21/07/2015

Apenas um leve formigamento...


Não que eu esperasse que o semidesconhecido Homem-Formiga fosse repetir o fenômeno e os quase US$ 800 milhões de bilheteria dos igualmente semidesconhecidos Guardiões da Galáxia, mas me parece injusto que este seja o filme dos Marvel Studios com a segunda pior bilheteria de estreia. Pode-se alegar, com certo exagero, que ninguém conhece o Homem-Formiga, mas esta não seria uma boa razão. Afinal de contas, todo mundo conhece o Hulk, mas é do filme protagonizado por Edward Norton em 2008 a lanterninha financeira do estúdio (e Homem-Formiga é certamente melhor que O Incrível Hulk).

O fato é que a Marvel capricha em todos os seus filmes e este não foi uma exceção. Apesar das turbulências com o diretor inicialmente escalado e posteriormente demitido, Edgar Wright (de Scott Pilgrim Contra o Mundo), e da duvidosa escolha de Peyton Reed (um diretor de comédias do "porte" de Sim, Senhor e Abaixo o Amor) para o comando de uma produção de US$ 170 milhões (vejam só, este é o orçamento de um filme "modesto" e "arriscado", no padrão do estúdio), Homem-Formiga acaba revelando-se uma ótima surpresa.

O carisma do elenco é sua principal força. Paul Rudd está excelente como Scott Lang, talentoso e hesitante ladrão que, ao sair da cadeia, espera ser um bom exemplo para a filha levando uma vida honesta. Quando a vida mostra-se "madrasta" demais para um ex-presidiário, ele cede à oferta de seu ex-colega de cadeia Luis (um engraçado Michael Peña) para um assalto aparentemente fácil.

É durante o fiasco deste golpe que Scott conhecerá Hank Pym (Michael Douglas), o cientista que, nas HQs, é o primeiro Homem-Formiga e pertencia à formação original dos Vingadores. Pym espera que Scott recupere seu trabalho das mãos do inescrupuloso Darren Cross (Corey Stoll), que pretende vender os estudos de miniaturização de humanos para fins bélicos em larga escala.

Ao optar por um Hank Pym aposentado e por uma Janet Van Dyne (a Vespa) desaparecida, o filme permite a Scott Lang encontrar um previsível interesse amoroso na figura de Hope Van Dyne (Evangeline Lily), filha de Hank e Janet, além de hesitante (por motivos óbvios) segunda-em-comando de Darren Cross. 

Todas as cenas de encolhimento são excelentes e a ação é bem coreografada, apesar das dificuldades com a escala. Peyton Reed, quem diria, sai aprovado do teste com o cinema de ação. A coisa fica especialmente legal quando o Homem-Formiga tem seu primeiro contato com um Vingador, numa improvável e bem sacada briga. A leveza e a ausência de pretensão, porém, ao mesmo tempo em que beneficiam o filme junto ao público leigo, tornam-no uma experiência facilmente esquecível para os iniciados, ainda que bastante divertida enquanto dura.

Comparação clichê, mas válida, Homem-Formiga é uma peça pequena no panorama que se desenha no Universo Marvel do cinema, mas cumpre sua função. A esta altura, você já deve saber que o filme tem não uma, mas duas cenas pós-créditos, ambas relevantes, sendo que uma é o primeiro lampejo da Guerra Civil que chegará aos cinemas no ano que vem, no terceiro filme do Capitão América. Vejamos se Joe e Anthony Russo darão ao Homem-Formiga a visibilidade que ele quase sempre evita.

16/07/2015

Princesa Evadilce


Não se deve dizer certas coisas a uma mãe. Não pega nada bem, por exemplo, falar que ela não escolheu bem o nome que deu pra você. Se é uma mistura do nome dela com o do seu pai, então, criticar a "prova de amor" é praticamente impossível. Meu nome não é uma mistura dos nomes dos meus pais, mas é um desses mistérios da vida. O fato é que eu não gostava dele. Sempre tive medo de dizer isso à minha mãe, por receio de magoá-la. 

Sejamos honestos. Quem, em bom gozo das faculdades mentais, ostentaria com orgulho o nome Evadilce?

Mais estranho que meu nome, só mesmo a explicação que minha mãe adora dar aos curiosos, diante de nome tão, digamos, exótico.

- É nome de princesa. Não lembro de onde, mas lembro de ver na TV quando ela visitou o Brasil. Achei ela linda e achei o nome lindo, também. Não pensei duas vezes, minha filha ia ter nome de princesa! Evadilce Moura de Sá. Não é chique?

Lá se vão 30 anos desde que ganhei uma certidão de nascimento e, claro, nunca ouvi falar de uma princesa chamada Evadilce. Só se for princesa de baile de debutante, em alguma cidade minúscula, como aquela de onde minha mãe veio. Pouco letrada, deu a sorte de encontrar um homem da capital que não queria apenas curtir com as caboclas. Cá pra nós, meu pai, também, deu muita sorte de achá-la. Não demorou muito e se casaram, vivendo em uma bonita chácara nos limites da zona urbana, o que permitiu a ela manter-se razoavelmente afastada do que chamava de "as doidiça da cidade".

Não tem lá muita escolaridade, nem é a mais bem-informada das pessoas, mas tem sabedoria de sobra. Não perde o porte diante de madame, não. As mulheres dos colegas de meu pai aprenderam a respeitá-la, mas não antes de algum estranhamento inicial, quando, do canto onde brincava, eu às vezes percebia uma maldosa troca de sorrisos entre elas. Me chateava um pouco, mas passou, enfim. Mesma coisa com as filhas delas, muitas das quais são amigas minhas até hoje.

Essas meninas tinham todas nomes bem simples: Ângela, Sílvia, Renata, Viviane... Somente uma Zulmira, que estudou comigo até a faculdade, parecia companhia digna para o delírio onomástico de minha mãe - mas, convenhamos, em se tratando de estranheza, não chega aos pés de Evadilce. Daí que, desde muito cedo, eu quis ser apenas Eva. Só dizia o restante quando precisava dar meus dados completos.

Certo dia, durante uma visita, estava na internet com aquele belo notebook que praticamente só meu pai usava e, quando eu buscava algum vídeo no YouTube, minha mãe, que passava por trás de mim, parou e apontou para um link na tela.

- Filha, abre esse vídeo aqui. Acho que tô reconhecendo essa imagem.

Cliquei no vídeo, chamado "Realeza nos Trópicos (1984)". Imagem e som péssimos, mas lá estava a narradora falando da visita de uma princesa de alguma dessas pequenas nações europeias, tão irritantemente neutras que não rendem nem notícia, se acabando no samba e em outros micos a que gostamos de sujeitar os gringos importantes que se arriscam por aqui. Minha mãe interrompeu, "é essa reportagem, mesmo, passe logo lá pro finalzinho".

Avancei uns 20 segundos, quando a repórter, já em tom de despedida, narrou o desfecho que selou minha sorte.

- "...final da noite, tentando escapar do assédio da imprensa e dos curiosos, a princesa evadiu-se e não foi mais vista até o dia seguinte."

- Ahááá!, bradou minha mãe, vitoriosa. Bem que eu sempre te falei, tá vendo? "A princesa Evadilce não foi mais vista." Eu te disse, filha, sempre te disse. Você tem nome de princesa!

Incrédula com tamanha ingenuidade, tudo que fiz foi levantar e dar-lhe um abraço e um beijo, risadas e lágrimas, misturadas, aflorando em meus olhos. "Obrigada, mãe. É mesmo um nome lindo."

Ao fim do dia, me despedi e, na saída da chácara, o caseiro me saudou. "Até a próxima, dona Eva!", diz ele.

- Obrigada, seu Argeu. Ah, sim: é Evadilce, tá?

E voltei pra casa, orgulhosa de meu nome de princesa.