19/05/2015

Superbaba / Superclasse


Há coisas para as quais a vida, simplesmente, não nos prepara. Uma delas é ser surpreendido por um CDzinho tão sensacional. Lançado há 20 anos, Superbaba é uma dessas coletâneas aparentemente picaretas que a Som Livre põe no mercado de vez em sempre, mas cuja qualidade superava em muito a expectativa.

Naquele 1995, eu trabalhava como auxiliar administrativo em um posto de gasolina, em Ibotirama, oeste da Bahia. No som ambiente, o gerente metia CDs de sua coleção, o que me obrigava a ouvir (e sofrer ao som de) muita música sertaneja e axé. De vez em quando, porém, ele surgia com um som mais bacana, como o primeiro de Terence Trent D'Arby e este Superbaba (discos estes que acabei "herdando" dele).

Com sua capa apaixonada e apaixonante e suas 12 formidáveis canções, a coletânea se resumia a seis grupos de black music romântica, conhecida como "soul da Philadelphia": Dramatics, The Floaters, Spinners, Manhattans, Blue Magic e The Stylistics, cada um contribuindo com duas faixas.

De cara, havia o interesse nostálgico em "Forever By Your Side", dos Manhattans, que integrava uma das primeiras trilhas de novela a chamar minha atenção: A Gata Comeu, de dez anos antes. É sacarina pura, com direito a fraseado de piano automaticamente reconhecível. O tipo de coisa que a "doutrina" da Bizz tentava me obrigar a considerar brega, mas que atire a primeira pedra quem não tem seus guilty pleasures.

A outra contribuição dos Manhattans não era menos certeira: a irretocável "Kiss and Say Goodbye", uma das melhores e mais gentis canções sobre o rompimento entre duas pessoas apaixonadas, mas ambas casadas (com outros, claro). Memorizar a introdução falada tornou-se uma obsessão e, uma vez aprendida, um prazer inenarrável.

Falatório em meio à cantoria também era o atrativo da deliciosa "Float On", em que os membros do The Floaters diziam seus nomes, signos e as qualidades que buscavam em uma parceira - tudo maravilhosamente raso, brega e meloso, com aquela sensualidade de motel barato casando perfeitamente com a melodia pulsante. A manobra da introdução falada se repetia em "You Don't Have to Say You Love Me".

Blue Magic contribuía com uma das canções românticas mais tristes que já conheci: a genial "Side Show" comparava os que sofrem por amor a atrações de circo e trazia versos pungentes como "Veja o homem de coração partido / você percebe que ele está triste / e dói tanto, tanto / veja a garota que perdeu o único amor que já teve / não pode haver show mais triste de se ver". "3 Ring Circus" segue no tema, falando do palhaço triste: "Embora por dentro uma sombra crescesse / Ele conseguia rir e ninguém sabia / Que ali havia um homem solitário por dentro".

Dramatics faziam jus ao nome em "In the Rain". O negócio aqui é chuva e choro contínuos - admita, alguém já te fez sentir assim. A outra era um monumento soul "Hey You, Get Off My Mountain". Por descer da sua montanha, entenda que trata-se de mandar aquela pessoa que devia te amar, mas te põe pra baixo, em seu devido lugar.

As duas músicas dos Spinners ("I'll Be Around" e "Could It Be I'm Falling in Love") também tinham um quê de gostosa nostalgia, porque me fazia lembrar de tê-las ouvido, anos antes, na Antares FM, de Feira de Santana - que, acredite, já foi uma rádio de respeito. Não sei se ainda existe, mas, da última vez que soube dela, havia se tornado uma dessas que só tocam "o que o povão quer ouvir". Sem mais comentários.

Deixando o melhor para o final (embora estivesse no começo), The Stylistics abriam o Superbaba com aquela que é uma das músicas mais bonitas que existem e ponto final! Aprenda com o titio Batman e esqueça o Simply Red: "You Make Me Feel Brand New" é dez mil vezes melhor com eles, acredite. Caramba, essa música simplesmente me faz chorar TODAS as vezes que a escuto! A segunda faixa deles era a mega-açucarada "Because I Love You, Girl".

Superbaba era, enfim, um mixtape que deu incrivelmente certo. Uma coletânea impecável de um tipo de pop que quase não se ouve hoje em dia - repetindo as palavras de Lulu Santos, música de gente fina, elegante e sincera. Deixar que algo assim chegasse aos meus ouvidos e atingisse meu coração foi um inesperado prazer e privilégio. Espero que Superbaba faça o mesmo por você!

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