09/11/2014

U2 - Songs of Innocence


Não vai ser fácil escrever estas palavras, porque, não faz muito tempo, eu dei uma baixa daquelas no U2, mais por causa da odiosa (ainda que revolucionária) manobra mercadológica que moveu o lançamento deste disco do que por suas qualidades - ou falta delas.

Mas, como se sabe, reconhecer um erro é uma virtude e eu admito: eu estava enganado ao afirmar que o U2 não tem mais nada a dizer; Songs of Innocence é um belo disco. Dentro da extensa discografia do grupo, talvez mereça estar no terço superior de uma lista do melhor pro pior. Não habitaria o cume de ar rarefeito do Olimpo de onde reinam obras-primas como Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), mas não estaria muitas posições abaixo, acredite.

Acontece com ele, agora, o que geralmente ocorre a cada novo lançamento da banda: o disco me soa estranho durante algum tempo, com apenas algumas faixa sobressaindo e agradando de primeira (caso de "Every Breaking Wave" e "Cedarwood Road", as únicas que mereceram menções elogiosas em meu texto anterior), mas, conforme as audições se acumulam, os elementos que me fazem amar o repertório do U2 vão se revelando.

A primeira metade do disco desce redondinha: de "The Miracle (of Joey Ramone)" - longe de ser a "coisinha pseudo-épica e desimportante" de que a acusei antes - até "Volcano", temos o grupo em grande forma, apoiando-se firmemente na cozinha de Adam e Larry, como há tempos não se ouvia. Não que The Edge não tenha seus momentos de brilho; eles estão lá (o riff de "Every Breaking Wave", os backing vocals sempre inspirados), mas elogiar "o cientista da banda" é chover no molhado.

Tendo escrito as letras mais pessoais da banda em muito tempo (evocando a infância e a juventude em Dublin, os ídolos e os entes queridos perdidos), Bono tem aqui momentos de grande autenticidade sentimental, extraindo o melhor do seu timbre na construção de refrões empolgados ("California (There Is No End to Love)", "This Is Where You Can Reach Me Now") e emocionados ("Iris (Hold Me Close)", "Song for Someone"), sem soar combalido pelos 53 anos, exceto pelo lamentável falsete que deixa a já preguiçosa "Sleep Like a Baby Tonight" com o indesejado troféu de canção mais fraca do disco.

Quando o disco se encerra, com a bonita "The Troubles", vem a certeza (e ao menos isso foi um acerto do meu texto anterior): valeu a pena esperar cinco anos, porque Songs of Innocence soa mais honesto, variado e inventivo do que os dois álbuns anteriores - cabe atribuir ponto ao superprodutor Danger Mouse - e que bom que ele não incluiu o débil single "Invisible", indigno do repertório remanescente.

Se é verdade que o grupo já prepara um novo lançamento para breve (supostamente chamado Songs of Experience), estou oficialmente curioso e totalmente reconciliado com esta banda que faz trilha sonora pra minha vida há quase 30 anos. Como todo mundo sabe, a gente só se ocupa de brigar com quem a gente ama. Perdão pelo piti de um mês atrás, caras. Amigos? :-)

Peninha - 50 Anos


Este é um especial merecidíssimo, comemorando as cinco décadas de um dos melhores personagens da Disney, o mais versátil, lesado e desastrado membro da Família Pato: Peninha!

O Pato Donald pode ser O astro da Disney (para mim, muito mais querido que o Mickey Mouse), mas Peninha protagonizou momentos que definiram e fortaleceram o hábito de ler quadrinhos como uma das características mais duradouras e evidentes de minha personalidade. Na década de 80, quando chegou a ter sua própria revista, foi responsável por gargalhadas de toda a minha família, com suas amalucadas aventuras produzidas no Brasil, em especial aquelas em que atua como repórter do jornal A Patada.

É desta fase a história que eu mais queria ler neste especial: "O Barão, o Porão e a Assombração", um monumento de nonsense absolutamente genial, que impregnou minha memória por mais de 30 anos... mas que, infelizmente, "não bateu" da mesma forma agora. Tá, eu sei que não tenho a mesma idade da primeira vez que eu a li, mas parece estar faltando algo ali - provavelmente, está faltando mais "ão". Achei que tinha menos que antes. Talvez tenham mexido no texto pra esse lançamento.

Não que este detalhe vá diminuir o prazer e a diversão de ler essas histórias, muito bem escolhidas. Desde a fase inicial americana, mais "ortodoxa" (isto é, ortodoxa em relação à totalmente despirocada fase brasileira, que ganha óbvio destaque), a presença de Peninha é sinônimo de imprevisibilidade, caos e risadas garantidas. O jeito tranquilão e distraído, inabalável até diante do perigo, é o elemento que enlouquece todo mundo ao seu redor e provoca as situações mais loucas.

Se outros personagens têm um alter ego (Superpato, Morcego Verde, SuperPateta), Peninha pode orgulhar-se de ter tido, pelo menos, quatro identidades secretas regulares: Pena Kid (com histórias ambientadas no Velho Oeste), Pena das Selvas (em que faz as vezes de Tarzan), Pena Submarino (alô, Namor!) e o mais maluco justiceiro de Patópolis, o Morcego Vermelho (impagável paródia do Batman).

Outro destaque de Peninha 50 Anos é a história que apresentou ao mundo seu sobrinho, o hiperativo e esquentado Biquinho. Sobre ele, vale lembrar uma curiosidade: a popularidade da revista do Peninha naqueles tempos era tamanha, que as cores definitivas das penas e roupas do Biquinho foram decididas em concurso nacional, promovido pela Editora Abril.

Ao contrário dos seus parentes mais ricos (Tio Patinhas) e famosos (Donald), Peninha não ganhou uma coleção em formato americano com letras douradas, mas, com suas 307 páginas e 31 histórias, ao custo de R$ 16, este é um especial de leitura agradável, que faz a gente sorrir bastante e, ocasionalmente, gargalhar. Para mim, parece uma homenagem adequada e um investimento aconselhável.

Mundo HQ


- Para quem pensava que "A Corte das Corujas" era fogo-de-palha e que Scott Snyder logo perderia o fôlego no comando das aventuras do principal título do Batman, o prolongado "Ano Zero" vem provando o contrário. Melhor que isso é ver que a qualidade do texto de Snyder encontrou uma contraparte perfeita na arte precisa, econômica e, por vezes, espetacular de Greg Capullo. Dá gosto comprar Batman todo mês (ainda mais agora, que a Detective Comics escrita por John Layman também tem se mostrado bastante digna). Em tempo: "A Corte das Corujas" está programada para sair em encadernado para livrarias, até o fim do ano.

- Por outro lado, A Sombra do Batman está em permanente risco de "degola" na minha lista de compras. O carro-chefe, Batman & Robin, vai muito bem (mesmo sem Robin, desde a morte de Damian Wayne em Corporação Batman 4) e vale um elogio ao roteirista Peter J. Tomasi, no comando da coisa desde antes do advento dos Novos 52. Asa Noturna era muito bom e caiu um pouco; Batwoman era bom e caiu muito; Batgirl era bem "nhé", mas deu uma melhorada; esta fase da Mulher-Gato jamais me convenceu; e Capuz Vermelho & Os Foragidos é um título cuja existência e longevidade são mistérios insolúveis para mim. Não sei até quando acharei razoável pagar R$ 15,90 por tão pouco retorno.


- Vilania Eterna, atualmente na quinta de sete partes, é uma série com algumas ideias legais ligadas ao bem-sucedido plano de dominação mundial do Sindicato do Crime (uma versão maligna da Liga da Justiça), mas, como agora parece regra em tudo que Geoff Johns escreve, as coisas andam MUITO devagar e surtos de violência gráfica parecem apenas mascarar a debilidade do roteiro. Poderia parecer melhor se tivesse um bom desenhista no comando, mas está tudo nas mãos de David Finch (e, PQP, como esse cara é RUIM!). As séries da Galeria de Vilões e do ARGUS, que completam as edições, são bem mais interessantes que o evento principal.


- A linha Graphic MSP (reinterpretações "adultas" das criações de Maurício de Sousa, por outros autores) começou sua segunda fase. Bidu: Caminhos, lançada em agosto, é uma fofura só e uma bela aventura sobre amizade, soberbamente escrita e desenhada a quatro mãos pelos mineiros Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho. O traço leve, as cores suaves, o criativo uso de onomatopeias e as sacadas do "idioma" de Bidu e seus amigos tornam este gibi obrigatório para os fãs do cachorrinho azul. A próxima Graphic MSP chega em dezembro (Astronauta 2: Singularidade).