o que me traz a uma constatação difícil, que relutei em aceitar: o U2 não é realeza do rock. Não é, não é, não é! Ninguém vai negar que foram importantes e que têm um legado para o futuro, mas o Achtung Baby (1991) e outros poucos lampejos de personalidade não os colocam em pé de igualdade com Beatles, Stones ou Queen, por exemplo.

"Mas, Batman, você sempre foi tão fã dos caras e agora tá nessa?"

É, meu querido, pois é. O U2 teve muita importância na formação do meu gosto musical e foi, por um tempo, a principal referência de rock que eu tinha. Só que o tempo passou, eu fui conhecendo um pouco mais, não só de rock, mas, de música como um todo, e subindo meus padrões. Sendo bastante sincero, neste exato momento, o U2 está para o rock gringo como a Legião Urbana está para o rock brasileiro: uma banda que eu já cultuei em nível quase religioso, mas que, hoje, me dá certo "bode" quando ouço e alguma vergonha de admitir que já gostei tanto.

Não que o U2 deva se importar com minha opinião, claro. Hoje, eles são muito mais senhores de negócio do que exatamente uma banda de (vá lá...) rock and roll. Ninguém tão intimamente ligado a uma corporação voraz feito a Apple pode se dizer "do bem", como o U2 gosta de se sentir. A repercussão negativa do lançamento de Songs deve ensinar lições aos irlandeses - a principal delas, a mais óbvia, é que ter um novo álbum na coleção é uma decisão tomada de forma consciente pelo fã, não empurrada goela abaixo por artistas que querem ser amados a qualquer custo.

Eu esperava mais de vocês, rapazes.