23/08/2015

Promoção: vai um bat-clássico aí?


Se o conteúdo do Catapop anterior a Maio deste ano não estivesse arquivado, você veria que ser leitor aqui tem suas vantagens. Ocasionalmente, este que vos escreve tem surtos de generosidade e recompensa o amor de seus leitores, sorteando belas HQs de presente.

Foi assim com a clássica Um Contrato com Deus, de Will Eisner; a tocante Os Leões de Bagdá, de Brian K. Vaughn e Niko Henrichon; o álbum gigante Batman: Guerra ao Crime, de Paul Dini e Alex Ross; e, por último, a lírica Daytripper, de Fábio Bá e Gabriel Moon. Os ganhadores eram de diferentes lugares do país: respectivamente, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia. Até igualdade de gênero acontece: os ganhadores foram duas moças e dois rapazes!

Ou seja, a coisa aqui acontece de verdade. Bote fé.

Desta vez, o presente é Batman: O Filho do Demônio (de Mike W. Barr e Jerry Bingham), uma graphic novel publicada pela primeira vez no Brasil em 1989, pela Editora Abril, como parte das comemorações dos então 50 anos da personagem. Em 2014, na celebração dos 75 anos do Morcego, a Panini Comics resgatou a HQ, em uma luxuosa edição de capa dura. Sim, é exatamente esta que você pode ganhar! :)

Concorrer é muito simples. Tudo que você tem a fazer é deixar suas opiniões AQUI, no Catapop. Cada comentário seu vale uma menção de seu nome no sorteio. Se você é meu contato no Facebook, Google+ ou Twitter (estou considerando estender ao Instagram, também), compartilhar meus links do Catapop valerá menção dupla; se você não é meu contato, não se preocupe, as postagens serão marcadas como públicas e eu verei seu compartilhamento. (Se não achá-los em minha timeline, faça um novo post e me marque).

Ou seja, um comentário e um compartilhamento já valem três chances pra você! Imagine se você se mantiver comentando e compartilhando regularmente, até o dia 10 de Novembro de 2015, aniversário de 10 anos do Catapop e data escolhida para o sorteio? Todas as postagens do blog estão abertas a comentários e compartilhamentos, válidos para sorteio a partir da data de hoje.

O ganhador da promoção terá o direito de, se assim o desejar, escrever sua própria resenha da HQ e tê-la publicada aqui, com os devidos créditos.

Esta promoção, infelizmente, não se estende a leitores que vivam fora do Brasil.

Todos entenderam? Então, a brincadeira começa AGORA! Go go go!  :)

Jukebox Encantada #1

Esta é a primeira de uma série de postagens sobre discos que considero fundamentais. Embora eu esteja abrindo a lista com um disco de rock de enorme sucesso, outros estilos e obras menos famosas terão vez por aqui. Divirta-se, comente e recomende.


R.E.M.
OUT OF TIME
(1991)

Teria sido mais fácil para mim escolher Automatic for the People (1992), o sublime disco que sucedeu a este; um álbum que costumo chamar de prova da existência dos deuses. Entretanto, há tempos eu já sentia que precisava fazer justiça a Out of Time. Ele foi um disco muito marcante em minha vida (e, ora pombas, na vida de meio mundo).

Fazia dois anos que o R.E.M. tinha deixado a gravadora independente I.R.S. para assinar, com a gigante Warner Music, um dos contratos mais polpudos da época (algo em torno de 10 milhões de dólares), que já havia rendido o bem-recebido Green (1989). Depois de anos de bons serviços à cena indie, a banda sentia que precisava de melhor distribuição para sua obra no exterior, coisa que só uma major, como a Warner, seria capaz de prover.

Out of Time foi a prova definitiva de que o negócio havia sido benéfico para ambos os lados. A Warner entrou não apenas com a grana, mas, também, com uma invejável garantia de liberdade criativa (diga-se, respeitada até o fim da banda, em 2012), enquanto o R.E.M. entregou à gravadora um disco absolutamente fluido, cujas inteligências musical e lírica não foram sacrificadas em nome do apelo pop das canções.

Abrindo o disco, estava "Radio Song", em que o vocalista Michael Stipe, com auxílio do rapper KRS-One (líder do Boogie Down Productions), bradava contra a banalidade musical em voga nas rádios. "O DJ é um otário!", diziam os dois. Nada mal para quem estava, basicamente, falando contra boa parte do catálogo dos próprios patrões. Apesar de ser a primeira faixa de Out of Time, "Radio Song" foi o quarto e último single extraído do álbum.

A segunda faixa foi o hit que catapultou o R.E.M. ao megaestrelato mundial. Com seu inconfundível riff de bandolim e marcação forte, "Losing My Religion" foi uma das músicas mais executadas de 1991 em praticamente todo o planeta e tornou-se, para sempre, uma das assinaturas da banda - para muita gente, foi a porta de entrada ao universo do quarteto de Athens (Georgia, EUA). O título é uma expressão corrente no sul dos Estados Unidos, que equivale a perder a esperança ou a paciência, ao que Stipe acrescia que a canção era sobre amor obsessivo, algo que a aproximava de, por exemplo, "Every Breath You Take", do The Police.

A atmosfera pop radiosa está presente em outros momentos do disco, como os singles "Near Wild Heaven" e "Shiny Happy People" (em que brilha o vocal cristalino da convidada Kate Pierson, do The B-52's, que volta para fechar o disco, em "Me in Honey"). O guitarrista Peter Buck parecia particularmente inspirado, embora, desde o princípio, a obra do grupo estivesse cheia de riffs memoráveis. A bateria precisa de Bill Berry silenciava para momentos mais introspectivos, como a grave e tortuosa "Low", em que o baixo de Mike Mills abria caminho para um rico arranjo de percussão, teclados Hammond e cordas.


Peter Buck, Michael Stipe, Bill Berry e Mike Mills.

Michael Stipe, por sinal, dava mostras de um amadurecimento vocal e lírico fora do comum, evoluindo dos temas obscuros e dos vocais balbuciados dos primeiros anos, para uma interpretação cristalina, sempre em primeiro plano, emprestando emoção e versatilidade a canções com ganchos perfeitos (e generosamente cedendo a vez a Mike Mills em "Texarkana").

Perto do fim, está a canção do R.E.M. preferida pelo vocalista, uma masterpiece altamente emocional em clima de road movie: "Country Feedback" não tinha sequer uma letra completa quando Stipe entrou no estúdio para gravá-la. Ele, simplesmente, chegou, deixou-se envolver pelo belíssimo arranjo folk noise e saiu-se com uma interpretação visceral, que chegou aos nossos ouvidos sem qualquer retoque. Uma autêntica lenda para o panteão do Rock & Roll que o R.E.M. habita tão dignamente.

Embora eu ainda goste mais do álbum posterior, devo admitir: Out of Time é um discaço e não envelhece. Trata-se de um daqueles momentos, cada vez mais raros, em que a Música Pop e a Grande Arte se encontraram e se amaram com total entrega. Não é pouca a esperança, minha e de muita gente, de que o R.E.M. desperte da autoimposta "hibernação" e presenteie a humanidade com mais discos assim.

R.E.M. - Out of Time
Lançamento: 12 de março de 1991
Produção: Scott Litt e R.E.M.

01 - "Radio Song"
02 - "Losing My Religion"
03 - "Low"
04 - "Near Wild Heaven"
05 - "Endgame"
06 - "Shiny Happy People"
07 - "Belong"
08 - "Half a World Away"
09 - "Texarkana"
10 - "Country Feedback"
11 - "Me in Honey"

12/08/2015

Cada cabeça, um mundo


Desde o fim da trilogia Matrix (1999/2003), os irmãos Lana e Andy Wachowski não conheciam um sucesso verdadeiro no cinema. O Destino de Júpiter (2015), Cloud Atlas (2012) e Speed Racer (2008) passaram longe dos resultados esperados porque a saga de Neo estabeleceu novos e altos padrões para o cinema de ficção científica (além de não serem, convenhamos, filmes muito satisfatórios). 

Diante dos sucessivos fracassos na tela grande, o caminho natural foi a migração para a televisão, ambiente que, hoje, exibe o que há de mais variado, inventivo e arriscado em dramaturgia - para surpresa e possível desgosto de muita gente que ainda tem na ponta da língua aquele velho discurso pronto sobre como a TV emburrece.

Sense8 é, enfim, a merecida redenção dos Wachowski e seu sucesso é o reconhecimento de um trabalho que reúne suas melhores qualidades: personagens cativantes, em ótimas discussões sócio-filosóficas e ação bem coreografada, com o bônus de uma sexualidade atrevida que explode diversos tabus, apagando de vez a lembrança daquela rave totalmente fake e supostamente sensual em Matrix Reloaded.

A ideia de duas ou mais mentes coabitando o mesmo corpo não é nova na cultura pop, englobando desde telepatas, que podem enxergar pelos olhos alheios, até personagens como o Nuclear, da Liga da Justiça. Sense8, entretanto, leva o conceito a extremos. Primeiro, pela quantidade de pessoas envolvidas: são oito indivíduos, de diferentes partes do mundo e desconhecidos entre si, que, subitamente, começam a partilhar, cada um, suas vidas e emoções com outros sete. Segundo, pelas ótimas sacadas nas demonstrações de "apropriação psíquica", que vão desde um tesão incontrolável em momentos impróprios, até situações em que as habilidades de alguma das sete outras pessoas em sua mente pode significar a diferença entre viver e morrer.


Por exemplo, é a habilidade de um deles ao volante que permite a fuga de outro, que não sabe dirigir. Quando um se vê ameaçado por uma gangue violenta, é o talento em artes marciais de outro que lhe salva a vida. Para ajudar àquele que tem nervos à flor-da-pele e não sabe fingir, entra em ação alguém que vive fingindo ser quem não é.

O fino de Sense8, por melhores que sejam as cenas de ação e por mais bacana que a trama central possa parecer, está na humanidade palpável de seus personagens e no carisma de seus adequados intérpretes. Em maior ou menor grau, os problemas enfrentados por Capheus (Aml Ameen), Kala (Tina Desai), Will (Brian J. Smith), Sun (Doona Bae), Wolfgang (Max Riemelt), Riley (Tuppence Middleton), Lito (Miguel Ángel Silvestre) e Nomi (Jamie Clayton) são familiares a cada um de nós e não estranhe se você se pegar pensando, "hey, é da minha vida que esse pessoal tá falando!" A pressão para honrar os desejos e o legado dos nossos pais, a inadequação e a rejeição por parte da sociedade, as dificuldades que nos levam a decisões estúpidas... Tudo em Sense8 é tão próximo de todo mundo e tão emocionalmente honesto, que é preciso ter um vácuo do lado esquerdo do peito para não sentir um mínimo de empatia e identificação.

O sexo acontece sem culpa, sem aviso e sem pudor - e, honestamente, não dá tempo erguer bloqueios, com quatro mulheres e quatro homens dividindo o mesmo cérebro. O negócio pega fogo em Sense8! Se você guarda muito pudor de certas coisas, melhor escolher outra série, porque esta é daquelas que, parafraseando Lulu Santos, consideram justa toda forma de amor. Desde a longa abertura, nota-se que o negócio da série é a promoção da diversidade - e não por panfletarismo (ou não apenas por isso), mas porque este é o mundo em que vivemos.

Apesar de esta primeira temporada ter servido para pouco além de apresentar os personagens, seus 12 episódios já deixaram uma porção de cenas e diálogos gravados nas mentes dos espectadores. Fiquei particularmente empolgado com o oitavo (com Lito e Wolfgang ajudando-se mutuamente) e o décimo (cuja longa cena final, em um concerto, é a coisa mais emocionante que vi em uma série de TV, em muito tempo). 

O sucesso tem sido tão avassalador, que só mesmo a "crueldade" de brincar com a ansiedade dos fãs, que praticamente exigem uma segunda temporada, justifica a demora em confirmar a produção de novos episódios, confirmados para o "distante" 2016. Novamente, como em 1999, Andy e Lana Wachowski estão mudando as regras do jogo e entregando um produto essencial, do qual o mundo apenas ainda não sabia que precisava. 

Por último, um pequeno serviço de utilidade pública: se é possível que alguém ainda não saiba, os 12 episódios da primeira temporada de Sense8 estão disponíveis na Netflix.

01/08/2015

Lições para guardar no coração


Mais do que simplesmente apresentar novas e interessantes visões sobre os personagens de Maurício de Sousa, a linha Graphic MSP cumpre um nobre propósito: o de tornar conhecidos pelo grande público talentosos artistas nacionais que, possivelmente, não ficariam tão populares sem a "grife Maurício" dando apoio. O projeto do editor Sidney Gusman é um sucesso imenso e todos os envolvidos (inclusive os leitores) agradecem.

Entre os oito álbuns já publicados na série, destacam-se os dois produzidos pelos irmãos Vitor e Lu Cafaggi. Embora todas as Graphic MSP sejam dignas de uma leitura atenta, os Cafaggi encontraram o mais preciso equilíbrio entre qualidade de texto e senso de entretenimento, aliados à belíssima arte a quatro mãos, que combina nostalgia, ternura e dinamismo. Foi assim naquele que era, até hoje, o melhor dos álbuns da série, Turma da Mônica: Laços (2013). A "magia" é repetida e amplificada neste novo e impecável volume, Turma da Mônica: Lições.

Em seu primeiro ano do ensino fundamental, Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali aprendem que as coisas, agora, são bem diferentes de como eram até a pré-escola. Dever de casa agora é coisa séria e o ponto de partida da história é justamente o dia em que os garotos esquecem de fazer um trabalho importante. Para escapar do "carão" da professora, Cebolinha convence os amigos a fugir da escola naquele dia. Durante a execução do plano, porém, um pequeno acidente desencadeia uma série de problemas e mudanças para a turminha. Falar aqui dos desdobramentos, por mais cuidado que se tome, seria dar spoilers, tamanha é a capacidade de surpreender do roteiro.

Basta saber que os garotos têm sua coragem, sua inteligência e sua amizade testadas, além do primeiro contato pra valer com a violência. Mesmo sem detalhes chocantes, as cenas de bullying devem fazer badalar alguns sinos na cabeça de quem já sofreu com a inexplicável agressividade de um colega de escola. Nos extras, os irmãos dizem que um dos valentões é inspirado em um famoso vilão da cultura pop, sem revelar quem. Eu aposto em Biff Tannen, o inimigo de Marty McFly na trilogia cinematográfica De Volta Para o Futuro.

Vitor e Lu Cafaggi (foto de Denilton Dias)


Se a arte dos irmãos é certeira e digna de aplausos, elogio igual pode ser feito aos ótimos diálogos da turma e às intervenções da diretora da escola e dos pais dos meninos. O pai de Cascão, por exemplo, protagoniza uma esperta piada visual, dessas que deixam a gente rindo por dentro um tempão depois.

Apesar de entremeada com discussões mais endereçadas a adultos que a crianças, Lições pode ser curtida pela gurizada sem qualquer temor. Entender que, apesar de toda a evolução social e das mudanças de costumes, a infância é uma fase com características em comum a qualquer geração, é um dos méritos do texto de Vitor e Lu. Os dramas da turma são vividos diariamente por crianças do país inteiro (inclusive decisões drásticas, tomadas por pais que optam pela solução mais rápida, mesmo não sendo a melhor). Falar à memória afetiva de crianças de todas as idades (sic) sempre foi um dos trunfos das criações de Maurício e os irmãos Cafaggi sabem ganhar neste jogo como poucos.

Seguindo neste rumo, com este patamar de qualidade, a Maurício de Sousa Produções pode firmar-se como uma espécie de "Pixar das HQs nos Trópicos": uma indústria com produtos capazes de entreter a gurizada e, ao mesmo tempo, amolecer o coração embrutecido dos adultos, com humor e inteligência acima da média. Adaptada em uma caprichada animação (digamos, pela própria Pixar), teria potencial para revolucionar o gênero e estourar a bilheteria em toda parte, exceto se o Ragnarok acontecesse antes.

Séria candidata a melhor HQ que li este ano, Turma da Mônica: Lições é um livro pra guardar num lugar caprichado da estante e exibir com orgulho. Pra quem gostou até aqui, trago três ótimas notícias sobre a linha Graphic MSP. A primeira é que novas edições estão a caminho, sendo as próximas protagonizadas pela Turma da Mata (Jotalhão, Coelho Caolho, Sr. Raposo...) e por Papa-Capim. A segunda é que uma terceira fornada de novos títulos já está programada para o ano que vem! A terceira é que a Panini Comics anunciou reimpressões das edições anteriores - olho nas livrarias!