23/10/2015

Antes do último adeus.

Comente e concorra a BATMAN: O FILHO DO DEMÔNIO! Sorteio em 10/11/2015. 


Imagine como deve ser difícil manter acesa a "velha chama" de um casamento por 13 anos. Imagine ter que sempre inventar alguma coisa pra evitar que a vida a dois caia na rotina. Imagine a criatividade necessária para que, mesmo após anos, sempre aconteça ao casal alguma coisa que os faça lembrar do sentimento que os uniu pela primeira vez.

Após 13 anos, o casamento de Fábulas com seus leitores chegou ao fim, nos EUA, em julho passado, quando o número 150 encerrou a história da longeva e premiada série. As 150 páginas da edição comemorativa são tudo que ainda falta ser publicado pela Panini Comics, aqui, no Brasil. Este penúltimo encadernado, Felizes Para Sempre, já tem inegáveis ares de despedida, com personagens importantes e coadjuvantes encontrando seu destino final. A ocasião, porém, nada tem de melancólica: como descrito no primeiro parágrafo, este 21º volume é um longo e lindo lembrete de todas as razões por que amamos Fábulas tanto e por tanto tempo.

Mesmo em suas edições menos espetaculares, como o volume 13 (O Grande Encontro) ou o 16 (Superequipe), Fábulas ainda conseguiu sustentar um patamar de qualidade, no mínimo, razoável. Espero que, no futuro, os livros de História se refiram a Bill Willingham como um escritor ainda mais digno do status de clássico do que Esopo, Hans Christian Andersen ou Os Irmãos Grimm. Pode parecer fácil elaborar sobre criações alheias, mas nada poderia estar mais longe da verdade: é preciso ter bolas de aço pra desafiar a visão engessada que permeia a memória de quem leu ou ouviu na infância as histórias desses personagens.

Isso sem falar da inacreditável sequência de surpresas engendradas por Willingham, com a constante cumplicidade do artista Mark Buckingham. As soluções pouco óbvias encontradas pelo roteirista deixam a gente de boca aberta a cada edição, além de ele permitir que todos os personagens, inclusive aqueles aparentemente desimportantes, tenham seu momento de brilho. Algumas edições, como os volumes 6 (Terras Natais), 10 (O Bom Príncipe) e 15 (Rosa Vermelha) seguramente estão entre as melhores HQs que já li.

Em Felizes Para Sempre, a forte rivalidade entre as irmãs Branca de Neve e Rosa Vermelha ganha uma explicação, tornando inevitável um embate que já se prenuncia há algum tempo. Desde o encadernado anterior, Camelot, Rosa esteve montando sua versão particular da Távola Redonda, mas assuntos mais urgentes requerem sua atenção: o ameaçador ressurgimento de Bigby Lobo e a descoberta de uma traidora entre as fábulas. Entre os capítulos da trama principal, histórias curtinhas mostram a última participação de alguns personagens, com destaque para o divertido destino final dos Três Ratinhos Cegos (nas últimas páginas, a derradeira aventura de Bela Adormecida me fez soltar um palavrão, porque, você lerá, ninguém poderia prever algo simultaneamente tão simples e tão sensacional).

Existe uma espécie de consenso informal de que Sandman seja a melhor série da Vertigo Comics. Longe de questionar tal afirmação, acrescento apenas que o fato de Fábulas manter-se tão boa, pelo dobro do tempo, a torna igualmente merecedora do status. Vê-la acabar é lamentável, sim, e já antecipo saudades. Que ela esteja chegando a um fim tão triunfantemente digno, porém, é um tremendo conforto. Em breve, após o lançamento do último número, aguarda-me a agradável missão de reler estas histórias maravilhosas diversas vezes e, assim, ser feliz para sempre.

03/10/2015

Jukebox Encantada #2

Comente e concorra a BATMAN: O FILHO DO DEMÔNIO! Sorteio em 10/11/2015. 


U2
THE JOSHUA TREE
(1987)

Em 1987, eu já conhecia o U2 havia cerca de dois anos, mas nunca tinha ouvido a banda. Explico: eles estavam presentes na primeira edição da extinta revista Bizz que comprei (a edição 4, com um poster da banda) e em várias das seguintes. Foi necessário que uma de suas músicas caísse na trilha sonora de uma novela da época, Mandala, para que eu pudesse ouvi-los.

A música em questão, "With or Without You", provocava animadas discussões entre mim, meu irmão Malcon e um antigo funcionário da agência do Banco do Brasil em Ibotirama, Sérgio, que almoçava regularmente em nosso restaurante. Familiarizado com a música dos irlandeses, foi Sérgio quem chamou nossa atenção para o fraseado em delay da guitarra de The Edge como a característica definidora do som do U2.

Não demorou muito e The Joshua Tree estava em nossa coleção de vinis. Mesmo guardando muitas diferenças em relação ao som dos discos anteriores (coisa que eu só descobriria algum tempo depois), não poderíamos ter escolhido melhor porta de entrada ao universo de Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton.

Quatro anos antes, o U2 havia conquistado a América com o disco War e um consagrador show no anfiteatro de Red Rocks (registrado no CD/DVD Under a Blood Red Sky). No disco seguinte, The Unforgettable Fire (1984), o U2 já dava mostras de que queria polir seu som e ganhar o mundo com a ajuda de ícones americanos. Elvis Presley e Martin Luther King foram figuras centrais do álbum, em canções como a indefectível "Pride (In the Name of Love)". Contudo, apesar da presença desta e de outras boas faixas, como "Bad" e "A Sort of Homecoming" - e do triunfo que foi a participação no Live Aid, em 1985 - The Unforgettable Fire era um disco muito irregular e não era com ele que o U2 conquistaria o mundo.

O passo final para o megaestrelato exigiria um generoso e, para alguns, desajeitado abraço na cultura norte-americana, do som ao visual. The Joshua Tree foi a primeira expedição do U2 à cultura de raiz dos Estados Unidos, especialmente o blues. A produção ficou a cargo do mesmo Brian Eno (Roxy Music) do disco anterior, mas, desta vez, seus característicos climões ambient estariam a serviço de um repertório muito superior.

A lenta introdução de teclados e a longa repetição do belo e inconfundível riff disfarçavam o galope que tomaria conta de "Where the Streets Have No Name", uma faixa tão triunfante e contagiante que jamais deixaria o repertório da banda, ao contrário de outros clássicos da época. Feita pra explodir em emoção nos grandes estádios em que a banda planejava tocar, a música cumpria seu propósito com perfeição: o ouvinte era implacavelmente fisgado e não podia mais parar. Não havia escapatória.

O U2 em 1987: Larry Mullen Jr., Bono, Adam Clayton e The Edge.

A vocação gospel de "I Still Haven't Found What I'm Looking For" seria comprovada com as versões acompanhadas por um coral, registrada no filme e disco Rattle and Hum (1988). Na faixa de estúdio, a bateria de Larry e o baixo de Adam conferiam uma forte pulsação à compungida letra (nota mental de professor: não deve existir canção melhor para ensinar Present Perfect). Fechando a trinca dourada de abertura do álbum, a impoluta "With or Without You" lá do segundo parágrafo, 4 minutos e 55 segundos de perfeito equilíbrio entre a pretensão rocker desejada pelos fãs, a emoção esperada em uma boa canção de amor e o apelo radiofônico que garantiria a conquista do universo.

A furiosa "Bullet the Blue Sky" reafirmava a vocação de Bono para o discurso político. Em meio a diversas metáforas bíblicas, ele estava criticando as intervencionismo militar dos EUA. Guitarra nas alturas, bateria seca, a canção acabou ganhando, em turnês posteriores, um solo mais elaborado e mais veloz. "Running to Stand Still", com sua calmaria dolorida, fala de amigos que Bono perdeu para a heroína.

O passeio bluesy prossegue na imensa beleza de "Red Hill Mining Town", denúncia das agressões à natureza e à saúde causadas pela mineração de carvão. Uma das melhores interpretações de Bono e uma das poucas faixas que têm lugar permanente no meu sempre mutante Top 10 particular da banda. Não enxergar muito sentido na letra de "In God's Country" não me impediu de gostar dela, curtinha e acelerada que era. "Trip Through Your Wires" era o momento mais ortodoxamente blues do disco, beneficiando-se de uma letra muito inspirada e das intervenções da gaita de Bono.

As três faixas finais ostentavam a seriedade engajada que definia o U2 naqueles tempos. "One Tree Hill" foi escrita em homenagem a um roadie da banda, de origem maori (daí os sons havaianos presentes), morto em um acidente, e ao escritor e ativista Victor Jara, morto em 1973, durante o regime totalitário do Chile. "Exit" é um tenso rock que narra um crime passional, cuja suposta influência foi usada como defesa em um processo por assassinato. A pungente "Mothers of the Disappeared" fecha o álbum com uma sombria e sentimental homenagem às mães da Plaza de Mayo, cujos filhos desapareceram nos piores anos da ditadura na Argentina.

Quando se fala em disco fundamental, a crítica é quase unânime: Achtung Baby (1991). The Joshua Tree, contudo, pode ser entendido como o álbum em que aquele U2 "mais puro", do terço inicial de sua agora longeva carreira, atingiu o ápice de suas capacidades e ambições.  Dali em diante, era a reinvenção ou a irrelevância. Entender que, apesar do curto prolongamento da experiência em Rattle and Hum, o U2 não se acomodou no conforto das glórias conquistadas, dá um valor ainda maior ao salto no penhasco do improvável que foi Achtung Baby. Por outro lado, igualmente, reforça o status de The Joshua Tree como o sólido chão sobre o qual a revolução do U2 foi construída.

PS: a edição atualmente à venda no Brasil é uma redução da luxuosa edição remasterizada (e limitada) de 20 anos, com um encarte muito mais bonito e a capa restaurada à sua beleza original, em lugar daquela pavorosa adulteração.

U2 - The Joshua Tree
Lançamento: 9 de março de 1987.
Produção: Brian Eno e Daniel Lanois.

01 - "Where the Streets Have No Name"
02 - "I Still Haven't Found What I'm Looking For"
03 - "With or Without You"
04 - "Bullet the Blue Sky"
05 - "Running to Stand Still"
06 - "Red Hill Mining Town"
07 - "In God's Country"
08 - "Trip Through Your Wires"
09 - "One Tree Hill"
10 - "Exit"
11 - "Mothers of the Disappeared"