18/12/2014

RIP Rock Brasil


Hoje, a divulgação de um ranking que mostrava o pior resultado do rock nacional entre as 100 músicas mais ouvidas do ano, aparecendo apenas a partir da posição 81, enquanto o sertanejo abocanha 60% da lista, deve ter gerado muito bate-boca e muito mimimi. Na verdade, eu não sei se gerou. Ler comentários de notícias na internet é algo que deixei de fazer em prol de minha sanidade mental.

Este ranking não tem qualquer efeito sobre minhas preferências particulares, como se eu fosse magicamente perceber que estive por fora do que é legal na música jovem de hoje. A jovem música sertaneja, na minha opinião, pode ser definida com diversos adjetivos, mas "legal" certamente não é um deles. Argumentar que é bem tocada e bem produzida, que os cantores são bons performers e que é o que o povão quer ouvir não muda minha opinião sobre ela. Não gosto. Fim.

São tantas (e, basicamente, as mesmas) as causas da ascensão da música sertaneja (e de outros gêneros populares) e da decadência do rock nacional, que eu provavelmente cansarei meu leitor antes de ter chegado à metade da lista. É possível, porém, diagnosticar algumas.

Em algum momento, o sucateamento da nossa educação teria um preço e essa conta está agora sendo cobrada. Pode escolher o efeito nefasto de sua preferência: a grave imperícia da mão-de-obra; gente que vai pra TV orgulhar-se de nunca ter lido um livro (e ganhar fãs com isso); a incapacidade de argumentar sem ofender, como vemos na internet todo santo dia; ou, finalmente chegando onde nos interessa, a falta de paciência para qualquer tema além de amor, sexo e bebedeira.

Nada de errado em falar de amor, sexo e bebedeira, claro. Esses são os temas de grandes canções de rock brasileiras e gringas. Aconteceu, entretanto, uma reviravolta no protagonismo social. Até a década de 90, a classe média brasileira era, digamos, "pura", uma classe média que sempre foi classe média, cheia de regras e dogmas, educada em escola particular, coisa e tal. Após o grande salto de mobilidade social da década passada, as rédeas do consumo cultural no país foram tomadas por uma "nova classe média" anárquica, bruta, sem polimento. Essas pessoas não se identificam com o rock nacional, simplesmente porque o rock nacional não dialogava com elas. Elas agora formam a espécie dominante e estão "shitting and walking" pro rock.

O fã de rock, especialmente o brasileiro, sempre arvorou-se suposta superioridade intelectual e não hesita em chamar quem curte gêneros populares, como sertanejo e pagode, de burro, alienado e termos de baixo calão. E o que acontece quando uma turma pequena esculhamba uma turma maior? A maior bota a menor pra correr, claro. Na posição de um investidor, sem qualquer pretensão de criar "Grande Arte", apenas de ganhar o máximo de dinheiro possível, você preferiria agradar à turma pequena ou à grande? Pergunta fácil, esta.

Some-se a isso tudo o desgaste provocado pela nefasta "fórmula Rick Bonadio de sucesso" ao longo de uma década, que gerava uma manada de bandas indistintas de sub-sub-sub-hardcore para skatistas imberbes, quase todas elas muito burras, muito ruins e despontando para o anonimato em pouquíssimo tempo.

Apesar de encolhido e enxotado das rádios a vassouradas, o rock brasileiro ainda existe. Muitos grandes nomes de décadas passadas continuam ativos e produzindo bons discos, até. Os novatos surgem diariamente, coalhando a internet de nomes e canções à espera de tornar-se "a próxima grande coisa".

Bem, eu detesto ter que fazer isso, mas é hora de derrubar seu pão com a manteiga virada pra baixo: não vai rolar, queridos.

Não vai rolar porque o rock brasileiro parece ter alergia ao sucesso - e não é que as bandas não queiram, mas parece que, desde o "advento" Los Hermanos, fazer pop nesta terra virou crime. "Anna Júlia" estourou e o que foi que eles fizeram? Renegaram a "Anna Júlia". Se é verdade que essa decisão de autossabotar-se deu maior autonomia criativa à banda, também os transformou em uns chatos de galocha, dando início a essa escola maldita de bandas barbudas e maltrapilhas, fazendo músicas em baixos tons, pretensiosas e sem qualquer pendor radiofônico. Quem navega pelos YouTube da vida e descobre um artista assim quer, com razão, cobri-lo de volta imediatamente.

(Antes que você, fã de Los Hermanos, venha jogar cocô na minha porta ou xingar minha santa mãezinha, saiba que eu gosto de muitas canções da banda e admito que algumas conservam um certo tino comercial, mesmo depois da "morte" de "Anna Júlia"... mas essas são bem poucas. Além do mais, o discurso deles, toda aquela "fracassomania", é o suprassumo da "paumolescência", apelando a termo célebre cunhado por Lobão exatamente para Los Hermanos - e não tem nada mais embaraçoso, hoje em dia, do que ter que dar razão a Lobão).

Haverá quem alegue que o rock não é um ritmo brasileiro e que o brasileiro "genuíno" não se sente tocado por ele. Não é verdade. Novos Baianos eram rock, populares e brasileiros até a medula. Secos & Molhados eram rock, mas falavam de sacis e pirilampos, musicavam Vinicius de Moraes e foram a coisa mais próxima que houve de uma beatlemania brasileira. Os Paralamas e o Skank sempre jogaram um molho brasileiro no rock e isso dava muito certo antes, não dava? Só que os Paralamas são uma banda com mais de 30 anos de carreira e o Skank já passou dos 20. O nível de sucesso deles está cristalizado. O público com quem eles falam não é a juventude de hoje.

Sendo muito franco, eu não alimento ilusões: o rock brasileiro já era. Não volta pro topo. Em parte porque o público mudou, ficando mais imediatista, menos reflexivo e, sejamos francos, mais burrinho. Em parte por incompetência própria. Escolha qualquer lista de melhores canções de rock nacionais de 2014 e tente tirar delas apenas cinco, das quais seja possível dizer, "olha, que legal, essa música é tão gostosinha e assobiável, podia estar tocando direto no rádio!" Não tem. Você põe as faixas pra rolar e, com pouquíssimas exceções, é um festival de vocais sem personalidade, letras metidas que tentam explicar o sentido do nada e da porra-nenhuma, além de zero de sotaque pop.

(E não, eu não acho que só seja possível fazer muito sucesso sendo muito pop, mas é bem mais fácil assim. The Beatles fizeram discos complexos e superpopulares, é verdade... mas quantos The Beatles você conhece?)

É muito triste tudo isso, sabe? Parece que eu tô aqui, descendo o sarrafo no rock nacional e pouco me lixando pro estado das coisas, mas a verdade é que toda essa abundância e predominância de música ruim, sendo ouvida e compartilhada inclusive por gente que não tem a desculpa da falta de uma boa educação escolar, me faz sofrer terrivelmente. Eu amo música e me revolta e me entristece que as pessoas, hoje em dia, possuam parâmetros musicais tão pobres - ou que, simplesmente, não possuam parâmetro algum, gerando aberrações como "Camaro Amarelo" sendo eleita a melhor música de 2012, ou Anitta sendo eleita a melhor cantora de 2014. E vai piorar: não é Pablo a febre que assola o país, via Whatsapp, neste fim de ano?

Boa sorte pros fracos de estômago.

08/12/2014

O Oceano no Fim do Caminho


Há quem trate os quadrinhos como uma arte "menor". Não é de hoje, porém, que eu sei que eles podem proporcionar leitura tão gratificante e transformadora quanto qualquer livro em prosa. Isto é, eu e toda a manada nerd sabemos... Não chega a ser nenhum segredo do universo. Deveria ser óbvio, já que escrever (bons) quadrinhos nada mais é do que esmerar-se em tramas que ficariam bem mesmo quando desacompanhados das imagens. Infelizmente, ainda há quem ache que quadrinhos são "coisa de criança" e só delas.

Quem já leu obras clássicas como Watchmen (Alan Moore) e até coisas mais convencionais como Crise de Identidade (Brad Meltzer) sabe que aquilo é, enfim, literatura com imagens. Nisso, o selo Vertigo, da DC Comics, sempre foi especialmente prodigioso e Neil Gaiman, o autor da obra que melhor define sua "sustança" artística: a saga do Sandman. Com a reputação nas HQs solidificada, Gaiman vem ganhando respeito crescente, também, como romancista.

O Oceano no Fim do Caminho é o primeiro romance de Gaiman que leio e, da mesma forma que aconteceu com o suspense À Queima-Roupa, do também roteirista de HQs Greg Rucka, ler um romance de um habitual autor de quadrinhos revela-se uma experiência extremamente prazerosa.

No livro, o protagonista (cujo nome jamais é mencionado) está saindo de um funeral em Sussex, Inglaterra, e sente-se compelido a dirigir até uma propriedade na zona rural, vizinha àquela em que viveu. Ali moravam três gerações de mulheres de sobrenome Hempstock, das quais a mais jovem, Lizzie, tinha 11 anos quando ele tinha sete e ficaram amigos. Ao fundo daquela fazenda, no fim de uma pequena estrada, existe um lago que Lizzie chamava de oceano. Às suas margens, ele vai se lembrar de acontecimentos singelos e terríveis, que selaram a profunda amizade entre os dois e testaram os limites entre o mundo real e aquilo que alguns chamariam de mundo dos sonhos... ou pesadelos.

O estilo econômico de Gaiman nos priva de descrições muito longas e detalhadas (e possivelmente chatas) de cenários ou rituais. Não há desperdício verbal aqui, virtude que se estende aos personagens, quando alguma pergunta não possui - ou não se mostra digna de - uma resposta direta. A agilidade da prosa nos transporta de imediato aos cenários imaginados por Gaiman, enquanto cresce o clima de mistério e terror. Para variar, como em diversas criações do autor, gatos estão presentes e são importantes.

Se há algo a criticar, que seja a rapidez do desfecho que decreta o fim da ameaça ao protagonista, mas é um detalhe que não chega a comprometer a qualidade destas 208 páginas, avidamente devoradas em apenas uma tarde/noite de sábado. Acredito haver escolhido uma bela porta de entrada ao mundo dos romances de Neil Gaiman - este, o primeiro para adultos que ele escreve em quase dez anos. Despretensioso como é, duvido que vá destronar Sandman ou romances mais famosos, como Deuses Americanos ou Filhos de Anansi, no coração dos fãs, mas é leitura altamente satisfatória. Curioso como esperar menos que isso de Gaiman chega a ser ultrajante.