18/02/2015

Limbo - Milequatro


Alguém que chegue a Alagoinhas sem saber muito sobre a cidade pode se espantar ao saber que, apesar do predomínio de arrocha e pagode no som das lojas, carros e casas, existe uma cena rock razoavelmente forte por aqui. É certo que, como acontece em qualquer lugar, várias delas começarão e acabarão sem ter conquistado sequer um público de três dígitos. Este é o nem sempre justo resultado de uma complicada equação entre talento, esforço e oportunidade. Existe, porém, uma jovem força do rock alagoinhense que merece atenção, oferecendo rock de boa cepa e mostrando potencial para a grandeza: o quinteto Limbo.

Milequatro é o nome do EP no qual a banda aposta suas primeiras fichas. São seis faixas que não escondem suas diversas fontes de inspiração, mas que revelam, também, muita personalidade latente e (aleluia!) potencial radiofônico, qualidades que podem levá-los para muito além das fronteiras regionais.

A primeira faixa, "Sit", é candidata instantânea a clássico. A atmosfera pinkfloydiana embala uma descida a recantos escuros da alma, numa letra que impressiona vinda de alguém tão jovem (o vocalista e guitarrista base Zé Neto, de apenas 18 anos, autor da maioria das letras). Do dedilhado de abertura ao épico solo final de Levi Vieira (17), esta canção faz a gente querer conhecer mais da Limbo - e que bom que há mais por ouvir.

Zé Neto, Victor Vogel, Levi Vieira, Hiran Fernandes e Vagner Tavares

"Lola" tem seu compasso ternário, quase de valsa, acelerado e modificado para criticar a parcela da juventude que tomou as ruas em 2013, interessada menos em protestar e mais em fazer fotos legais pra postar no Facebook e Instagram. É a única canção em português do EP. Quando a ouço, penso em Capital Inicial e digo isso na esperança de que a comparação não seja entendida como um elogio.

O pós-punk alucinado "This Is a Call" se apoia no peso das baquetas de Victor Vogel e no baixo pulsante de Vagner Tavares (20). A letra parece ter seguido o "método Carlinhos Brown" de composição, na linha "bota essa frase aí que soa legal". Um detalhe, nada mais, diante da eletricidade rock & roll que emana desta faixa.

"Malluzie" é uma love song que pode ser ouvida como a música que o Radiohead deve há anos ao público que ama The Bends ou como a melhor música do Coldplay que não é do Coldplay. As guitarras de Levi e Neto reluzem em bonito duelo, mas a cozinha dá apoio mais que seguro.

Composta em coletividade e em provável clima de farra (a presença de um verso que pode ser traduzido como "me deixa, desgraça", um baianismo inegável, dá a pista), "Limbo I" é um pesado blues rock com refrão uivado pelo vocalista de apoio, Hiran Fernandes (19). A letra traz frases que conduzem à ideia de limbo imaginada pela banda em sua concepção.

Dividindo genes com "Love Is Blindness" (U2) e "Heaven" (Depeche Mode), a estupenda entrega emocional ouvida em "Let Me Think" a qualifica para disputa com "Sit" pelo posto de melhor faixa do EP. Bela e sombria, a faixa fala da proximidade do fim do amor e parece que a banda toda estava dando o sangue nesta gravação. Um autêntico fecho de ouro.

Se ainda parece que a Limbo atira em direções demais, vale lembrar que tempo é coisa de que estes garotos ainda dispõem para aprender bastante. Se ainda jovens e inexperientes eles já mandam tão bem, fico pensando no que podem alcançar quando tiverem certeza de qual é o caminho a seguir. Quando esta hora chegar - e eu aposto que chegará - talvez a Bahia seja pequena demais para segurá-los.

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07/02/2015

Teste dos 20 Anos


Desde 2010, venho comparando as impressões que tive discos de minha coleção à época de seu lançamento com as que eles me causam hoje em dia. Nas quatro primeiras edições, limitei o número de discos comentados a cinco, mas, depois do especial do ano passado, decidi deixar a preguiça de lado e escrever sobre dez discos.

Logicamente, você há de sentir falta de discos importantes daquele ano, como o AM do Wilco ou a estreia homônima do Foo Fighters, mas estes foram discos que eu só cheguei a ouvir anos depois, deixando a comparação sem efeito. Com o perdão pedido, desejo que você desfrute e comente esta lista. Bon voyage!


Alanis Morissette - Jagged Little Pill


- Foi amor à primeira vista?
Alanis não era exatamente uma estreante. Previamente, havia gravado dois discos de pop mais ortodoxo, mas a persona e o estilo que que a consagraram nasceram com Jagged Little Pill. Contratada do hoje finado Maverick, o selo de Madonna, Alanis usava sua poderosa voz e seu discurso afiado num repertório de canções confessionais agressivas e ressentidas, com um pé no rock e outro no pop, que me agradaram bastante. Aliás, agradaram a muita gente e o disco vendeu feito pão quentinho.

- Ainda rola gostoso?
Os vinte anos passados me fazem respeitar ainda mais a entrega emocional de Alanis neste disco. É um parto, uma exposição das entranhas, como pouco se vê por aí. Tem uns timbres datados, mas ainda é uma coleção de grandes canções, nas quais Alanis não tem medo de parecer neurótica ou perigosa (como em "You Oughta Know" e na faixa oculta a cappella "Your House", em que invade a casa do ex-namorado). Por outro lado, as meninas têm muito a aprender com o humor resignado e a sabedoria amorosa de baladas como "Ironic" e "Head Over Feet".


Annie Lennox - Medusa


- Foi amor à primeira vista?
Annie foi uma das artistas que me ajudaram a desenvolver um gosto por boa música pop - primeiro, com diversas das impecáveis canções dos Eurythmics; depois, com o monumento de sensibilidade e emoção que era "Why", de seu disco anterior, Diva (1992). O retorno de Annie se dava em um disco de covers que iam de Bob Marley a Paul Simon, passando por The Clash e Neil Young. Hits imediatos na época: "No More 'I Love You's" (The Lover Speakers) e "A Whiter Shade of Pale" (Procol Harum).

- Ainda rola gostoso?
Gosto muito mais hoje em dia. Pequenas sutilezas nos arranjos e no canto de Annie que antes me escapavam agora tornam a audição deste disco um prazer ainda maior. Além discos, faixas que eu costumava ignorar agora estão entre minhas preferidas, a exemplo de "Waiting in Vain" (Bob Marley) e "Don't Let It Bring You Down" (Neil Young). Nada supera, porém, o furacão emocional da dolorida versão de "Something So Right", de Paul Simon, que, ainda hoje, vez por outra, me leva às lágrimas.


Fernanda Abreu - Da Lata


- Foi amor à primeira vista?
Naquele meio da década de 90, era quase uma exigência dar um toque brasileiro à música pop. Em seu terceiro disco, Fernanda Abreu alcançou fantástico equilíbrio sonoro, com produção de luxo (a cargo de Nellee Hooper, do Soul II Soul) e canções irresistivelmente swingadas, entre inéditas surpreendentes ("Veneno da Lata", "Garota Sangue Bom", "Somos Um") e ótimas versões ("A Tua Presença Morena", "É Hoje").

- Ainda rola gostoso?
Este ainda é um disco bem gostosinho de ouvir, apesar de o estilo lírico do rap de Fernanda e Fausto Fawcett ter se tornado anacrônico e francamente irritante. Apesar do timbre de curto alcance, Fernanda se dá melhor quando canta mais e tenta menos passar por "mana do morro". O samba e o charme andam bonitinhos de mãos dadas em "Tudo Vale a Pena" e "Babilônia Rock" serve para recordar a genialidade de Lincoln Olivetti, morto recentemente.


Funk'n Lata - Funk'n Lata


- Foi amor à primeira vista?
Ainda sem status de movimento cultural, o funk ganhou toques de superprodução, quando Ivo Meirelles chamou uma porção de amigos ilustres (Pepeu Gomes, Fernanda Abreu, Alcione, Lobão, Sandra de Sá) para versões envenenadas com a bateria da Mangueira e algumas canções inéditas. Deu muito certo em alguns momentos, mas a baixaria que já se insinuava em "Não É Mole, Não" atingiu o ápice no disco seguinte, com a inacreditável "Boquete", e o Funk'n Lata foi pro saco (sorry, não deu pra não persistir no trocadilho erótico).

- Ainda rola gostoso?
Aquele tcheco-tcheco de tamborim cansa em determinado momento, o que recomenda escutar o disco em pequenas doses. Convém, ainda, desligar o cérebro pra evitar prestar muita atenção às letras indigentes de Ivo e ao vocal bizarro de alguns (cof, cof) cantores da comunidade. O papo social ainda é válido em algumas faixas, mas o que sobressai é o swing matador de "Trem pra Salvador" (com Pepeu Gomes e Simone Moreno) e "Olhos Coloridos" (Sandra de Sá) e a pesada versão de "Vida Bandida", mais empolgante que a original.


Kid Abelha - Meio Desligado


- Foi amor à primeira vista?
Ainda não era obrigatório que todo artista tivesse seu Acústico MTV e o Kid Abelha fez uma espécie de "Acústico Pirata", dispensando a assinatura da MTV e entregando excelentes releituras desplugadas de seu próprio repertório, além de canções de Tim Maia e Cazuza. Paula Toller não estava apenas ficando mais bonita a cada ano que passava: também estava cantando cada vez melhor. A estridência de 1984 tinha ficado definitivamente para trás e a suavidade de seu timbre é uma das razões para a alta qualidade deste projeto.

- Ainda rola gostoso?
O Kid Abelha acabou gravando um Acústico oficial em 2003, mas eu ainda prefiro este. Desconfio que muita gente prefira. Serve como ótima introdução à obra da banda para novatos, com versões de joias pop do quilate de "Por Quê Não Eu?", "Eu Tive um Sonho" e "Nada por Mim". A título de curiosidade, destes últimos 20 anos, dez já se passaram sem trabalhos inéditos da banda. A habilidade pop do Kid Abelha faz muita falta.


Lulu Santos - Eu e Memê, Memê e Eu


- Foi amor à primeira vista?
Lulu Santos vinha surfando a crescente onda da música eletrônica desde o disco anterior, Assim Caminha a Humanidade, cuja faixa-título virou tema da então nascente e polêmica Malhação. Radicalizando, chamou o DJ Memê para um disco inteiro em parceria. O disco já começava com uma versão matadora de "O Descobridor dos Sete Mares", de Tim Maia, impecavelmente misturada a "Disco Inferno", dos Trammps. Tinha ainda uma ultra-elegante versão de "Fullgás", de Marina Lima, Roberto Carlos evoluído para as pistas e novas versões de canções próprias, incluindo a linda "Sereia", antes gravada por Fafá de Belém (oi?).

- Ainda rola gostoso?
O disco padece de um irritante hábito da época: o excesso de faixas: são 17 e, mesmo que 4 delas sejam vinhetas, outras 3 são versões da mesma música, "Tudo Igual". Fosse mais curtinho, seria impecável. Mestre da canção pop, Lulu não precisava apelar a truques de DJ pra fazer sucesso, mas a parceria deu certo e o disco vendeu mais de um milhão de cópias. Elogiar as habilidades melódicas de Lulu Santos (ou de Tim, Roberto e Marina) é chover no molhado, então, ouvir este disco ainda é legal, apesar de algumas batidas datadas.


Oasis - (What's the Story) Morning Glory?


- Foi amor à primeira vista?
O Oasis era um quinteto, mas só se falava nos irmãos Noel e Liam Gallagher, que se odiavam e soltavam farpas sobre tudo e sobre todos. Muita gente (tipo, eu) também odiava os Gallagher pelo atrevimento de se compararem aos Beatles, mas não é que os caras estavam realmente fazendo grandes canções? "Wonderwall" encheu o saco de tão popular que ficou, mas era "Don't Look Back in Anger", com sua introdução à la "Imagine", que pegava a gente de surpresa e não largava. Por muito tempo, porém, a chatice dos irmãos me fez ignorar o resto do disco.

- Ainda rola gostoso?
Algum tempo depois, passei a escutar este disco melhor, descobrindo a beleza de faixas como "Cast No Shadow" e "Champagne Supernova" e a energia rock & roll de "She's Electric" e "Roll With It". O megaestrelato veio com um disco inferior (o subsequente e excessivo Be Here Now), o sucesso do Oasis foi minguando e a banda acabou em 2008, mas considero Noel Gallagher um mestre da canção. Pode ser um chato boca-dura, mas não posso negar o que lhe é de direito. PS: "Don't Look Back in Anger" é um beijo no céu, uma canção para a eternidade.


Passengers (U2) - Original Soundtracks Vol. 1


- Foi amor à primeira vista?
O U2 havia tomado gosto pela música eletrônica desde o lindo Zooropa (1993), mas tinha medo de chocar seus fãs com as pirações radicais que estavam pipocando em suas cabeças e na do produtor Brian Eno. Esconderam-se, então, sob o pseudônimo Passengers e soltaram este disco cheio de faixas esquisitas, cuja única concessão ao pop que caracterizava a obra do grupo era o hit "Miss Sarajevo", com arrepiante participação do tenor Luciano Pavarotti. Curti um pouco, depois tomei pavor e vendi minha cópia.

- Ainda rola gostoso?
Confesso que recomprei o CD algum tempo depois e decidi prestar mais atenção, reconhecendo boas ideias em meio à infinidade de barulhinhos e timbres estranhos. Com o tempo, o disco deixou a condição de "maldito" na discografia do U2, ao ponto de "Miss Sarajevo" e a ótima "Your Blue Room" (com seu climão meio gospel, meio western) integrararem coletâneas da banda. Acho que faixas como "Slug", "Always Forever Now" e "One Minute Warning" darão uma senhora trilha sonora pra minha leitura de Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick.


Radiohead - The Bends


- Foi amor à primeira vista?
Na verdade, já era 1996 quando escutei "High and Dry" e achei que era Bono cantando baixinho no primeiro (e sensacional) sinal de vida do U2 pós-Passengers. Estava errado, mas acabei descobrindo o Radiohead e, pouco tempo depois, aquele histórico comercial do Carlinhos me apresentou a "Fake Plastic Trees" e foi impossível não comprar The Bends, segundo disco da banda e um dos melhores lançamentos daquela ressaca pós-suicídio de Kurt Cobain, desses pra curtir de ponta a ponta.

- Ainda rola gostoso?
Claro que ainda rola gostoso, ainda mais se a gente pensar que este Radiohead sublime foi substituído por um gêmeo malvado que odeia música pop e empurra discos cada vez mais esquisitos pela goela de seus fãs, cujo sorriso vai ficando mais amarelo e torto que o do vocalista Thom Yorke. Resta a nostalgia da perfeição melódica de coisas como as duas faixas supracitadas, além da épica "Black Star" e da arrasadora "Street Spirit (Fade Out)".


Renato Russo - Equilibrio Distante


- Foi amor à primeira vista?
Depois do panfletário e belo The Stonewall Celebration Concert (1994), Renato Russo decidiu explorar as raízes italianas de sua família, de real sobrenome Manfredini. Voltou de lá com um disco cheio de sucessos pop da terra da pizza. Era uma ideia curiosa, mas me lembro de ter achado terrivelmente brega, embora tenha me empenhado em aprender a letra de "La Solitudine" que fez bastante sucesso, assim como "Strani Amori".

- Ainda rola gostoso?
Não, não rola MESMO! Não basta ostentar uma música da chatíssima Laura Pausini, tem que ter estes teclados de churrascaria, que quase estragam até coisas bonitas como "Scrivimi", e essa empostação tonitruante e anasalada que faz a gente esquecer que este é o mesmo cara que nos entregou, por exemplo, a impoluta "Angra dos Reis". Pra não dizer que é tudo ruim, "Lettera" é um momento acústico discreto e bonito.