26/04/2015

Vingadores: Era de Ultron



Quando criança, antes de decidir começar a comprar meus próprios gibis de super-heróis, eu lia a vistosa e bem-cuidada coleção de um vizinho. Era a época do "formatinho" da Editora Abril, com suas histórias mutiladas pra caber em 84 páginas - que a gente lia de boa, porque não tinha internet e ninguém sabia que elas estavam mutiladas. Meu vizinho comprava, entre outras, o Almanaque do Capitão América e Heróis da TV, que eram onde saíam as histórias dos Vingadores, em grupo ou individualmente. Naquele tempo, porém, eu estava fascinado pelos X-Men e só me interessava de verdade pelas edições de Superaventuras Marvel. Achava Vingadores (e Homem de Ferro, Capitão América e Thor, em suas aventuras individuais) um saco.

Essa introdução foi pra explicar que fui ver Vingadores: Era de Ultron em quase total ignorância. Se existe ali uma coleção de referências aos quadrinhos que fazem arrepiar a pele dos fãs de longa data, elas passaram em brancas nuvens pra mim, exceto por aquele fabuloso segundo, durante o ataque à base da Hidra, que imediatamente remete aos desenhos de Brian Hitch em Os Supremos.

O supracitado ataque, que abre o filme num plano-sequência de tirar o fôlego, mostrando cada um dos heróis em ação, é uma mostra clara do que espera o público: ação espetacular e poucos intervalos pra que a mente "respire". Tudo é muito grande, muito rápido e muito barulhento. Existe, porém, uma boa história sendo bem contada, o que sobressai a toda essa distração sensorial.

Imaginada pelo Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) para ser uma força de manutenção da paz e defesa contra ataques alienígenas, como aquele dos Chitauri no primeiro filme, a inteligência artificial Ultron subverte sua programação original, ao entender que nós, humanos, somos os principais causadores de nossas próprias mazelas, e que o planeta estará bem melhor sem nós. É uma origem que não respeita a fonte: nas HQs, Ultron foi criado por Hank Pym, o Homem-Formiga original. Apesar disso, funciona muito bem dentro do universo desenhado pelos filmes da Marvel.

Ultron é como um reflexo distorcido de seu próprio criador. É irônico e teatral como o próprio Tony Stark, mas, com sua consciência viajando livremente pela internet, acaba provando-se um inimigo muito difícil de derrotar. Os elogios ao trabalho vocal de James Spader são unânimes, mas me vi obrigado a ver o filme em cópia dublada, porque, afinal, é isso que o povão quer (quase chego a desejar o sucesso do plano de Ultron, quando lembro disso). Apesar da "maquiagem auditiva", deu pra sentir que o robô é um vilão e tanto.


Além de Ultron, os maiores triunfos do filme estão nas mãos dos coadjuvantes - ou, melhor dizendo, na opção de Joss Whedon em tirar o foco do trio de protagonistas com franquias próprias, desenvolvendo as histórias dos Vingadores mais "normais": Viúva Negra (Scarlett Johannsson) e Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). É o Gavião, por sinal, o maior beneficiário da visão de Whedon, rivalizando em habilidade de liderança com o próprio Capitão América e revelando uma vida secreta que traz toda uma bem-vinda dose de humanidade à equipe de semideuses.

Os novos heróis também cumprem muito bem suas funções (e a responsabilidade de fazer o que precisa ser feito é o mote de vários diálogos importantes). Feiticeira Escarlate (Elisabeth Olsen) e Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson) surgem como antagonistas dos heróis, mas, previsivelmente, acabam provando, com seguidos atos de heroísmo, seu merecimento de um lugar na equipe. O Visão está perfeito, um trabalho magistral de Paul Bettany com o sentimental existencialismo do personagem, que não é um ser humano, mas também não é apenas uma máquina. Um delicado e complexo equilíbrio entre as duas condições.

Tecnicamente, o filme não inspira queixas. Me lembro de me pegar pensando, em vários momentos, sobre como mesmo as façanhas físicas mais absurdas parecem plausíveis, humanamente fluidas, tamanha a qualidade dos efeitos especiais. Há uma pequena quebra de ritmo no meio do filme que ameaça cansar ao espectador, mas logo a ação volta a dominar. Apesar do alto nível geral, não saí do cinema com aquela sensação de "Uau!, eu acabei de ver o filme do ano!".

Há quem atribua, com razão, este ligeiro esvaziamento do impacto do filme (e de outros) aos seus trailers, que já entregavam praticamente todas as suas melhores cenas. Parece que Hollywood não consegue mais fazer segredo com nada. Tudo virou apenas uma questão de esperar o momento de êxtase, mas a verdade é que o êxtase nem sempre vem. Trailers reveladores demais estão dando a sensação de, digamos, coito interrompido.

Logicamente, isso não faz de Vingadores: Era de Ultron um filme ruim, sequer meia-boca. Ele é plenamente satisfatório, tanto para os fãs das HQs quanto para o público exclusivo do cinema do gênero. Falta novidade, porém. Parece um cover mais grandioso do primeiro. Pelo menos, o final dá pistas de que as coisas devem se modificar bastante num futuro próximo, o que inclui a direção do terceiro e quarto filmes, que sai das mãos de Joss Whedon e passa a Joe e Anthony Russo. Com a diversificação dos projetos (que incluem os filmes de Homem-Formiga, Pantera Negra e Doutor Estranho, além de novos filmes de Capitão América (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth) e Guardiões da Galáxia), a fase 3 do Universo Marvel cinematográfico promete continuar gerando muita diversão pra quem vê e muita grana pra quem faz.

22/04/2015

Cinco razões para querer o fim d'Os Novos 52

Como talvez você já saiba, a DC Comics pretende acabar com o universo Os Novos 52 após a minissérie Convergence, que é a irmã mais nova da Crise nas Infinitas Terras, saga que completou 30 anos em 2015. Ou seja, mais uma do tipo "mundos morrerão e nada mais será como antes." (Sei...)

A promessa é que, quando for reiniciado pela trocentésima vez, em junho, o Universo DC será menos interdependente e não haverá tanto apego à cronologia, o que deve permitir aos autores um pouco mais de liberdade e gerar histórias melhores. Ou assim esperamos, pelo menos.

Uma coisa é certa: é a chance de a DC corrigir algumas burradas fenomenais cometidas durante Os Novos 52. Eis aqui cinco delas (entre tantas outras que omito para a lista não ficar grande demais), listadas por ordem crescente de importância (ou de heresia, se for mais do seu gosto). Algumas já estão sendo consertadas, mas merecem registro por terem sido ideias de jerico vistas como "revolução".


5) Coringa usando máscara feita da própria pele.
Endgame, saga que foi concluída recentemente nos EUA, já tem o Coringa de volta com sua pele "normal". No lançamento d'Os Novos 52, porém, o desenhista Tony S. Daniel, também encarregado do argumento na versão mais moderna do título mais longevo da DC Comics, queria "causar" a qualquer custo e botou o Coringa pra arrancar a pele do próprio rosto, só pra usá-la por cima do rosto esfolado, presa por correias e fivelas. Que ideia genial, loucaço esse Coringa, hein? Não.

4) Os heróis terem apenas seis anos de carreira.
Não tinha como dar certo, especialmente nos casos dos heróis menos afetados pelo reboot: Batman e Lanterna Verde. Como espremer três Robins em apenas seis anos, sendo que dois deles (Dick Grayson e Jason Todd) eram crianças seis anos atrás e agora são adultos? Como fazer caber, em tão pouco tempo, as contínuas revoluções do universo dos Lanternas? Aos fãs, ficou a instrução, jamais verbalizada pela DC (que não é doida, nem nada): se virem, porque agora é assim.


3) Liga da Justiça sem o Caçador de Marte.
Um dos personagens mais importantes e imponentes desde sempre na história do supergrupo, simplesmente limado de sua origem, em favor de cotas raciais que enfiaram o Cyborg como membro fundador da Liga. Não cabe aqui nenhuma crítica à cota racial em si, pois variedade étnica é sempre bem-vinda, mas J'Onn J'Onzz era o único membro que havia participado de TODAS as versões da Liga da Justiça. Não se quebra uma tradição e um personagem desta grandeza para relegá-lo a um grupelho feito o Stormwatch.


2) Estelar e Arsenal descaracterizados.
Jason Todd, ex-Robin, é um bucha desde sempre e foi explodido a pedido de milhares de leitores que jamais gostaram de sua fuça. O desserviço de ressuscitá-lo e, com isso, eliminar os efeitos de uma das tragédias que definem o Batman, partiu da mente "jenial" de Judd Winick, ainda antes d'Os Novos 52. Quando ele reapareceu com título próprio e dois ex-Titãs ao seu lado, porém, é que a coisa ficou maluca mesmo: segundo a nova escrita, Estelar e Arsenal jamais fizeram parte do supergrupo adolescente. Além disso, de princesa alienígena apaixonada por Dick Grayson, Estelar virou uma princesa alienígena que oferece sexo como quem oferece um copo d'água. Arsenal ganhou o visual mais ridículo da história, com cabelos longos e boné, ornando NADA com o uniforme. Nem sei se o Arqueiro Verde ainda faz parte de sua história. Faz tempo que parei de ler Capuz Vermelho e Os Foragidos, um título cuja existência e duração desafiam a lógica. É ruim de doer e deve vender pouquíssimo, mas já resistiu a diversas ondas de cancelamentos.


1) Tim Drake não ter sido um Robin oficial.
Quando a DC se deu conta de que quatro Robins não caberiam em meros seis anos, teve a ideia de jerico suprema: jogar no lixo toda a rica história de Tim Drake. O garoto que descobriu sozinho a identidade secreta do Batman, tornou-se um dos maiores experts em computação do Universo DC, venceu o Rei Cobra e diversos outros inimigos apavorantes, tendo sido o Robin mais útil e emocionalmente equilibrado que o Batman já teve ao seu lado, de repente, nunca tinha sido um Robin oficial. Sem falar que essa opção jogou pros ares uma história fundamental do Universo DC, Crise de Identidade, em que Tim perde o pai de maneira dramática, estreitando sua identificação com o Batman. Não, a DC achou que era mais legal torná-lo o líder de um bando de buchas sem carisma, que se autointitulam Novos Titãs, mas que nunca, NUNCA, chegarão aos pés da formação clássica, dos tempos de Marv Wolfman e George Perez - o que me faz lembrar que, com a desvirtuação de Cyborg e Estelar, temos que acreditar que coisas maravilhosas, como as sagas dos Titãs contra Trigon, Irmão Sangue e Exterminador, por exemplo, jamais aconteceram.

Não dá, DC. Não dá. Melhor sorte nos "Novos Novos 52".