08/06/2015

...até que a nova vida os separe!


Os quadrinhos de Maurício de Sousa são um pedaço muito querido da vida de muita gente. Não são poucos os brasileiros que tiveram seu primeiro contato com a leitura através dos gibis da Turma da Mônica. Eles são, essencialmente, os mesmos desde sempre, há quase 60 anos - e, ao mesmo tempo em que isso é uma das razões de seu duradouro sucesso, também é sua maior vulnerabilidade. Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão terão eternamente entre 6 e 8 anos de idade. Não dá pra ousar demais com uma limitação tão séria (e alguns trocadilhos sexuais deslocados e desnecessários, encontrados quando certos roteiristas parecem esquecer a idade da turminha e qual é o seu público-alvo, são claras evidências deste dogma).

A saída encontrada para cativar os leitores que perdem essa inocência, então, foi envelhecer a garotada em uma espécie de "realidade paralela", na linha de mangás Turma da Mônica Jovem, um sucesso gigantesco. Eu não saberia julgá-las por suas qualidades e defeitos. Nunca me interessei por ler essas histórias. Me parece esquisito pensar em Mônica falando com Magali sobre cólicas menstruais, ou Cebolinha e Cascão trocando sugestões de vídeos nos PornHub da vida. Eu não sei se tem essas coisas lá, só estou conjecturando com base na adolescência da Turma. Como já disse, não li e creio que não lerei.

Faltava, então, cativar de volta os adultos, esse seres misteriosos, que lembram com carinho dos gibis da Turma em seus anos mais tenros, mas já não veem graça (ou motivos pra saudade) nos dramas da adolescência. O desafio era fazer um gibi para os maiores, mas de forma que a gurizada ou seus pais, que tendem a comprar qualquer coisa com a marca Mônica de olhos fechados, não se assustassem com o conteúdo. Isto é, as histórias teriam que ser inocentes o bastante para as crianças e elaboradas o suficiente para os adultos.

Nasceu, então, a linha Graphic MSP, uma sequência impressionante de gibis lindos e empolgantes, com artistas renomados ou em ascensão dando sua visão sobre a Turma da Mônica, com a liberdade de empregar seus próprios estilos.

Daí que, até o momento, a série já passeou pela ficção científica existencial (nos dois volumes do Astronauta, Magnetar e Singularidade), aventura infanto-juvenil de resgate (Turma da Mônica: Laços), folclore pré-histórico com pitadas de Conan (Piteco: Ingá), comédia de absurdos (Chico Bento: Pavor Espaciar) e as clássicas aventuras estreladas por animais (Bidu: Caminhos). Arte sempre magnífica, em edições graficamente impecáveis, com roteiros espertos, que cumprem, com louvor, a missão de entreter igualmente a adultos e crianças. A bola da vez é o casal Paulo Crumbin e Cristina Eiko, fazendo uma bonita história de muito amor e algum terror, protagonizada pela turma do Penadinho.



A exemplo da tirinha original, Penadinho: Vida faz graça e emociona com o que normalmente assusta: assombrações diversas, cemitérios, a própria morte. A premissa é simples, mas bem sacada. Dona Cegonha vem avisar a Penadinho que Alminha, "o amor de sua morte", vai reencarnar em poucas horas - e, pior, ela acaba sequestrada. Logo ele, um fantasma, que pensava ter a eternidade para cumprir promessas e dizer as coisas que nunca disse à sua amada, se vê subitamente acuado pela falta de tempo.

Sendo eles próprios um casal, Crumbin e Eiko certamente sabem do que estão falando. Neste gibi, o drama é a volta à vida. No mundo real, pode ser a proximidade do fim. Ou uma mudança repentina. Um emprego em outro Estado. Uma bolsa de estudos no exterior. A possibilidade de ter a pessoa amada afastada de nós é sempre assustadora, como sempre é certo o apoio dos amigos nas horas mais críticas. Os de Penadinho (Frank, Cranícola, Zé Vampir, Muminho...) dizem "presente", claro.

O "terror" ameaça, mas não chega a assustar (lembre-se, crianças também vão querer ler isso) e o final feliz é outra certeza nas criações de Maurício de Sousa. Não sei se li com pouca atenção, mas o único Easter egg que encontrei foi uma quadrinho com Alminha que parece homenagear uma imagem clássica de O Exorcista. No mais, Penadinho: Vida é mais uma aventura prazerosa para olhos e mentes, uma escrita que se confirmou, em maior ou menor grau, nos sete volumes da coleção até aqui. Que venham os próximos. Mesmo crescidinhas por fora, nossas crianças interiores agradecem, enternecidas.

5 comentários:

The Messiah disse...

Nossa, me emocionei só com a sua review :D Preciso achar esse ASAP.
Realmente tudo começou com a Turma da Mônica. Hoje mesmo já comecei com as novas nros 1 uma coleção pra minha filha Helena dessa maravilhosa turminha!
Cheers!

Gerlande Diogo Vieira disse...

A linha Graphic MSP é showzaço de bola. Só me falta essa do Penadinho.

Do Vale disse...

Eu ia deixar essa passar como fiz com a do Chico, mas depois dessa tua resenha vou repensar.
Essa linha é muito boa pra presentear quem não costuma ler quadrinhos (já empurrei Turma da Mônica e Bidu pra minha irmã e namorada, respectivamente) ou pra quem sempre leu SÓ a Turma ou Disney a vida inteira (ou não, meu pai disse que "esse não é o Astronauta" - lembrei das reclamações da velha guarda em relação aos Novos 52).
Senti um desleixo no 2º volume do Astronauta... O que tu achou?

Marlo de Sousa disse...

DO VALE, não achei "Singularidade" desleixada, mas, enquanto "Magnetar" era mais "cinema russo", esse é bem "Hollywood". Parece estar acontecendo mais coisas na mais nova, mas a mais antiga era mais profunda.

Parabéns a você, GERLANDE e THE MESSIAH por seguirem leitores e despertarem o gosto em outras pessoas. É uma missão quase sagrada! :-)

Abraços!

Luwig Sá disse...

Acabei de lê-lo, Marlo.

"Não dá pra ousar demais com uma limitação tão séria [...] as histórias teriam que ser inocentes o bastante para as crianças e elaboradas o suficiente para os adultos"

Taí um patamar difícil de se manter em órbita e, inclusive, de se analisar criticamente, sabendo que embora você faça parte do nicho que Maurício e Sidney buscam alcançar, a linhagem de Mônica pertence - e sempre pertencerá - aos garotinhos que " terão eternamente entre 6 e 8 anos de idade".

Na minha ótica, a cada nova Graphic MSP uma coisa fica bastante clara: "eles" gostariam de chegar ao nível de excelência Pixar, mas não têm ousadia para tanto.

Quer dizer, a título de analogia, se "Up: Altas Aventuras" fosse uma realização da Maurício de Sousa Produções, a esposa de Carl, a Ellie, jamais teria morrido no início do longa animado.

E isso me leva a ideia por trás de Penadinho: Vida, a reencarnação de Alminha. A nova existência dela teria o efeito de uma "morte" para o personagem-título e [SPOILER] negá-la em seu clímax é como poupar a "Ellie" nos primórdios de Up, comprometendo, igualmente, a bela mensagem do livro. Isto é, que a vida nos oferta primeiras, segundas e, talvez, terceiras chances, mas elas, tais quais a Turma do Penadinho, não são eternas.

Não gostaria de cair na cilada de dizer qual é "a melhor" graphic, mas apenas dizer que o ideal ainda é o de Magnetar e Laços.

Abraço.