28/12/2015

Fim de feira

Pensei em iniciar esta curta retrospectiva mencionando fatos que foram manchete durante todo este ano surtado, mas eu duvido que alguém queira ser lembrado dessas coisas mais uma vez. 2015 foi um ano que não fez prisioneiros. Em menor ou maior escala, parece ter cobrado alto de todo mundo, individual ou coletivamente. Deixemos, então, as (muitas) mazelas deste ano tão difícil para os especiais televisivos.

2015 foi assim, ó:


CINEMA

Obviamente, Mad Max: Estrada da Fúria e Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força dividem o trono de melhores filmes do ano.


De um lado, temos o criador (George Miller) de uma série que fez sucesso pela última vez há 30 anos, retomar sua criação com um novo protagonista (Tom Hardy no papel que foi de Mel Gibson) e, aos 75 anos, dar uma invejável aula de cinema de ação, com um filme cujo visual parece saído de algum sonho (ou pesadelo) turbinado por lisergia.

Do outro, temos uma franquia que quase foi arruinada (em termos qualitativos, pelo menos) por seu próprio criador, sendo ressuscitada pelas hábeis mãos de um diretor (J.J. Abrams) que entende, como poucos, do ofício de equilibrar elementos visuais/tecnológicos que caracterizam um blockbuster com aspectos dramáticos/humanos que o ancoram ao coração do público.

Estes filmes abraçaram, com excelentes resultados, a diversidade dos novos tempos: enquanto um (Star Wars) tem um negro (John Boyega) e uma jovem mulher (Daisy Ridley) como seus ótimos co-protagonistas, o outro (Mad Max) é praticamente roubado pela força dramática de Imperator Furiosa, seja por mérito da personagem ou de sua intérprete (Charlize Theron).

Ambos, também, provaram que um reboot ou sequência não tem sempre que ser um caça-níqueis descarado; que é possível dar ao público delírio visual e sensorial, ao mesmo tempo em que se respeitam seus neurônios, com bons roteiros, personagens e interpretações.


QUADRINHOS

Não há muito que eu possa dizer sobre quadrinhos mensais, considerando que tenho lido apenas Batman e Liga da Justiça, ambas agradáveis o suficiente (com Batman sempre melhor que a Liga), mas sem inspirar qualquer empolgação extraordinária de minha parte.


O Brasil viciou-se, definitiva e irreversivelmente, na delícia que é ler encadernados. Méritos sejam dados, principalmente, à Panini Comics, que não se fez de rogada e deleitou os leitores com muito mais gibis do que era possível comprar ou ler - pelo menos, não sem comprometer o orçamento doméstico ou o relacionamento amoroso. A editora lançou e relançou muita coisa boa e parece ter tomado gosto pelas reimpressões, mantendo clássicos e neoclássicos sempre nas prateleiras. Ainda nos deve muita coisa boa, mas já aplacou muito de nossa sede.

Os melhores gibis que li pela primeira vez este ano foram Turma da Mônica: Lições, O Inescrito Vol. 9: Orfeu no Mundo Abissal, Fábulas 21: Felizes Para Sempre e Os Vingadores: Mundo de Vingadores.


MÚSICA

Na música, foi um ano de retornos aguardados (Madonna, Alabama Shakes, Adele), surpreendentes (Faith No More, Blur, Giorgio Moroder) e decepcionantes (Belle and Sebastian, The Vaccines). O Brasil viu pelo menos dois festivais gigantescos (Lollapalooza e Rock in Rio) e o nascimento da edição nacional do maior evento de música eletrônica do mundo, Tomorrowland.


Para quem ainda mede o sucesso de um artista pela sua presença na grande mídia, foi mais um ano em que o Brasil só produziu três tipos de música: sertanejo, funk e arrocha. A internet continua sendo um cenário fervilhante de ideias e sons bacanas, sempre ao alcance dos dispostos à garimpagem. Aventure-se e saia do atoleiro mainstream.

Para mim, as músicas mais bacanas de 2015 foram:


17/12/2015

Amor que ecoa pela galáxia



Um velho jargão administrativo recomenda: contrate pessoas melhores que você. 

Foi o que George Lucas fez, pela primeira vez, em 1980, ao permitir que Irwin Kershner dirigisse O Império Contra-Ataca, dando sequência ao sucesso que foi o Star Wars original, três anos antes. Favorito da maioria dos fãs, o ex-segundo filme da saga (com a nova nomenclatura por episódios, passaria a ser o quinto) tornou-se um exemplo claro de que uma ideia que já nasceu boa pode render ainda mais, quando em mãos mais hábeis. Em menor grau, a manobra deu certo, mais uma vez, com Richard Marquand dirigindo O Retorno de Jedi, em 1983.

Uma década e meia depois, porém, num ataque de megalomania, Lucas decidiu roteirizar e dirigir sozinho a trilogia de prequels. Tinha à sua disposição atores melhores do que os da trilogia original (Natalie Portman, Liam Neeson, Ewan McGregor), mas o chato pano de fundo político, a ruindade dos diálogos e sua débil direção de atores deixaram A Ameaça Fantasma (1999), Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005) muito aquém da expectativa.

Não sem razão, muitos fãs temeram o pior quando, em 2012, a Lucasfilm foi vendida à Walt Disney Company. George Lucas declarou-se "cansado" de Star Wars, mas, curiosamente, não parou de dar pitacos mal-educados desde que a produção de uma nova trilogia foi anunciada. A possível "disneyficação" da saga espacial passou a habitar os pesadelos de muita gente.

Estas pessoas já podem respirar aliviadas: J.J. Abrams prova, mais uma vez, que é possível vencer o criador dentro de sua própria criação. Como bem dito por um amigo, em conversa particular comigo, Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força só não é o melhor filme da franquia porque a gente não quer que ele seja. Méritos para tanto, porém, não lhe faltam.

Abrams é o homem que ressuscitou Star Trek para o cinema, em dois filmes (2009 e 2013), nos quais era evidente o quanto se preocupava em criar identificação do público com os dramas que ligavam os personagens (ao contrário de um certo diretor, que andou declarando que os fãs não ligavam para a história, desde que houvesse muita ação e efeitos visuais de ponta).

Este é o maior trunfo do novo Star Wars: colocar os efeitos especiais em segundo plano e trazer de volta para o centro das atenções os personagens e as histórias que os conectam. Tudo isso sem perder, por um fotograma que seja, o caráter "Sessão da Tarde" que permeava os episódios IV, V e VI e fez falta nos episódios I, II e III.

Abrams é pródigo em emular aquele cinemão-pipoca dos anos 80, vide Super 8.


Para começar, é perfeita a apresentação de uma nova e ótima dupla de protagonistas: o stormtrooper desertor Finn (John Boyega) e a catadora de sucata Rey (Daisy Ridley). O filme dá tempo para que a gente conheça os personagens e suas motivações, qualidade que considero possível estender, apesar do tempo menor em tela, ao destemido piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) e ao incrivelmente carismático droide BB-8, novo brinquedo dos sonhos de quem ama Star Wars.

A propósito, é o amor por esta saga e tudo que ela representa que torna inesquecível cada aparição do elenco clássico (rolaram-me umas lágrimas inclusive pelo tema de abertura), bem como as referências aos filmes originais (novamente, cabe a um droide assistente entregar informação vital em forma de holograma, por exemplo).

Rey e Finn são a maior evidência de que Star Wars está adaptando-se aos novos padrões sociais (ou à falta deles): ter uma mulher e um negro protagonizando um dos filmes mais aguardados da década gerou uma patética tentativa de boicote ao filme nas redes sociais, por parte de segregacionistas. A Força, porém, forte é em Rey e Finn, e o filme deve quebrar recordes em sequência. Vai vendo.


O Lado Negro da Força, também, está bem representado: Kylo Ren (o ótimo Adam Driver) é uma figura bastante sinistra e não dá pra falar de sua história sem entregar spoilers, exceto que ele ainda é um sith aprendiz, meio desajeitado e relutante, mas que não tem medo de utilizar sua impressionante espada de luz, definindo momentos-chaves. Por outro lado, espero melhor participação, no Episódio VIII, da Capitã Phasma (Gwendolin Christie) e correções no pouco crível CGI de Snoke, o líder supremo da Primeira Ordem (a nova versão do Império Galáctico).

Como já foi concebido como a primeira parte de uma nova trilogia, não se irrite em perceber que o filme termina deixando muitos mistérios e conflitos sem conclusão. O final é aberto (e emocionante), assim como o sorriso que eu ostentava, ao fim da sessão. Fazia tempo que minha memória afetiva ligada a um filme não era tão gostosamente afagada. Se você ama estes filmes, estes personagens, esta mitologia, vá sem medo de ser feliz.

13/12/2015

Elogio da loucura


Como da última vez, direto ao ponto: Louco: Fuga redime a coleção Graphic MSP da mancada que foi Turma da Mata: Muralha, o volume anterior.

O Louco é um personagem muito querido pelos fãs da Turma da Mônica, pelo total nonsense que toma conta, principalmente, das histórias do Cebolinha, durante seus rápidos e intensos encontros. O Louco consegue, nos poucos quadrinhos da mesma história, deixar o Cebolinha alegre, irritado, constrangido, alegre novamente e, por fim, desnorteado. Tudo isso com direito a muita violência de mentirinha e gags que, em diversas histórias, beiraram o genial.

Dito isto, talvez alguém possa decepcionar-se com o fato de Fuga trazer um Louco tão comportado. Se a principal intenção da coleção é cativar o leitor adulto, o Louco era um personagem que certamente permitiria um pouco mais de (dããã) loucura por parte do paulista Rogério Coelho, responsável pelos roteiros e desenhos. Entenda que isto não quer dizer, de modo algum, que a história seja enfadonha. Ao contrário, carrega em si um lirismo encantador e uma inegável nobreza de intenções, mas as loucuras do personagem, aqui, são fichinha, em comparação ao que ele já aprontou na revista feita pra gurizada.

Alguém poderia ter sussurrado no ouvido de Rogério as célebres palavras dos Mutantes, em "Balada do Louco": "eu juro que é melhor não ser um normal, se eu posso pensar que Deus sou eu."

Digerido este pequeno contrassenso, não há como não se deixar levar pela saga do Louco contra os Guardiões do Silêncio, que aprisionaram um pássaro muito importante para ele. O texto econômico e a opção pela narração em primeira pessoa facilitam a identificação, permitindo que cada leitor escolha o que deseja que aquele pássaro represente: pode ser a imaginação, a liberdade, o amor, sua essência pessoal...

Rogério Coelho

Enquanto flui a leitura, vamos sendo despertados à inevitável questão: não somos nós (muitos de nós, pelo menos) os loucos de verdade? Qual pássaro perde a liberdade a cada vez que nos conformamos com trabalhos indignos? Ou quando insistimos em relacionamentos desgastados ou baseados em mentiras? Ou quando deixamos de ser quem somos (loucos, talvez), para parecermos "normais" aos olhos alheios?

Tudo isto, claro, não passa das conjecturas pessoais deste louco que vos escreve.

Não deixa de ser agradável ver um tema sério tratado com leveza (ainda mais depois do festival de carrancas que foi Muralha), com menções às outras Graphics (incluindo um bem-sacado retcon para Bidu: Caminhos) e uma arte estilosa. Ao já personalíssimo traço de Rogério, somam-se sua linda colorização (que confere a algumas passagens uma atmosfera ora onírica, ora nostálgica) e sua diagramação criativa.

Louco: Fuga cumpre seu propósito de apresentar uma história divertida, interessante e fiel ao espírito da criação original de Mauricio de Sousa, fechando esta segunda leva da Graphic MSP com saldo positivo e fixando o nome de Rogério Coelho no mapa estelar dos quadrinhos brasileiros. Se você é daqueles que dá graças aos céus que esta não seja uma coleção numerada, pra poder deixar passar em branco as edições menos legais, respire aliviado e gaste seus suados reais sem susto. Um livro bonito de ver e gostoso de ler não é tudo que desejamos? Então.

05/12/2015

Liberdade a qualquer custo


Meu coração de fã se contrai de tristeza quando vejo George Michael preso na típica espiral descendente que acomete aos artistas em crise: disco de covers, disco ao vivo, coletâneas, presença nos noticiários pelos escândalos, pelas manias, por tudo... menos pela música. 

Sejamos francos, George enfrentou com dignidade e bom humor o episódio que desmascarou sua sexualidade, fazendo graça no clipe de "Outside". Daí por diante, porém, a coisa só foi piorando pra ele: prisões por porte de drogas, acidentes estúpidos, saúde abalada... Desde já há um bom tempo, não tem sido fácil ser George Michael.

Seu último esforço, após 10 anos de silêncio, foi o álbum ao vivo Symphonica (2014), em que ele interpreta clássicos seus e de gente como Elton John, Rufus Wainwright e Terence Trent D'Arby, acompanhado por banda e orquestra. Os problemas (e, claro, a idade) cobraram seu preço da voz de George, sempre alguns tons abaixo dos que costumava atingir. Um disco digno e bonito, mas nada que pudesse salvá-lo do ostracismo em que prossegue.

Tudo isso pode fazê-lo parecer um homem sem qualquer controle de seu destino, mas nada pode estar mais longe da verdade. A História ainda não fez justiça a George Michael como o artista que protagonizou uma das mais espetaculares viradas de carreira já vistas na Música Pop.

Entre 1983 e 1986, George era metade de um duo de technopop chamado Wham!, com o amigo Andrew Ridgeley. O fim da brincadeira foi sacramentado com o imenso sucesso de seu primeiro single solo, "Careless Whisper" (1986) e, pouco depois, com seu elogiado e premiado primeiro disco completo, Faith (1987), de onde saíram clássicos como "Father Figure", "Kissing a Fool" e a faixa-título. 25 milhões de cópias depois, ninguém estaria tão equivocado em pensar que George estava satisfeito da vida, mas ele cometeria uma tentativa de "harakiri comercial".

Primeiro, brigou publicamente com a gravadora Sony Music, onde dizia sentir-se "aprisionado a uma imagem de sex symbol heterossexual" e decretou que, dali em diante, queria ser reconhecido como compositor sério e afastar-se da imagem de bonitão rebolativo, que perdurava. Para tanto, lançou, no final de 1990, um disco maduro e ligeiramente sombrio, Listen Without Prejudice Vol. 1.

Embora tenha sido apenas o terceiro single a sair do álbum, a faixa mais icônica é, inegavelmente, "Freedom '90", em que ele narra a epopeia que foi sua vida/carreira e grita aos quatro ventos seu desejo de libertação. Rebeldia é isto: o astro, cujo rosto bonito sempre foi seu grande chamariz, simplesmente não aparece nos quase sete minutos do vídeo, dirigido por David Fincher. Em seu lugar, aparecem "cantando" as top models mais bonitas (e caras) da época: Naomi Campbell, Christy Turlington, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Linda Evangelista, além de dois modelos masculinos. Para completar, George literalmente explode ícones de seu passado recente: a guitarra e a jukebox que fizeram parte do clipe de "Faith", três anos antes. Mais rock & roll, impossível!

Acima, a capa de Listen Without Prejudice Vol. 1
o disco que revolucionou a carreira de George Michael.

Além disso, Listen... trazia, pelo menos, duas outras obras-primas: "Heal the Pain", em que ele se oferece para curar a tristeza de um amor desfeito, num letra incrivelmente romântica e otimista, com melodia simpaticíssima. Uma criação que coloca George Michael em justo lugar entre os gênios da canção romântica. A segunda é a faixa de abertura e primeiro single"Praying for Time", em que o desencanto com a humanidade ganha ares de desespero, enquanto George aceita que só mesmo o tempo pode curar certas "doenças" da sociedade. "Estes são dias de mãos vazias / Você se agarra ao que pode / E a caridade é só um casaco que você usa duas vezes por ano." Como ficar impassível diante de versos assim?

O disco foi um "fracasso", vendendo "apenas" oito milhões de cópias. Faith vendeu o triplo, é verdade, mas foi Listen... que sedimentou a trilha de George como dono dos próprios rumos, com tudo que isso trouxe de ruim (os problemas descritos nos primeiros parágrafos) e de bom (canções incríveis, como "Jesus to a Child", "Fastlove" e "Amazing").


Como eu, muita gente ainda deve torcer por um retorno de George Michael - se não às glórias da fama planetária, pelo menos, a alguma relevância no cenário musical e às composições infalíveis que caracterizaram seus melhores anos. Artistas com tamanha classe e ardente paixão pela boa música pop sempre fazem falta.

30/11/2015

Sobre agregar valor (e poder)


O sucesso das adaptações Marvel no cinema não havia influenciado minha lista de compras. Faz anos que não acompanho um título mensal da editora. Até penso em dar uma chance à All New, All Different Marvel Now (seja lá que nome a fase ganhe em português - e já fico preocupado com o tamanho do nome original da próxima).

Mas eis que a Panini Comics começou a encadernar a primeira leva da Marvel NOW! (aqui, Nova Marvel), publicada em 2013, e eu já adquiri dois títulos: Thor - O Carniceiro dos Deuses e este Os Vingadores - Mundo de Vingadores.

Escritas por Jonathan Hickman e desenhadas por Jerome Opeña (1-3) e Adam Kubert (4-6), as seis histórias deste volume trazem uma equipe "revista e ampliada" em relação à formação vista no cinema (manter o sexteto original é, claro, uma decisão esperta da Marvel, visando ao leitor que se interessou pelos quadrinhos a partir dos filmes).

Por sugestão do Homem de Ferro, os heróis mais poderosos da Terra decidem ampliar suas fileiras numa escala nunca vista antes, recrutando vários novos membros (entre velhos conhecidos e estreantes), que entrarão em ação conforme a necessidade. A agremiação de incrível poder inclui gente como Wolverine, Hipérion, Miss Marvel e  os mutantes Míssil e Mancha Solar.

E não é à toa que tal time se reúne: em Marte, duas entidades disputam a primazia pelo direito a intervir na Terra. O robô de extermínio Aleph, criado pelos primeiros seres vivos do universo, deseja cumprir sua programação e eliminar nossa espécie devido a nossas inúmeras imperfeições. Já o semideus alienígena Ex Nihilo tem planos de salvar a raça humana para "reescrevê-la" melhor.

É possível, mesmo para o leitor neófito, como eu, entender por que Jonathan Hickman tornou-se uma das figuras centrais da Marvel, dividindo o ouro da casa com os também ótimos Brian Michael Bendis e Jason Aaron. Hickman possui um senso de espetáculo e grandeza que lembra Mark Millar e alia ciência, psicologia e filosofia (vide o fantástico interlúdio zen entre Shang Chi e a Capitã Universo) como faria um Grant Morrison, só que sem muita "viagem" metafísica - o que pode ser entendido por alguns como uma vantagem e por outros como uma decepção.

Opeña e Kubert dão conta da missão de traduzir tudo em imagens, entregando arte limpa, agradável e adequada ao que é, basicamente, um blockbuster em papel, quase pronto para ser traduzido diretamente em película, coisa em que a Marvel ficou craque desde Os Supremos.

Ao final da sexta história, a revelação da identidade do "homem melhor" projetado por Ex Nihilo faz tilintar vários sinos na cabeça de quem curtia Marvel na segunda metade dos anos 80. Sem querer entregar demais, duas palavras para você matutar: "branco" e "novo".

Após muitos anos em que os X-Men foram os queridinhos absolutos da Marvel, está sendo a vez de Os Vingadores ocuparem o centro do palco. A julgar pela qualidade de entretenimento apresentada aqui, a opção da Marvel me parece plenamente justificada. Eu, que nunca fui tão fã da equipe, estou derretido pelos Vingadores de Jonathan Hickman e mal posso esperar pelo segundo volume.

Os Vingadores - Mundo de Vingadores
Panini Comics - 148 páginas - R$ 26,90.

26/11/2015

A palavra do vencedor


Amigo leitor, este é o relato de Luís do Vale, ganhador do sorteio do último dia 10, após receber seu prêmio:

"Foram necessários 31 anos de existência pra que eu ganhasse meu primeiro sorteio. E, veja só, o prêmio foi um gibi, um vício que carrego desde a infância, e veja mais ainda, do Batman, personagem que me acompanha desde essa época também.

O quadrinho em questão foi Batman - O Filho do Demônio, mas não é sobre ele que quero falar.

Entre 2000 e 2002, um primo me convidou a pegar emprestado tudo o que eu conseguisse carregar e ler da sua coleção de quadrinhos. Ele comprou praticamente tudo o que foi publicado da Marvel e da DC pela Editora Abril entre algum ano da década de 80 e 1994 quando, segundo ele, ambas as editoras "perderam o rumo". Era um sebo dentro de casa.

Li tudo o que não pude ler por questões financeiras, devido ao saudoso preço tabelado, ou porque era muito novo quando das publicações. X-Men do Claremont e Demolidor do Miller. Liga do DeMatteis e do Giffen e o Super pós-Crise. DC 2000, Novos Titãs, Camelot 3000. Eu não era café-com-leite no assunto, mas aquela coleção era coisa de profissional. Eu tinha que ler tudo. E todo sábado eu pegava uma ou duas sacolas cheias de revistas e ácaros que devolveria no fim de semana seguinte. É mais ou menos sobre isso que quero falar.

O primeiro gibi que li, fora Disney e Turma da Mônica, foi algo do Batman, do Super-Homem (na minha época era assim) ou do Homem-Aranha, por volta de 1990. E mudou a minha vida, sério mesmo. Eu queria saber quem eram aqueles caras e em que eles iam se meter no mês seguinte. E nunca parei. Seja comprando números avulsos ou iniciando e terminando coleções pra começar outras, sempre tive um gibi ao alcance das mãos. Eu era o carinha que, na aula de Educação Física, se afastava pra ler enquanto a turma jogava bola.

Com o tempo, fui conhecendo o mundo fora das duas grandes, e li mais ainda. Antes, a Herói, a Wizard e primos meus velhos eram meus guias; então, veio a internet com sites e blogs de gente que realmente sabia do que tava falando, o Catapop entre eles. E li mais quadrinhos, e li sobre quadrinhos, e queria ler mais. Passei a ser cada vez mais seletivo, deixei de me importar tanto com cronologia e com personagens e mais com as equipes criativas. Os scans me deram a possibilidade de ler títulos que eu nem sabia que existia e muitos que eu achei que nunca leria. Iniciei uma nova e modesta coleção, sem a pretensão e a pressão de ter tudo na estante, focando na qualidade e no prazer que aquela leitura pode me dar nas pausas entre as atribulações do cotidiano.

Obrigado, Marlo, porque relendo Batman – O Filho do Demônio tudo isso me veio à memória. Era sobre isso que eu queria falar."

13/11/2015

Jukebox Encantada #3


THE SMITHS
HATFUL OF HOLLOW
(1984)

Meu primeiro contato com a obra de The Smiths foi através de um flexidisc com a faixa "Still Ill", encartado na Bizz nº 8, em março de 1986. Aos meus ouvidos, então acostumados ao pop certinho das FMs, a voz de Morrissey soava bastante estranha, e aqueles três minutos e meio de pop/rock totalmente "alienígena", abertos e encerrados com fraseados de gaita, representavam um desafio. Era algo muito diferente de tudo que eu sempre havia escutado e dizer que gostei seria mentira, mas fiquei, no mínimo, instigado.

Havia ainda a letra, traduzida na seção específica da mesma revista. Aos 12 anos, eu podia já entender de muita coisa, mas amor, definitivamente, ainda não era uma delas - ainda mais um amor que negava tanto e tomava mais ainda; um amor cujos beijos, de doer os lábios, não despertavam mais desejo algum; um amor que era preciso esquecer para não enlouquecer... Você sabe, essas coisas que, cedo ou tarde, a gente acaba aprendendo.

Hatful of Hollow foi o segundo disco dos Smiths a integrar minha coleção (o primeiro foi Meat Is Murder, de 1985). "Still Ill" era uma das faixas, exatamente a mesma versão do disquinho da Bizz. Já mais habituado ao timbre vocal de Morrissey e maravilhado a cada novo fraseado de guitarra ou violão inventado por Johnny Marr, eu começava a desvendar os segredos melódicos do indie pop, gênero que tornou-se uma das bases de meu gosto musical. Mesmo assim, ali, os Smiths pareciam quase outra banda, bem mais solta e selvagem.

Não era por acaso: o disco era uma coletânea de singles (parece prematuro pra um segundo disco, mas, naqueles anos, dificilmente se passavam duas semanas sem um lançamento dos Smiths) e apresentações feitas em programas de rádio. Com a liberdade do "ao vivo em estúdio", a guitarra de Marr soava bem mais arisca e sinuosa, e a "cozinha" de Mike Joyce (bateria) e Andy Rourke (baixo) soava bem mais pulsante.

Guitarrista econômico, Marr nunca foi afeito a solos, preferindo fraseados curtos e certeiros, que serviam como fio condutor para as letras, enquanto Rourke e Joyce proviam uma seção rítmica que me parece mais "negra" (aspas imensas aqui, claro) a cada audição deste disco em particular.

The Smiths: Mike Joyce, Johnny Marr, Morrissey e Andy Rourke

De cara, um momento absolutamente iluminado, com cara de verão e de surf, "William, It Was Really Nothing", em que Morrissey reclamava do cara que o trocou por uma gorda que só falava em casamento. Um pouco mais à frente, a versão definitiva de "This Charming Man", mais paciente e suingada do que no disco de estreia, um clássico pop a ser ouvido pelas estrelas. Colada a ela, a canção mais épica da banda, "How Soon Is Now?", um testemunho de insucesso amoroso que certamente encontrou eco no peito de muitos adolescentes tímidos.

Em "Heaven Knows I'm Miserable Now", o fundo de poço mais bonito que existe, Morrissey se vê obrigado a afastar-se da mulher de sua vida - sua mãe. "This Night Has Opened My Eyes" fala da barra pesada que pode se tornar uma gravidez indesejada. Em "Girl Afraid", menino e menina perdem tempo esperando por sinais que nunca chegam. Ao longo das 16 faixas, Morrissey e/ou seus personagens encaram a barra de ser inseguro e impopular, ora com amargura, ora com ironia e irreverência.

Por muito tempo, tive dúvidas sobre qual seria, afinal, o melhor disco dos Smiths: Hatful of Hollow ou The Queen Is Dead (1986)? Apesar de o segundo ser mais literário, iconoclasta e conter pelo menos três das melhores canções da banda, este aqui funciona melhor como conjunto e, de modo geral, me parece mais representativo do seu modus operandi. Meu amor pela obra dos Smiths solidificou-se a partir deste álbum. 

Quando a banda anunciou seu prematuro fim, em 1987 (pouco mais de um ano depois de eu conhecê-los), foi uma das primeiras vezes em que experimentei um sentimento de perda (um vazio que, a propósito, não foi preenchido pela carreira solo de Morrissey, apesar de sua cota individual de obras-primas). Imagino que foi isso que os fãs dos Beatles sentiram em 1970. Sobrou apenas um travor amargo na garganta e, no coração, o punhado de nada do título.

PS: a capa que ilustra este post é do álbum em vinil; a capa do CD é ligeiramente diferente.

The Smiths - Hatful of Hollow
Lançamento: 12 de novembro de 1984
Produção: John Porter, Roger Pusey, Dale Griffin e The Smiths.

01 - "William, It Was Really Nothing"
02 - "What Difference Does It Make?"
03 - "These Things Take Time"
04 - "This Charming Man"
05 - "How Soon Is Now?"
06 - "Handsome Devil"
07 - "Hand in Glove"
08 - "Still Ill"
09 - "Heaven Knows I'm Miserable Now"
10 - "This Night Has Opened My Eyes"
11 - "You've Got Everything Now"
12 - "Accept Yourself"
13 - "Girl Afraid"
14 - "Back to the Old House"
15 - "Reel Around the Fountain"
16 - "Please, Please, Please, Let Me Get What I Want"

Proteger e servir


Existem excelentes razões para você comprar este encadernado.

A primeira é que Gotham DPGC, em sua primeira publicação no Brasil (ainda com o nome de Gotham City Contra o Crime, ao longo de seis edições do extinto encadernado trimestral DC Especial), foi concluído na marra pela Panini Brasil, com os editores brasileiros batendo de frente com os capos da matriz italiana. Com vendas pouco expressivas, tê-la publicada na íntegra foi uma conquista e tanto. Ou seja, existe uma história de heroísmo que transcende aquelas que estão nas suas páginas.

A segunda boa razão é que, naquele tempo, Gotham DPGC deu uma bem-vinda arejada no universo do Batman, mesmo sendo uma série em que ele pouco aparecia. Além de apresentar novos e carismáticos personagens, a série aprofundava-se na personalidade de velhos conhecidos dos leitores, como Renée Montoya. Seu antigo parceiro, Harvey Bullock, encontrava-se afastado por cumplicidade em um assassinato. Maggie Sawyer, surgida nas páginas de Superman, mudou-se para Gotham e era a nova capitã da polícia. James Gordon estava aposentado após ter sido baleado (em Batman Premium 22, Editora Abril) e o novo comissário era Michael Akins, que tinha sérias restrições quanto à parceria da polícia com o Morcego. Ou seja, naquele tempo, coisas importantes estavam acontecendo num universo que é, basicamente, estático.

A mais importante razão de todas, porém, é o fato de que Gotham DPGC é uma das melhores séries policiais já publicadas, um trabalho que comprovava a perícia de Ed Brubaker e Greg Rucka (que compartilhavam e se revezavam nos argumentos) para histórias de crime e suspense. Em 2004, o arco "Meia Vida", presente na segunda metade deste livro, ganhou tanto o Eisner quanto o Harvey Awards, os mais importantes prêmios da indústria de quadrinhos norte-americana. É justo destacar, também, que o ótimo traço de Michael Lark contribui fortemente para a atmosfera noir que impregna as páginas.

No primeiro arco ("No Cumprimento do Dever", que dá título ao livro), os policiais de Gotham já enfrentam (com trágicas consequências) a barra que é topar com um dos supervilões do Batman - no caso, o Sr. Frio. Enquanto alguns agentes acham que o certo seria ligar o bat-sinal de uma vez, outros se ressentem da interferência do Morcego e o consideram responsável, ainda que indiretamente, pelas ações dos vilões.

No segundo, o premiado "Meia Vida", a vingança de um mafioso contra Renée Montoya expõe sua vida íntima de modo devastador e os desdobramentos complicam cada vez mais sua já delicada situação. Tabus são tratados com sensibilidade e diálogos elegantes, ganhando um final agridoce e realista.

Uma das características pétreas dos quadrinhos de super-heróis, porém, é que as coisas andam para frente e para trás, em ciclos. O fim de Gotham Central coincidiu com o da Crise Infinita e, quando o Batverso surgiu modificado no "Um Ano Depois", estava tudo de volta às suas antigas posições: Gordon reempossado como comissário (o ilibado Michael Akins teria sido afastado em um suposto episódio de corrupção, que jamais foi detalhado); Bullock reintegrado; e, pior das injustiças, todos aqueles personagens fantásticos (Romy Chandler, Marcus Driver, Josie McDonald, Ron Probson) jogados no limbo das coisas mortas e esquecidas.

Diante da expectativa observada entre os leitores quando teve seu lançamento anunciado (e contando com o suporte extra transmídia da bem-sucedida série de TV Gotham), esta série de encadernados (de impecável tratamento gráfico), com quatro volumes previstos, deve ter vendas bem melhores do que há 10 anos. Sorte a nossa, porque é entretenimento de primeira grandeza, tanto como obra de impacto no universo do Batman quanto como leitura simultaneamente simples e respeitosa com nossos neurônios. Se você sabe o que é bom, precisa ter Gotham DPGC na sua estante.

10/11/2015

Fim da infância (com direito a presente)


Inspirado na origem de Kal-El, contada por Grant Morrison em uma só página de Grandes Astros: Superman, vai aqui uma breve história dos 10 primeiros anos do Catapop:

Até 10 de novembro de 2005, eu tinha um blog chamado Gotham City e o gaúcho Fábio Chang tinha outro, chamado Mestre Chang. A gente fechou nossos blogs e abriu o CATAPOP. Em 2008, eu decidi administrar o blog sozinho e, desde então, assim tem sido. No começo, a gente passava facilmente das 150 postagens anuais. Hoje, estou suando pra terminar 2015 com 20 artigos. Apesar disso, você ainda estão aqui comigo e isso conta muito! :-)

É engraçado, também, pensar em minha própria história, de dez anos pra cá. Em 2005, eu estava voltando à Bahia, após quase uma década vivendo em Goiás. Nem achei que fosse "enterrar umbigo" em Alagoinhas, mas eis que fiquei e, por enquanto, não tenho planos de arredar pé daqui.

Em 2005, eu comprava OITO revistas mensais da DC e da Marvel, quatro de cada. Hoje, só Batman e Liga da Justiça (e olhe lá!). Naquele ano, a Panini ainda tinha a má fama de "Editora Nº 1", por sua mania de iniciar coleções e encerrá-las logo após o primeiro volume (Liga da Justiça por Grant Morrison, Batman por Neal Adams, Starman por James Robinson, alguém?). Hoje, a editora publica uma variedade absurda de encadernados do começo ao fim e já nos entregou as versões integrais de diversas séries importantes (mas não dessas mencionadas acima - estamos de olho!).

Dez anos atrás, eu era um "magro gordo": um sedentário de corpo esguio, mas flácido. Jamais abandonei o pop e o rock, mas ainda era chegado em axé music (embora esse affair já estivesse perto do fim) e bom de copo no matter what.  Hoje em dia, não tolero música baiana (uma coisa morta, embora ainda faça tanto barulho) e virei adepto de uma rotina mais saudável, que inclui atividade física constante e quantidades bem menores de álcool. Nem a embriaguez nem a ressaca me parecem mais tão sedutoras.

Nos primeiros anos do Catapop, eu escrevi um bocado de artigos que, hoje, me matariam de vergonha. Sério, eu não consigo acreditar que disse certas coisas  (por que você acha que eu decidi fechar o conteúdo mais antigo?). Me diziam que eu escrevia melhor de mau humor e acabei comprando a ideia. Sob o pretexto de estar sendo engraçado, porém, fui deselegante, preconceituoso e reacionário em diversos momentos. Quero acreditar que não abracei o politicamente correto, apenas aprendi a distinguir melhor entre o que pode e o que precisa ser dito (a idade faz isso com a gente). Aos que porventura se ofenderam, minhas desculpas. Aos que me ajudaram a melhorar, meus agradecimentos.

Em 2005, eu não dava presente pros meus leitores. Em 2015, isso já está acontecendo pela quinta vez! Quem disse que as coisas aqui não mudaram pra melhor? Boa parte de vocês é um bando de interesseiros, que só me dão o gostinho de um comentário quando eu sorteio uma HQ lindona, mas eu não os amo menos por isso - apenas fico me perguntando se a contrapartida é sempre igualmente generosa. Entendam, isso não quer dizer que não vou sortear mais nada... mas, a partir de agora, vocês terão que merecer. Como dizemos aqui no Nordeste, eu tô ficando é velho, não besta!

Assim sendo, tenho a satisfação de anunciar que o ganhador de um exemplar novinho em folha de Batman: O Filho do Demônio é LUÍS DO VALE, de São Luís, MA.

Concorreram: Luís do Vale, Alexandre Melo, Gerlande Diogo, Fabiano Belchior, Luís Gustavo (Luwig) de Sá, José Rabelo, Thiago Messias (The Messiah), Rodrigo Bertuol (Caesius Maximus), Reginaldo Yeoman, Fernando Ishiruji, Rodrigo Valverde, Alberto Silva e Djaman Barbosa.

Bem, isto é tudo, por enquanto. Prontos para mais 10 anos? ;-)

Para o alto e... CATAPOP!

02/11/2015

O drama dos adultos

Comente e concorra a BATMAN: O FILHO DO DEMÔNIO! Sorteio em 10/11/2015. 


Desde o Superman (1978) de Richard Donner, por décadas que pareceram intermináveis, desejamos muito que os estúdios de Hollywood fossem capazes de fazer filmes decentes com super-heróis. Em 2000, o primeiro X-Men, com sua precisa combinação de drama e ação, inaugurou uma nova "Era de Ouro" do gênero, consolidada com Batman Begins (2005) e Homem de Ferro (2008).

Já houve muita tranqueira e muita coisa legal desde então, mas não há como negar: super-heróis são a coisa mais quente na Sétima Arte, hoje em dia, dominando a expectativa dos fãs e o burburinho nas redes sociais.

Por um lado, isso é muito bom, porque os filmes estão cada vez mais bem-feitos e parece não existir mais efeito especial impossível ou sequer desafiador, frequente desculpa para a não realização dos filmes, antes da supracitada "Era de Ouro".

Por outro lado, Hollywood está vivendo uma "adolescência" que parece interminável. Mesmo considerando que boa parte do público de super-heróis é gente acima dos 30 anos, estes não são filmes que se possa exatamente chamar de adultos - e existe, sim, uma demanda por filmes que atendam a expectativas dramáticas que os filmes de heróis (ou fantasias adolescentes distópicas, como Jogos Vorazes, Divergente ou Maze Runner) nem sempre estão dispostos ou aptos a suprir. 

Observe o circuito de cinema: os lançamentos de filmes baseados em HQs e outros tipos de fantasia dominam, enchendo diversas salas simultaneamente, numa demonstração de supremacia que parece longe do fim. Com isso, os filmes de outros gêneros acabam relegados a um mínimo de salas, não raramente em horários proibitivos.

Até mesmo a chamada "temporada do Oscar", na qual grandes dramas com chances no prêmio sempre acabam chamando atenção, parece estar ficando mais curta a cada ano que passa. Veja bem, este não é um manifesto contra os filmes de heróis e super-heróis, que eu tanto adoro. Só desejo que haja um pouco mais de diversidade na programação das salas e que os nerds gastem um pouco mais de seu tempo e de seu dinheiro para ver, também, filmes que fujam do nicho HQ/ação/sci-fi.

O Catapop é um blog em que as HQs, bem como o cinema nelas baseado, estão e estarão sempre presentes, mas, desta vez, desejo sugerir aos amigos leitores alguns cineastas, cujas obras agregam valor ao intelecto de quem as assiste. Listas são aquela coisa, né? Tanto os cineastas quanto os três filmes de cada um que escolhi como seus pontos altos refletem somente minha atual percepção. Feita daqui a uma semana ou daqui a um ano, talvez fossem outros. Enfim, assistam e escolham os seus.


CLINT EASTWOOD 


Há pouco que eu possa falar sobre os primeiros anos de Clint como diretor, ainda na década de 70, mas, desde Bird (1988) e, mais notadamente, Os Imperdoáveis (1992, vencedor de quatro Oscars), seu nome está, para mim, associados a dramas a que não se assiste impunemente. Quem diria que um ator que construiu toda uma reputação sempre de arma em punho (como o "estranho sem nome" dos westerns ou como o detetive "Dirty" Harry Callahan em diversos policiais) se tornaria tão sensível contador de histórias? 

Pontos altos: Os Imperdoáveis (1992), As Pontes de Madison (1995), Sobre Meninos e Lobos (2003).


DAVID FINCHER 


Antigo diretor de videoclipes (por exemplo, Vogue e Bad Girl, de Madonna), Fincher trouxe para o cinema o charme cool de sua estética, combinando-a com ótimos roteiros, irrepreensível direção de atores e trilha sonora sufocante, geralmente a cargo do amigo Trent Reznor (do Nine Inch Nails). Tudo isso sem perder, por um fotograma que seja, o senso de espetáculo e, ocasionalmente, bem-vinda provocação. O Curioso Caso de Benjamin Button mostrou que Fincher também sabe emocionar.

Pontos altos: Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), Clube da Luta (1999) e Garota Exemplar (2014).


MICHAEL MANN 


Não raramente, os homens do universo dos filmes de Michael Mann são tipos que levam muito a sério seus trabalhos e têm essa dedicação testada pelas circunstâncias. Em seus filmes, palavra e compromisso são iguarias de alto valor e piadinhas não constam do cardápio. Os homens (sim, no gênero masculino, mesmo) que protagonizam os filmes de Mann não descansam até que suas missões estejam cumpridas (e, acredite, sem que isso implique em qualquer vestígio de autoajuda).

Pontos altos: O Último dos Moicanos (1992), O Informante (1999) e Colateral (2004).


PAUL THOMAS ANDERSON 


Vou confessar: os três filmes citados como pontos altos são os três únicos de Paul Thomas Anderson que assisti - mas, caramba, que experiências! Seus filmes são sempre longos, contemplativos, mas seu caráter permanentemente questionador e filosófico os torna obrigatórios, presença constante em lista de melhores do ano. Nota mental: assistir e riscar Boogie Nights (1998) e Embriagado de Amor (2002) da minha Lista da Vergonha o quanto antes.

Pontos altos: Magnolia (1999), a obra-prima Sangue Negro (2007) e O Mestre (2010).


SPIKE JONZE 


Provavelmente, o mais original dos cineastas nesta lista, Jonze é um articulador de histórias improváveis. Ele dirigiu apenas quatro longa-metragens e o único que eu não assisti foi justamente o primeiro deles, Quero Ser John Malkovich (vergonha, vergonha, VERGONHA!). De resto, temos mesmo que bater palmas para um homem que consegue extrair um duplo ótimo desempenho de Nicolas Cage (como os gêmeos de Adaptação) e transforma a história de amor entre um homem e um sistema operacional (Ela) num dos melhores filmes da década.

Pontos altos: Adaptação (2002), o genial Ela (2014) e Quero Ser John Malkovich (1999 - é, eu não vi, mas tantos prêmios e tantos queixos caídos dos que assistiram não podem estar tão errados).

23/10/2015

Antes do último adeus.

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Imagine como deve ser difícil manter acesa a "velha chama" de um casamento por 13 anos. Imagine ter que sempre inventar alguma coisa pra evitar que a vida a dois caia na rotina. Imagine a criatividade necessária para que, mesmo após anos, sempre aconteça ao casal alguma coisa que os faça lembrar do sentimento que os uniu pela primeira vez.

Após 13 anos, o casamento de Fábulas com seus leitores chegou ao fim, nos EUA, em julho passado, quando o número 150 encerrou a história da longeva e premiada série. As 150 páginas da edição comemorativa são tudo que ainda falta ser publicado pela Panini Comics, aqui, no Brasil. Este penúltimo encadernado, Felizes Para Sempre, já tem inegáveis ares de despedida, com personagens importantes e coadjuvantes encontrando seu destino final. A ocasião, porém, nada tem de melancólica: como descrito no primeiro parágrafo, este 21º volume é um longo e lindo lembrete de todas as razões por que amamos Fábulas tanto e por tanto tempo.

Mesmo em suas edições menos espetaculares, como o volume 13 (O Grande Encontro) ou o 16 (Superequipe), Fábulas ainda conseguiu sustentar um patamar de qualidade, no mínimo, razoável. Espero que, no futuro, os livros de História se refiram a Bill Willingham como um escritor ainda mais digno do status de clássico do que Esopo, Hans Christian Andersen ou Os Irmãos Grimm. Pode parecer fácil elaborar sobre criações alheias, mas nada poderia estar mais longe da verdade: é preciso ter bolas de aço pra desafiar a visão engessada que permeia a memória de quem leu ou ouviu na infância as histórias desses personagens.

Isso sem falar da inacreditável sequência de surpresas engendradas por Willingham, com a constante cumplicidade do artista Mark Buckingham. As soluções pouco óbvias encontradas pelo roteirista deixam a gente de boca aberta a cada edição, além de ele permitir que todos os personagens, inclusive aqueles aparentemente desimportantes, tenham seu momento de brilho. Algumas edições, como os volumes 6 (Terras Natais), 10 (O Bom Príncipe) e 15 (Rosa Vermelha) seguramente estão entre as melhores HQs que já li.

Em Felizes Para Sempre, a forte rivalidade entre as irmãs Branca de Neve e Rosa Vermelha ganha uma explicação, tornando inevitável um embate que já se prenuncia há algum tempo. Desde o encadernado anterior, Camelot, Rosa esteve montando sua versão particular da Távola Redonda, mas assuntos mais urgentes requerem sua atenção: o ameaçador ressurgimento de Bigby Lobo e a descoberta de uma traidora entre as fábulas. Entre os capítulos da trama principal, histórias curtinhas mostram a última participação de alguns personagens, com destaque para o divertido destino final dos Três Ratinhos Cegos (nas últimas páginas, a derradeira aventura de Bela Adormecida me fez soltar um palavrão, porque, você lerá, ninguém poderia prever algo simultaneamente tão simples e tão sensacional).

Existe uma espécie de consenso informal de que Sandman seja a melhor série da Vertigo Comics. Longe de questionar tal afirmação, acrescento apenas que o fato de Fábulas manter-se tão boa, pelo dobro do tempo, a torna igualmente merecedora do status. Vê-la acabar é lamentável, sim, e já antecipo saudades. Que ela esteja chegando a um fim tão triunfantemente digno, porém, é um tremendo conforto. Em breve, após o lançamento do último número, aguarda-me a agradável missão de reler estas histórias maravilhosas diversas vezes e, assim, ser feliz para sempre.

03/10/2015

Jukebox Encantada #2

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U2
THE JOSHUA TREE
(1987)

Em 1987, eu já conhecia o U2 havia cerca de dois anos, mas nunca tinha ouvido a banda. Explico: eles estavam presentes na primeira edição da extinta revista Bizz que comprei (a edição 4, com um poster da banda) e em várias das seguintes. Foi necessário que uma de suas músicas caísse na trilha sonora de uma novela da época, Mandala, para que eu pudesse ouvi-los.

A música em questão, "With or Without You", provocava animadas discussões entre mim, meu irmão Malcon e um antigo funcionário da agência do Banco do Brasil em Ibotirama, Sérgio, que almoçava regularmente em nosso restaurante. Familiarizado com a música dos irlandeses, foi Sérgio quem chamou nossa atenção para o fraseado em delay da guitarra de The Edge como a característica definidora do som do U2.

Não demorou muito e The Joshua Tree estava em nossa coleção de vinis. Mesmo guardando muitas diferenças em relação ao som dos discos anteriores (coisa que eu só descobriria algum tempo depois), não poderíamos ter escolhido melhor porta de entrada ao universo de Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton.

Quatro anos antes, o U2 havia conquistado a América com o disco War e um consagrador show no anfiteatro de Red Rocks (registrado no CD/DVD Under a Blood Red Sky). No disco seguinte, The Unforgettable Fire (1984), o U2 já dava mostras de que queria polir seu som e ganhar o mundo com a ajuda de ícones americanos. Elvis Presley e Martin Luther King foram figuras centrais do álbum, em canções como a indefectível "Pride (In the Name of Love)". Contudo, apesar da presença desta e de outras boas faixas, como "Bad" e "A Sort of Homecoming" - e do triunfo que foi a participação no Live Aid, em 1985 - The Unforgettable Fire era um disco muito irregular e não era com ele que o U2 conquistaria o mundo.

O passo final para o megaestrelato exigiria um generoso e, para alguns, desajeitado abraço na cultura norte-americana, do som ao visual. The Joshua Tree foi a primeira expedição do U2 à cultura de raiz dos Estados Unidos, especialmente o blues. A produção ficou a cargo do mesmo Brian Eno (Roxy Music) do disco anterior, mas, desta vez, seus característicos climões ambient estariam a serviço de um repertório muito superior.

A lenta introdução de teclados e a longa repetição do belo e inconfundível riff disfarçavam o galope que tomaria conta de "Where the Streets Have No Name", uma faixa tão triunfante e contagiante que jamais deixaria o repertório da banda, ao contrário de outros clássicos da época. Feita pra explodir em emoção nos grandes estádios em que a banda planejava tocar, a música cumpria seu propósito com perfeição: o ouvinte era implacavelmente fisgado e não podia mais parar. Não havia escapatória.

O U2 em 1987: Larry Mullen Jr., Bono, Adam Clayton e The Edge.

A vocação gospel de "I Still Haven't Found What I'm Looking For" seria comprovada com as versões acompanhadas por um coral, registrada no filme e disco Rattle and Hum (1988). Na faixa de estúdio, a bateria de Larry e o baixo de Adam conferiam uma forte pulsação à compungida letra (nota mental de professor: não deve existir canção melhor para ensinar Present Perfect). Fechando a trinca dourada de abertura do álbum, a impoluta "With or Without You" lá do segundo parágrafo, 4 minutos e 55 segundos de perfeito equilíbrio entre a pretensão rocker desejada pelos fãs, a emoção esperada em uma boa canção de amor e o apelo radiofônico que garantiria a conquista do universo.

A furiosa "Bullet the Blue Sky" reafirmava a vocação de Bono para o discurso político. Em meio a diversas metáforas bíblicas, ele estava criticando as intervencionismo militar dos EUA. Guitarra nas alturas, bateria seca, a canção acabou ganhando, em turnês posteriores, um solo mais elaborado e mais veloz. "Running to Stand Still", com sua calmaria dolorida, fala de amigos que Bono perdeu para a heroína.

O passeio bluesy prossegue na imensa beleza de "Red Hill Mining Town", denúncia das agressões à natureza e à saúde causadas pela mineração de carvão. Uma das melhores interpretações de Bono e uma das poucas faixas que têm lugar permanente no meu sempre mutante Top 10 particular da banda. Não enxergar muito sentido na letra de "In God's Country" não me impediu de gostar dela, curtinha e acelerada que era. "Trip Through Your Wires" era o momento mais ortodoxamente blues do disco, beneficiando-se de uma letra muito inspirada e das intervenções da gaita de Bono.

As três faixas finais ostentavam a seriedade engajada que definia o U2 naqueles tempos. "One Tree Hill" foi escrita em homenagem a um roadie da banda, de origem maori (daí os sons havaianos presentes), morto em um acidente, e ao escritor e ativista Victor Jara, morto em 1973, durante o regime totalitário do Chile. "Exit" é um tenso rock que narra um crime passional, cuja suposta influência foi usada como defesa em um processo por assassinato. A pungente "Mothers of the Disappeared" fecha o álbum com uma sombria e sentimental homenagem às mães da Plaza de Mayo, cujos filhos desapareceram nos piores anos da ditadura na Argentina.

Quando se fala em disco fundamental, a crítica é quase unânime: Achtung Baby (1991). The Joshua Tree, contudo, pode ser entendido como o álbum em que aquele U2 "mais puro", do terço inicial de sua agora longeva carreira, atingiu o ápice de suas capacidades e ambições.  Dali em diante, era a reinvenção ou a irrelevância. Entender que, apesar do curto prolongamento da experiência em Rattle and Hum, o U2 não se acomodou no conforto das glórias conquistadas, dá um valor ainda maior ao salto no penhasco do improvável que foi Achtung Baby. Por outro lado, igualmente, reforça o status de The Joshua Tree como o sólido chão sobre o qual a revolução do U2 foi construída.

PS: a edição atualmente à venda no Brasil é uma redução da luxuosa edição remasterizada (e limitada) de 20 anos, com um encarte muito mais bonito e a capa restaurada à sua beleza original, em lugar daquela pavorosa adulteração.

U2 - The Joshua Tree
Lançamento: 9 de março de 1987.
Produção: Brian Eno e Daniel Lanois.

01 - "Where the Streets Have No Name"
02 - "I Still Haven't Found What I'm Looking For"
03 - "With or Without You"
04 - "Bullet the Blue Sky"
05 - "Running to Stand Still"
06 - "Red Hill Mining Town"
07 - "In God's Country"
08 - "Trip Through Your Wires"
09 - "One Tree Hill"
10 - "Exit"
11 - "Mothers of the Disappeared"