23/08/2015

Jukebox Encantada #1

Esta é a primeira de uma série de postagens sobre discos que considero fundamentais. Embora eu esteja abrindo a lista com um disco de rock de enorme sucesso, outros estilos e obras menos famosas terão vez por aqui. Divirta-se, comente e recomende.


R.E.M.
OUT OF TIME
(1991)

Teria sido mais fácil para mim escolher Automatic for the People (1992), o sublime disco que sucedeu a este; um álbum que costumo chamar de prova da existência dos deuses. Entretanto, há tempos eu já sentia que precisava fazer justiça a Out of Time. Ele foi um disco muito marcante em minha vida (e, ora pombas, na vida de meio mundo).

Fazia dois anos que o R.E.M. tinha deixado a gravadora independente I.R.S. para assinar, com a gigante Warner Music, um dos contratos mais polpudos da época (algo em torno de 10 milhões de dólares), que já havia rendido o bem-recebido Green (1989). Depois de anos de bons serviços à cena indie, a banda sentia que precisava de melhor distribuição para sua obra no exterior, coisa que só uma major, como a Warner, seria capaz de prover.

Out of Time foi a prova definitiva de que o negócio havia sido benéfico para ambos os lados. A Warner entrou não apenas com a grana, mas, também, com uma invejável garantia de liberdade criativa (diga-se, respeitada até o fim da banda, em 2012), enquanto o R.E.M. entregou à gravadora um disco absolutamente fluido, cujas inteligências musical e lírica não foram sacrificadas em nome do apelo pop das canções.

Abrindo o disco, estava "Radio Song", em que o vocalista Michael Stipe, com auxílio do rapper KRS-One (líder do Boogie Down Productions), bradava contra a banalidade musical em voga nas rádios. "O DJ é um otário!", diziam os dois. Nada mal para quem estava, basicamente, falando contra boa parte do catálogo dos próprios patrões. Apesar de ser a primeira faixa de Out of Time, "Radio Song" foi o quarto e último single extraído do álbum.

A segunda faixa foi o hit que catapultou o R.E.M. ao megaestrelato mundial. Com seu inconfundível riff de bandolim e marcação forte, "Losing My Religion" foi uma das músicas mais executadas de 1991 em praticamente todo o planeta e tornou-se, para sempre, uma das assinaturas da banda - para muita gente, foi a porta de entrada ao universo do quarteto de Athens (Georgia, EUA). O título é uma expressão corrente no sul dos Estados Unidos, que equivale a perder a esperança ou a paciência, ao que Stipe acrescia que a canção era sobre amor obsessivo, algo que a aproximava de, por exemplo, "Every Breath You Take", do The Police.

A atmosfera pop radiosa está presente em outros momentos do disco, como os singles "Near Wild Heaven" e "Shiny Happy People" (em que brilha o vocal cristalino da convidada Kate Pierson, do The B-52's, que volta para fechar o disco, em "Me in Honey"). O guitarrista Peter Buck parecia particularmente inspirado, embora, desde o princípio, a obra do grupo estivesse cheia de riffs memoráveis. A bateria precisa de Bill Berry silenciava para momentos mais introspectivos, como a grave e tortuosa "Low", em que o baixo de Mike Mills abria caminho para um rico arranjo de percussão, teclados Hammond e cordas.


Peter Buck, Michael Stipe, Bill Berry e Mike Mills.

Michael Stipe, por sinal, dava mostras de um amadurecimento vocal e lírico fora do comum, evoluindo dos temas obscuros e dos vocais balbuciados dos primeiros anos, para uma interpretação cristalina, sempre em primeiro plano, emprestando emoção e versatilidade a canções com ganchos perfeitos (e generosamente cedendo a vez a Mike Mills em "Texarkana").

Perto do fim, está a canção do R.E.M. preferida pelo vocalista, uma masterpiece altamente emocional em clima de road movie: "Country Feedback" não tinha sequer uma letra completa quando Stipe entrou no estúdio para gravá-la. Ele, simplesmente, chegou, deixou-se envolver pelo belíssimo arranjo folk noise e saiu-se com uma interpretação visceral, que chegou aos nossos ouvidos sem qualquer retoque. Uma autêntica lenda para o panteão do Rock & Roll que o R.E.M. habita tão dignamente.

Embora eu ainda goste mais do álbum posterior, devo admitir: Out of Time é um discaço e não envelhece. Trata-se de um daqueles momentos, cada vez mais raros, em que a Música Pop e a Grande Arte se encontraram e se amaram com total entrega. Não é pouca a esperança, minha e de muita gente, de que o R.E.M. desperte da autoimposta "hibernação" e presenteie a humanidade com mais discos assim.

R.E.M. - Out of Time
Lançamento: 12 de março de 1991
Produção: Scott Litt e R.E.M.

01 - "Radio Song"
02 - "Losing My Religion"
03 - "Low"
04 - "Near Wild Heaven"
05 - "Endgame"
06 - "Shiny Happy People"
07 - "Belong"
08 - "Half a World Away"
09 - "Texarkana"
10 - "Country Feedback"
11 - "Me in Honey"

5 comentários:

Alexandre Melo disse...

Monster foi o terceiro CD que comprei por conta própria (os dois primeiros foram do U2). Dos meus álbuns favoritos de toda coleção, e não necessariamente no suporte físico, é New Adventures in Hi-Fi. Adoro repertório da despedida em Collapse Into Now, tal como descoberta posterior das gemas dos tempos indies. E como maioria das pessoas conheci o grupo por "Losing My Religion", que é atemporal

Acho que quero dizer que sabendo do abrangência e bom gosto do dono da bagaça, deve demorar pra bisar alguém da recém-inaugurada seção do CATAPOP!, mas se apostar num nome pra ser dos primeiros, foi de R.E.M.

Fabiano Belchior disse...

Belo texto, Marlo. Também prefiro o Automatic e o Adventures, falando de anos 90, mas é inegável a importância desse disco pro pop mundial. Só pó ter uma gema como Near Wild Heaven já mereceria todos os louros a que tem direito.

The Messiah disse...

Texto muito bonito e deu pra sentir sua paixão por ele. Nessa época eu era apenas uma criança, mas graças a Deus vim a conhece-lo alguns anos mais tarde. Disco que nunca envelhece e que sempre inspira. Que bela nostalgia. Já coloquei pra tocar aqui mais uma vez ;)
Depois faz uma revisão do cd novo do Vintage Trouble, 1 Hopeful Rd. Me apaixonei por ele.

Peace!

Alberto Silva disse...

Como sempre, comentários espetaculares, dando água na boca em escutar essa pérola. Já providenciando o Out of Time e o posterior para poder quando sair a resenha dele, já ter escutado as músicas, que já vi que tem Everybody Hurts e Man on the Moon! LLAP

Marlo de Sousa disse...

ALEXANDRE e FABIANO, vocês sabem que também tenho os quatro pneus arriados por "New Adventures in Hi-Fi". A dúvida, futuramente, será escolher entre ele e "Automatic for the People" para o bis do R.E.M. aqui na Jukebox Encantada.

THE MESSIAH, nunca é tarde pra começar a curtir boa música e espero que minhas dicas musicais sejam tão úteis quanto as de HQ, que te converteram num leitor ávido do gênero. Sobre o Vintage Trouble, aguarde um pouco mais, que pode rolar, sim.

ALBERTO, caríssimo, faz um ano que tento adicionar você no meu novo perfil do Facebook, mas não te encontro entre os muitos Alberto Silva sugeridos. É bom ver que você continua me dando a moral de ler meu blog (embora eu desconfie que o presente tenha sido o estímulo para sua volta aos comentários, hehehe!).

Abraços!