21/09/2015

No meio do caminho tinha uma Muralha.

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Vou direto ao ponto: esta é minha primeira grande decepção com a linha Graphic MSP. Até então, mesmo as edições menos legais eram dignas de um voto de confiança, de um olhar mais complacente. Isso acaba aqui.

A "gestação" de Turma da Mata: Muralha foi complicada desde o princípio. O artista inicialmente escalado, Greg Tocchini (artista de fase elogiada de Thor), alegou compromissos prolongados, assumidos anteriormente, e cedeu a vaga para Roger Cruz (X-Men). Para mim, isso já significou, de cara, uma ameaça à qualidade visual da obra, mas, otimista que sou, apostei que ainda poderia me surpreender positivamente.

A esperança foi mantida até o último minuto. Os previews, divulgados em diversas fontes, davam conta de uma história com altos teores de aventura. "Um lance meio Robin Hood", teria dito alguém, ideia que comprei e revendi aos amigos leitores mais descrentes, que já falavam em deixar essa edição passar.

A verdade nua e crua, porém, é que muito pouco se salva em Muralha. Centrada na carismática figura de Jotalhão, a história é um amontoado de clichês que sufocam o leitor com aquela sensação de "já vi isso antes e foi melhor daquela vez."

Exceto pelo elefante verde, os demais personagens estão indistintamente antipáticos. As boas intenções (denúncia de bullying, crítica social e política) do argumento de Artur Fujita morrem na praia e, para piorar, a história não tem comicidade alguma. Ao contrário: com tantas brigas e situações temerárias (como um filhote do Coelho Caolho se machucando feio e quase morrendo afogado), o gibi acaba sendo pouco recomendado à criançada.

A troca de Tocchini por Cruz resultou, conforme eu previa, em uma total perda de refinamento e sutileza visual. O único personagem ao qual ele parece dedicar um pouco mais de capricho é, de novo, Jotalhão. É flagrante a preguiça do traço em tudo ao seu redor. A paleta de cores de Davi Calil ajuda a minimizar o desastre, em que pese a opção por opressivos tons de vermelho e marrom em diversas passagens.

Por mais empolgado que Maurício de Sousa queira parecer na tradicional introdução, prefiro acreditar que a aposta dele no sucesso de Turma da Mata: Muralha é mais uma questão de não renegar sua prole do que de enxergar, verdadeiramente, supostos atributos que a qualifiquem como companhia digna de algumas pequenas obras-primas da série, como Turma da Mônica: Lições e Bidu: Caminhos. Não é o primeiro tropeço da coleção, mas é a primeira queda feia, com direito a escoriações. Tremenda muralha a ser transposta para recuperar a credibilidade.

12/09/2015

Gênese e Apocalipse

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Exceto por umas besteiras periféricas, o Batman não havia sido muito afetado pelo evento Os Novos 52. Robins demais em tempo de menos, Bárbara Gordon fora da cadeira de rodas... Geralmente, o problema estava nas pessoas que o cercavam. Até que, em 2013, Scott Snyder e Greg Capullo entregaram o longo e intrincado Ano Zero, redefinindo a origem do Homem-Morcego para os novos tempos.

Epa, pera lá! Quer dizer que a DC Comics jogou uma pá de terra sobre o cultuado e impoluto Batman: Ano Um (1987), de Frank Miller e David Mazzuchelli? Bem que eu tentei (e muita gente deve ter tentado) todo tipo de ginástica mental pra fazer as duas histórias conviverem em harmonia, mas, infelizmente, não teve jeito. O Ano Um está morto. Vida longa ao Ano Zero (que, verdade seja dita, é uma saga sensacional).


Para os leitores, especialmente aqueles de longa data, isto só aumenta a importância de que a obra de Miller e Mazzuchelli tenha ganhado, em 2011, uma adaptação animada tão caprichada. Apenas pela presença do nome de Bruce W. Timm (produtor da consagrada série animada de 1992) nos créditos, já seria de se esperar que Batman: Ano Um possuísse dignidade acima da média. Para deleite dos fãs, especialmente dos mais puristas, o desenho é uma versão praticamente literal da ex-origem definitiva do Homem-Morcego.

A atmosfera neo-noir da HQ está perfeitamente traduzida, em fotogramas que reproduzem cores e enquadramentos do traço de David Mazzuchelli. A trama mostra, em detalhes, o retorno do jovem milionário Bruce Wayne, após passar quase uma década preparando corpo e espírito para sua missão de combate ao crime. Ao mesmo tempo, chega na cidade o então tenente James Gordon, trazendo consigo a esposa grávida e uma honestidade que não demora a incomodar o corrupto Departamento de Polícia de Gotham City.


Está tudo como deveria. No front de Gordon, o antagonismo com o perigoso detetive Flass, seu flerte com Sarah Essen, as surras que leva e retribui. De Bruce, vemos a primeira e malsucedida ronda, o primeiro encontro com a futura Mulher-Gato e o momento em que recebe a inspiração para despertar o terror no coração dos bandidos (embora este momento, confesso, tenha ficado um pouco aquém da minha expectativa). Momentos icônicos, que jamais foram ou serão esquecidos por quem leu esta obra-prima fluida e de invejável simplicidade.


Além da gênese do Batman, a DC/Warner esmerou-se, também, na transposição dos possíveis derradeiros dias do personagem. Lançada um ano antes de Ano Um, escrita e ilustrada pelo mesmo Frank Miller, Batman: O Cavaleiro das Trevas mostra um possível futuro em que Bruce Wayne, aos 55 anos, se vê forçado a deixar a aposentadoria, por causa da escalada da violência em Gotham. Com seu retorno, velhos inimigos e aliados também ressurgem.

Dos Mutantes, a gangue (na verdade, um pequeno exército) que aterroriza Gotham, Batman tem a chance de impor-se mais uma vez como a figura mais temida nas ruas. Do Superman (no ufanismo ultraconservador da era Ronald Reagan, com a Guerra Fria a galope), um conflito ideológico que descamba para a violência física (você deve saber que foi daqui que surgiu a ideia da armadura que Ben Affleck usará para dar um cacete em Henry Cavill, em Batman vs. Superman - A Origem da Justiça, né?). Do Coringa, o que se tem é o que se espera: caos e violência gratuita (o que desaconselha totalmente o filme para crianças). 


A ótima direção dos desenhos, lançados entre 2012 e 2013, é de Jay Oliva, artista de storyboards de várias outras animações da DC/Warner. Novamente, o estúdio respeitou a obra original e não a maculou com novidades indesejadas. Combinadas, as duas partes de Batman: O Cavaleiro das Trevas formam uma respeitável sessão da tarde de 2h30 de duração. Ainda que não seja exatamente o Apocalipse do Batman (Miller escreveu a discutível O Cavaleiro das Trevas 2 em 2003 e volta para uma terceira série em novembro próximo), a história tem um tom de despedida esperançoso e adequado.

De minha parte, a torcida é para que a DC/Warner aprenda algumas lições destas e de suas outras ótimas animações, percebendo que não é preciso ficar inventando demais, quando a matéria-prima é tão rica. Que os filmes prometidos até 2020 sejam a esperada entrada nos trilhos do cânone cinematográfico da DC, porque, na TV e no home video, ela reina já faz tempo.