16/06/2015

Brigar pra quê, se é sem querer?


Parece piada, mesmo não sendo engraçado, que haja uma parcela da população brasileira acreditando que existe, neste momento, uma guerra (ou, no mínimo, uma cisão) dividindo o Brasil em heterossexuais e homossexuais.

Se você é heterossexual e acredita neste conflito, deixe o titio Batman resumir: ele não existe.

Mas, vamos viajar um pouco nessa sua maionese vencida e imaginar que exista. Bem, eu trago más notícias: você já perdeu a guerra.

Sim, perdeu, porque, felizmente, é muito grande o número de heterossexuais que não compactuam com essa crença maluca. Gente que entende o direito do outro à intimidade e à liberdade. Gente que não tem medo de demonstrar empatia e defender aqueles diferentes de si, ainda que isso atraia a desconfiança ou mesmo a ira de gente doente, que não possui a mesma capacidade.

Você perdeu esta guerra porque, por menos que pareça e por mais que demore, a razão sempre se sobrepõe à loucura, mesmo que seja preciso um movimento de fora pra dentro neste sentido. Perdeu, porque, ao contrário do que possa parecer, dado o exemplo dos boçais a quem gente assim escolhe como ídolos e mentores, falar mais alto não é o mesmo que estar mais certo. Dar de ombros pode ser uma boa técnica para evitar dor de cabeça, mas, não se engane: tem gente muito combativa do lado de cá, também. Gente que, se preciso, vai se reunir e rosnar ainda mais alto que essa turba ignorante com a qual você se diz alinhado.

Esta guerra foi perdida a partir do momento em que você foi convencido a falar dos gays como se fossem pessoas muito distantes da sua realidade. Só que os gays não são uma força alienígena pairando, ameaçadora, sobre sua cabeça, esperando o momento de atacar. Eles já estão aqui, entre nós. Faz tempo, inclusive. Os gays - e os amigos destes - são seus colegas de trabalho. São os amigos de seu filho. São clientes de sua loja e donos das lojas onde você é cliente. São funcionários das repartições e instituições públicas. São seus parentes, distantes ou próximos. São seus amigos, veja só.

Em sua incapacidade de dar ouvidos a argumentos, porém, você não compreende a maluquice e a burrice de dizer-se não preconceituoso, mas atacar a orientação sexual alheia, um assunto de esfera absolutamente privada, no qual você não tem o direito de opinar. Comentar e atacar a sexualidade de outro não é "opinião", nem "direito à livre expressão"; é invasão de privacidade pura e simples; é fofoca, futrica e indiscrição; uma coisa muito feia, da qual você deveria estar envergonhado, não orgulhoso.

E se você é daqueles que argumentam que é preciso (ai...) "defender a família tradicional", eu vou ter que ser um pouco menos educado: deixe de ser babaca e presunçoso! A família tradicional não precisa ser defendida, nem por você, nem por ninguém. Quando eu nasci, existiam menos de 4 bilhões de pessoas no mundo. Quarenta anos depois, existem mais de 7 bilhões! E, "surpresa", já tinha viado e sapatão pra cacete naquele tempo!

Não é que exista "muito viado" hoje, seu burro. O que acontece é que, hoje, apesar de tanta animosidade - violência, mesmo - fomentada por gente interessada em manter o maior número possível de pessoas nas trevas da ignorância e do fanatismo, os/as gays se escondem menos, porque tomaram consciência de que sua orientação sexual não pode servir como argumento para serem tratados como pessoas menos merecedoras de respeito e de direitos. Se você sonha com um mundo livre de gays, pule você pra fora dele. Não. Vai. Rolar.

Agora, se você relaxar, pode ter uma boa surpresa, ao perceber que os gays vão sempre existir, mas vão sempre ser o que sempre foram e jamais negaram ser: uma minoria. Entenda, porém: uma minoria que não vai aceitar - não sem uma boa briga, pelo menos - ser empurrada pra debaixo do tapete da vida e da história por uma maioria que, verdadeiramente, não tem nada a ganhar com isso. Não se esqueça do que eu falei antes: muita gente nessa maioria heterossexual se posicionaria em favor dos gays. Deixados em paz, pode crer que os gays vão saber viver em paz, também.

Pense, então, nos reais interesses por trás desse estímulo ao confronto que tanto vemos na mídia, hoje em dia. Políticos e líderes religiosos, principalmente aqueles que são ambas as coisas, são os menos interessados em um povo inteligente e bem informado. Quanto mais bem educado e questionador é o povo, menores são o poder e a influência que eles têm. Não caia nesse papo de "homem santo", "ungido", "homem de Deus": todo mundo (TODO MUNDO!) tem um esqueletinho no armário. Basta procurar.

Alguns homossexuais gostam de dizer que "o mundo é gay". Eles estão igualmente certos e errados. O mundo não é somente gay... mas é gay, também. Tenho esperança de que, um dia, estaremos todos unidos, lutando por um país melhor para as futuras gerações e rindo muito desse papel ridículo que estamos fazendo hoje.

15/06/2015

Fui ao Jurassic World e lembrei de você!


Lá se vão 22 anos desde o Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros original, quando o mundo se assombrou diante do realismo dos dinossauros criados digitalmente por Steven Spielberg, com todos os dentes, músculos, chifres e rugas que se podia desejar. Hoje em dia, bichos muito mais fantásticos já viraram carne-de-vaca e ninguém se impressiona com sua mera presença. Foi surpreendente que alguém ainda quisesse fazer um filme da série, depois que os péssimos segundo e terceiro filmes praticamente destruíram seu potencial. Foram quase 15 anos para que os dinos se recuperassem desses "meteoros" que quase causaram sua extinção.

E não é que Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros seja um primor de roteiro, atuações ou verossimilhança. Na verdade, o grande trunfo do filme é assumir-se como diversão escapista e homenagem ao histórico filme de 1993. Colin Trevorrow, um diretor sem qualquer grande destaque em seu currículo, sabe emular com bastante eficiência algumas artimanhas spielberguianas e, embora seja fácil esquecê-lo assim que saímos do cinema, o filme contém duas horas de adrenalina e boa diversão descerebrada.

Para quê o Dr. Hammond (o "pilantropo" do filme original) havia bancado a clonagem de dinossauros, afinal? Para que tivéssemos um parque, ora! Finalmente, aqui temos um parque funcional e repleto de gente curiosa pelos dinossauros. A exemplo do que acontece nos parques temáticos de verdade, porém, o interesse do público só se mantém aceso conforme o Jurassic World anuncia novas atrações - e, conforme as opções vão se esgotando, a direção secretamente cria um bicho novo, mesclando características de diferentes dinos e bichos contemporâneos. 


Não é preciso ser nenhum gênio pra saber que esse dinossauro master blaster vai ser o problemão da vez, já que os terríveis velociraptores encontram-se semidomesticados pelo personagem de Chris Pratt (praticamente um teste - do qual sai aprovado - para seu provável futuro como o novo Indiana Jones) e o T-Rex... Bem, digamos que o T-Rex é pouco visto.

Todos os personagens têm a profundidade psicológica de um pires: o herói bonitão hesitante (Chris Pratt), os irmãos diferentes entre si que acabam unidos diante do perigo, a cientista pragmática e arrogante que descobre que tem um coração (Bryce Dallas-Howard) e o híbrido de militar durão e empresário que desejamos que seja devorado (Vincent d'Onofrio). Não espere surpresas, todos eles acabam do jeitinho que a gente imagina desde a primeira cena.

Desligue, então, suas funções cognitivas, jogue a ciência e a credibilidade para o alto e divirta-se com sequências de tirar o fôlego (muitas das quais copiadas ipsis literis do primeiro filme), as inúmeras mortes (são mais de 20 mil lanchinhos ambulantes, você espera que os dinos não façam a festa?) nas quais não se vê uma gota de sangue e com a épica batalha final entre os dinossauros mais letais do parque. Não vai muito além disso, mesmo. Como o parque em si, Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros não passa de um caça-níqueis safado, embalado em nobres intenções. Sabendo disso desde o começo, você vai sair do cinema satisfeito.

08/06/2015

...até que a nova vida os separe!


Os quadrinhos de Maurício de Sousa são um pedaço muito querido da vida de muita gente. Não são poucos os brasileiros que tiveram seu primeiro contato com a leitura através dos gibis da Turma da Mônica. Eles são, essencialmente, os mesmos desde sempre, há quase 60 anos - e, ao mesmo tempo em que isso é uma das razões de seu duradouro sucesso, também é sua maior vulnerabilidade. Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão terão eternamente entre 6 e 8 anos de idade. Não dá pra ousar demais com uma limitação tão séria (e alguns trocadilhos sexuais deslocados e desnecessários, encontrados quando certos roteiristas parecem esquecer a idade da turminha e qual é o seu público-alvo, são claras evidências deste dogma).

A saída encontrada para cativar os leitores que perdem essa inocência, então, foi envelhecer a garotada em uma espécie de "realidade paralela", na linha de mangás Turma da Mônica Jovem, um sucesso gigantesco. Eu não saberia julgá-las por suas qualidades e defeitos. Nunca me interessei por ler essas histórias. Me parece esquisito pensar em Mônica falando com Magali sobre cólicas menstruais, ou Cebolinha e Cascão trocando sugestões de vídeos nos PornHub da vida. Eu não sei se tem essas coisas lá, só estou conjecturando com base na adolescência da Turma. Como já disse, não li e creio que não lerei.

Faltava, então, cativar de volta os adultos, esse seres misteriosos, que lembram com carinho dos gibis da Turma em seus anos mais tenros, mas já não veem graça (ou motivos pra saudade) nos dramas da adolescência. O desafio era fazer um gibi para os maiores, mas de forma que a gurizada ou seus pais, que tendem a comprar qualquer coisa com a marca Mônica de olhos fechados, não se assustassem com o conteúdo. Isto é, as histórias teriam que ser inocentes o bastante para as crianças e elaboradas o suficiente para os adultos.

Nasceu, então, a linha Graphic MSP, uma sequência impressionante de gibis lindos e empolgantes, com artistas renomados ou em ascensão dando sua visão sobre a Turma da Mônica, com a liberdade de empregar seus próprios estilos.

Daí que, até o momento, a série já passeou pela ficção científica existencial (nos dois volumes do Astronauta, Magnetar e Singularidade), aventura infanto-juvenil de resgate (Turma da Mônica: Laços), folclore pré-histórico com pitadas de Conan (Piteco: Ingá), comédia de absurdos (Chico Bento: Pavor Espaciar) e as clássicas aventuras estreladas por animais (Bidu: Caminhos). Arte sempre magnífica, em edições graficamente impecáveis, com roteiros espertos, que cumprem, com louvor, a missão de entreter igualmente a adultos e crianças. A bola da vez é o casal Paulo Crumbin e Cristina Eiko, fazendo uma bonita história de muito amor e algum terror, protagonizada pela turma do Penadinho.



A exemplo da tirinha original, Penadinho: Vida faz graça e emociona com o que normalmente assusta: assombrações diversas, cemitérios, a própria morte. A premissa é simples, mas bem sacada. Dona Cegonha vem avisar a Penadinho que Alminha, "o amor de sua morte", vai reencarnar em poucas horas - e, pior, ela acaba sequestrada. Logo ele, um fantasma, que pensava ter a eternidade para cumprir promessas e dizer as coisas que nunca disse à sua amada, se vê subitamente acuado pela falta de tempo.

Sendo eles próprios um casal, Crumbin e Eiko certamente sabem do que estão falando. Neste gibi, o drama é a volta à vida. No mundo real, pode ser a proximidade do fim. Ou uma mudança repentina. Um emprego em outro Estado. Uma bolsa de estudos no exterior. A possibilidade de ter a pessoa amada afastada de nós é sempre assustadora, como sempre é certo o apoio dos amigos nas horas mais críticas. Os de Penadinho (Frank, Cranícola, Zé Vampir, Muminho...) dizem "presente", claro.

O "terror" ameaça, mas não chega a assustar (lembre-se, crianças também vão querer ler isso) e o final feliz é outra certeza nas criações de Maurício de Sousa. Não sei se li com pouca atenção, mas o único Easter egg que encontrei foi uma quadrinho com Alminha que parece homenagear uma imagem clássica de O Exorcista. No mais, Penadinho: Vida é mais uma aventura prazerosa para olhos e mentes, uma escrita que se confirmou, em maior ou menor grau, nos sete volumes da coleção até aqui. Que venham os próximos. Mesmo crescidinhas por fora, nossas crianças interiores agradecem, enternecidas.