12/08/2015

Cada cabeça, um mundo


Desde o fim da trilogia Matrix (1999/2003), os irmãos Lana e Andy Wachowski não conheciam um sucesso verdadeiro no cinema. O Destino de Júpiter (2015), Cloud Atlas (2012) e Speed Racer (2008) passaram longe dos resultados esperados porque a saga de Neo estabeleceu novos e altos padrões para o cinema de ficção científica (além de não serem, convenhamos, filmes muito satisfatórios). 

Diante dos sucessivos fracassos na tela grande, o caminho natural foi a migração para a televisão, ambiente que, hoje, exibe o que há de mais variado, inventivo e arriscado em dramaturgia - para surpresa e possível desgosto de muita gente que ainda tem na ponta da língua aquele velho discurso pronto sobre como a TV emburrece.

Sense8 é, enfim, a merecida redenção dos Wachowski e seu sucesso é o reconhecimento de um trabalho que reúne suas melhores qualidades: personagens cativantes, em ótimas discussões sócio-filosóficas e ação bem coreografada, com o bônus de uma sexualidade atrevida que explode diversos tabus, apagando de vez a lembrança daquela rave totalmente fake e supostamente sensual em Matrix Reloaded.

A ideia de duas ou mais mentes coabitando o mesmo corpo não é nova na cultura pop, englobando desde telepatas, que podem enxergar pelos olhos alheios, até personagens como o Nuclear, da Liga da Justiça. Sense8, entretanto, leva o conceito a extremos. Primeiro, pela quantidade de pessoas envolvidas: são oito indivíduos, de diferentes partes do mundo e desconhecidos entre si, que, subitamente, começam a partilhar, cada um, suas vidas e emoções com outros sete. Segundo, pelas ótimas sacadas nas demonstrações de "apropriação psíquica", que vão desde um tesão incontrolável em momentos impróprios, até situações em que as habilidades de alguma das sete outras pessoas em sua mente pode significar a diferença entre viver e morrer.


Por exemplo, é a habilidade de um deles ao volante que permite a fuga de outro, que não sabe dirigir. Quando um se vê ameaçado por uma gangue violenta, é o talento em artes marciais de outro que lhe salva a vida. Para ajudar àquele que tem nervos à flor-da-pele e não sabe fingir, entra em ação alguém que vive fingindo ser quem não é.

O fino de Sense8, por melhores que sejam as cenas de ação e por mais bacana que a trama central possa parecer, está na humanidade palpável de seus personagens e no carisma de seus adequados intérpretes. Em maior ou menor grau, os problemas enfrentados por Capheus (Aml Ameen), Kala (Tina Desai), Will (Brian J. Smith), Sun (Doona Bae), Wolfgang (Max Riemelt), Riley (Tuppence Middleton), Lito (Miguel Ángel Silvestre) e Nomi (Jamie Clayton) são familiares a cada um de nós e não estranhe se você se pegar pensando, "hey, é da minha vida que esse pessoal tá falando!" A pressão para honrar os desejos e o legado dos nossos pais, a inadequação e a rejeição por parte da sociedade, as dificuldades que nos levam a decisões estúpidas... Tudo em Sense8 é tão próximo de todo mundo e tão emocionalmente honesto, que é preciso ter um vácuo do lado esquerdo do peito para não sentir um mínimo de empatia e identificação.

O sexo acontece sem culpa, sem aviso e sem pudor - e, honestamente, não dá tempo erguer bloqueios, com quatro mulheres e quatro homens dividindo o mesmo cérebro. O negócio pega fogo em Sense8! Se você guarda muito pudor de certas coisas, melhor escolher outra série, porque esta é daquelas que, parafraseando Lulu Santos, consideram justa toda forma de amor. Desde a longa abertura, nota-se que o negócio da série é a promoção da diversidade - e não por panfletarismo (ou não apenas por isso), mas porque este é o mundo em que vivemos.

Apesar de esta primeira temporada ter servido para pouco além de apresentar os personagens, seus 12 episódios já deixaram uma porção de cenas e diálogos gravados nas mentes dos espectadores. Fiquei particularmente empolgado com o oitavo (com Lito e Wolfgang ajudando-se mutuamente) e o décimo (cuja longa cena final, em um concerto, é a coisa mais emocionante que vi em uma série de TV, em muito tempo). 

O sucesso tem sido tão avassalador, que só mesmo a "crueldade" de brincar com a ansiedade dos fãs, que praticamente exigem uma segunda temporada, justifica a demora em confirmar a produção de novos episódios, confirmados para o "distante" 2016. Novamente, como em 1999, Andy e Lana Wachowski estão mudando as regras do jogo e entregando um produto essencial, do qual o mundo apenas ainda não sabia que precisava. 

Por último, um pequeno serviço de utilidade pública: se é possível que alguém ainda não saiba, os 12 episódios da primeira temporada de Sense8 estão disponíveis na Netflix.

Um comentário:

Alexandre Melo disse...

Na real, o que gostava mesmo dos Wachowski é a série Animatrix e as histórias em quadrinhos derivadas. Mesmo na saga de Neo e tudo que veio depois, encontrava bons conceitos, ambição em trazê-los ao público. Nunca intragáveis, contudo fracassos colossais na materialização dos projetos.
(Exemplo: tal como fico puto da cara quando falo que gosto de Batman e me aparece quem lembra da série com Adam West e Burt Ward... é parecido quando falo de V de Vingança do Alan Moore e põem aquele estrume cinematográfico que os dois produziram)

Sense8 consagrou não só redenção dos manos, mas também resgatou um J. Michael Straczynski caído em tamanha desgraça, que pensei que só pacto com demônio pra mudar a cronologia pra virar o jogo.
E pra uma série que se vende como sci-fi, surpreende como esse contexto é minimizado. As "visitas" comunais dos sensates, suas interações, as frenéticas trocas de consciência nos momentos de tensão, a suruba mental do sexto episódio, culminando na citada cena do concerto do pai de Riley, no texto principal, mostraram uma concepção impressionante.

Deixo a dica pra quem assistiu pela NETFLIX. O site de streaming lançou programa com os bastidores da produção: https://www.netflix.com/br/title/80062064