16/07/2015

Princesa Evadilce


Não se deve dizer certas coisas a uma mãe. Não pega nada bem, por exemplo, falar que ela não escolheu bem o nome que deu pra você. Se é uma mistura do nome dela com o do seu pai, então, criticar a "prova de amor" é praticamente impossível. Meu nome não é uma mistura dos nomes dos meus pais, mas é um desses mistérios da vida. O fato é que eu não gostava dele. Sempre tive medo de dizer isso à minha mãe, por receio de magoá-la. 

Sejamos honestos. Quem, em bom gozo das faculdades mentais, ostentaria com orgulho o nome Evadilce?

Mais estranho que meu nome, só mesmo a explicação que minha mãe adora dar aos curiosos, diante de nome tão, digamos, exótico.

- É nome de princesa. Não lembro de onde, mas lembro de ver na TV quando ela visitou o Brasil. Achei ela linda e achei o nome lindo, também. Não pensei duas vezes, minha filha ia ter nome de princesa! Evadilce Moura de Sá. Não é chique?

Lá se vão 30 anos desde que ganhei uma certidão de nascimento e, claro, nunca ouvi falar de uma princesa chamada Evadilce. Só se for princesa de baile de debutante, em alguma cidade minúscula, como aquela de onde minha mãe veio. Pouco letrada, deu a sorte de encontrar um homem da capital que não queria apenas curtir com as caboclas. Cá pra nós, meu pai, também, deu muita sorte de achá-la. Não demorou muito e se casaram, vivendo em uma bonita chácara nos limites da zona urbana, o que permitiu a ela manter-se razoavelmente afastada do que chamava de "as doidiça da cidade".

Não tem lá muita escolaridade, nem é a mais bem-informada das pessoas, mas tem sabedoria de sobra. Não perde o porte diante de madame, não. As mulheres dos colegas de meu pai aprenderam a respeitá-la, mas não antes de algum estranhamento inicial, quando, do canto onde brincava, eu às vezes percebia uma maldosa troca de sorrisos entre elas. Me chateava um pouco, mas passou, enfim. Mesma coisa com as filhas delas, muitas das quais são amigas minhas até hoje.

Essas meninas tinham todas nomes bem simples: Ângela, Sílvia, Renata, Viviane... Somente uma Zulmira, que estudou comigo até a faculdade, parecia companhia digna para o delírio onomástico de minha mãe - mas, convenhamos, em se tratando de estranheza, não chega aos pés de Evadilce. Daí que, desde muito cedo, eu quis ser apenas Eva. Só dizia o restante quando precisava dar meus dados completos.

Certo dia, durante uma visita, estava na internet com aquele belo notebook que praticamente só meu pai usava e, quando eu buscava algum vídeo no YouTube, minha mãe, que passava por trás de mim, parou e apontou para um link na tela.

- Filha, abre esse vídeo aqui. Acho que tô reconhecendo essa imagem.

Cliquei no vídeo, chamado "Realeza nos Trópicos (1984)". Imagem e som péssimos, mas lá estava a narradora falando da visita de uma princesa de alguma dessas pequenas nações europeias, tão irritantemente neutras que não rendem nem notícia, se acabando no samba e em outros micos a que gostamos de sujeitar os gringos importantes que se arriscam por aqui. Minha mãe interrompeu, "é essa reportagem, mesmo, passe logo lá pro finalzinho".

Avancei uns 20 segundos, quando a repórter, já em tom de despedida, narrou o desfecho que selou minha sorte.

- "...final da noite, tentando escapar do assédio da imprensa e dos curiosos, a princesa evadiu-se e não foi mais vista até o dia seguinte."

- Ahááá!, bradou minha mãe, vitoriosa. Bem que eu sempre te falei, tá vendo? "A princesa Evadilce não foi mais vista." Eu te disse, filha, sempre te disse. Você tem nome de princesa!

Incrédula com tamanha ingenuidade, tudo que fiz foi levantar e dar-lhe um abraço e um beijo, risadas e lágrimas, misturadas, aflorando em meus olhos. "Obrigada, mãe. É mesmo um nome lindo."

Ao fim do dia, me despedi e, na saída da chácara, o caseiro me saudou. "Até a próxima, dona Eva!", diz ele.

- Obrigada, seu Argeu. Ah, sim: é Evadilce, tá?

E voltei pra casa, orgulhosa de meu nome de princesa.

5 comentários:

Rafael Rosa disse...

Singelesa* e sensibilidade que falta a muitos. Evadilce de evadir é genial. Sim! Genial. Soa estranho por não atribuirmos a genialidade a "pessoas comuns"... Português bem dito, narrativa progressivamente envolvente. Enfim, pensei que Realeza nos trópicos de 1984, pairasse em algum megabyte do youtube - curioso pra ver se sua literatura era daquelas da alçada dos literatos do final do século XIX e início do XX, dos pesquisadores. Mas é do século XXI, igualmente boa, bem imaginada e bem narrada.

Vale ser os dois: escritor e batman. Continue!!
Um abraço.

Anônimo disse...

Ficou incrível. E não consegui conter o riso . Sempre passo para uma olhadinha.
Continue assim. Sucesso.

The Messiah disse...

Que legal, me diverti com a leitura, fiquei curioso pra ver o desfecho.. Que bom que a "Evadilce" achou a origem do seu nome e ficou em paz :D

Cheers ;)

Marlo de Sousa disse...

RAFAEL, seus elogios me fizeram sentir, por alguns instantes, os efeitos da gravidade zero. Tive que botar os pés no chão e lembrar que há muito feijão a comer, mas não nego que o afago fez bem ao meu ego. Obrigado pelas palavras.

ANÔNIMO, obrigado pela leitura e pelo apoio. Pode identificar-se, todo mundo aqui é joinha!

THE MESSIAH, my friend, a versão inicial deste texto tinha uma Evadilce quase agressiva em sua aversão ao nome. Quando eu percebi que ninguém ia torcer por alguém tão chata, comecei a trabalhar nos contornos que ela assumiu nessa publicação. Que você tenha gostado é prova de que acertei na decisão.

Abraços a todos!

Gerlande Diogo disse...

Muito bom Batman, bom mesmo. Um século depois consigo ler seu conto. Vc tem talento.