03/10/2015

Jukebox Encantada #2

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U2
THE JOSHUA TREE
(1987)

Em 1987, eu já conhecia o U2 havia cerca de dois anos, mas nunca tinha ouvido a banda. Explico: eles estavam presentes na primeira edição da extinta revista Bizz que comprei (a edição 4, com um poster da banda) e em várias das seguintes. Foi necessário que uma de suas músicas caísse na trilha sonora de uma novela da época, Mandala, para que eu pudesse ouvi-los.

A música em questão, "With or Without You", provocava animadas discussões entre mim, meu irmão Malcon e um antigo funcionário da agência do Banco do Brasil em Ibotirama, Sérgio, que almoçava regularmente em nosso restaurante. Familiarizado com a música dos irlandeses, foi Sérgio quem chamou nossa atenção para o fraseado em delay da guitarra de The Edge como a característica definidora do som do U2.

Não demorou muito e The Joshua Tree estava em nossa coleção de vinis. Mesmo guardando muitas diferenças em relação ao som dos discos anteriores (coisa que eu só descobriria algum tempo depois), não poderíamos ter escolhido melhor porta de entrada ao universo de Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton.

Quatro anos antes, o U2 havia conquistado a América com o disco War e um consagrador show no anfiteatro de Red Rocks (registrado no CD/DVD Under a Blood Red Sky). No disco seguinte, The Unforgettable Fire (1984), o U2 já dava mostras de que queria polir seu som e ganhar o mundo com a ajuda de ícones americanos. Elvis Presley e Martin Luther King foram figuras centrais do álbum, em canções como a indefectível "Pride (In the Name of Love)". Contudo, apesar da presença desta e de outras boas faixas, como "Bad" e "A Sort of Homecoming" - e do triunfo que foi a participação no Live Aid, em 1985 - The Unforgettable Fire era um disco muito irregular e não era com ele que o U2 conquistaria o mundo.

O passo final para o megaestrelato exigiria um generoso e, para alguns, desajeitado abraço na cultura norte-americana, do som ao visual. The Joshua Tree foi a primeira expedição do U2 à cultura de raiz dos Estados Unidos, especialmente o blues. A produção ficou a cargo do mesmo Brian Eno (Roxy Music) do disco anterior, mas, desta vez, seus característicos climões ambient estariam a serviço de um repertório muito superior.

A lenta introdução de teclados e a longa repetição do belo e inconfundível riff disfarçavam o galope que tomaria conta de "Where the Streets Have No Name", uma faixa tão triunfante e contagiante que jamais deixaria o repertório da banda, ao contrário de outros clássicos da época. Feita pra explodir em emoção nos grandes estádios em que a banda planejava tocar, a música cumpria seu propósito com perfeição: o ouvinte era implacavelmente fisgado e não podia mais parar. Não havia escapatória.

O U2 em 1987: Larry Mullen Jr., Bono, Adam Clayton e The Edge.

A vocação gospel de "I Still Haven't Found What I'm Looking For" seria comprovada com as versões acompanhadas por um coral, registrada no filme e disco Rattle and Hum (1988). Na faixa de estúdio, a bateria de Larry e o baixo de Adam conferiam uma forte pulsação à compungida letra (nota mental de professor: não deve existir canção melhor para ensinar Present Perfect). Fechando a trinca dourada de abertura do álbum, a impoluta "With or Without You" lá do segundo parágrafo, 4 minutos e 55 segundos de perfeito equilíbrio entre a pretensão rocker desejada pelos fãs, a emoção esperada em uma boa canção de amor e o apelo radiofônico que garantiria a conquista do universo.

A furiosa "Bullet the Blue Sky" reafirmava a vocação de Bono para o discurso político. Em meio a diversas metáforas bíblicas, ele estava criticando as intervencionismo militar dos EUA. Guitarra nas alturas, bateria seca, a canção acabou ganhando, em turnês posteriores, um solo mais elaborado e mais veloz. "Running to Stand Still", com sua calmaria dolorida, fala de amigos que Bono perdeu para a heroína.

O passeio bluesy prossegue na imensa beleza de "Red Hill Mining Town", denúncia das agressões à natureza e à saúde causadas pela mineração de carvão. Uma das melhores interpretações de Bono e uma das poucas faixas que têm lugar permanente no meu sempre mutante Top 10 particular da banda. Não enxergar muito sentido na letra de "In God's Country" não me impediu de gostar dela, curtinha e acelerada que era. "Trip Through Your Wires" era o momento mais ortodoxamente blues do disco, beneficiando-se de uma letra muito inspirada e das intervenções da gaita de Bono.

As três faixas finais ostentavam a seriedade engajada que definia o U2 naqueles tempos. "One Tree Hill" foi escrita em homenagem a um roadie da banda, de origem maori (daí os sons havaianos presentes), morto em um acidente, e ao escritor e ativista Victor Jara, morto em 1973, durante o regime totalitário do Chile. "Exit" é um tenso rock que narra um crime passional, cuja suposta influência foi usada como defesa em um processo por assassinato. A pungente "Mothers of the Disappeared" fecha o álbum com uma sombria e sentimental homenagem às mães da Plaza de Mayo, cujos filhos desapareceram nos piores anos da ditadura na Argentina.

Quando se fala em disco fundamental, a crítica é quase unânime: Achtung Baby (1991). The Joshua Tree, contudo, pode ser entendido como o álbum em que aquele U2 "mais puro", do terço inicial de sua agora longeva carreira, atingiu o ápice de suas capacidades e ambições.  Dali em diante, era a reinvenção ou a irrelevância. Entender que, apesar do curto prolongamento da experiência em Rattle and Hum, o U2 não se acomodou no conforto das glórias conquistadas, dá um valor ainda maior ao salto no penhasco do improvável que foi Achtung Baby. Por outro lado, igualmente, reforça o status de The Joshua Tree como o sólido chão sobre o qual a revolução do U2 foi construída.

PS: a edição atualmente à venda no Brasil é uma redução da luxuosa edição remasterizada (e limitada) de 20 anos, com um encarte muito mais bonito e a capa restaurada à sua beleza original, em lugar daquela pavorosa adulteração.

U2 - The Joshua Tree
Lançamento: 9 de março de 1987.
Produção: Brian Eno e Daniel Lanois.

01 - "Where the Streets Have No Name"
02 - "I Still Haven't Found What I'm Looking For"
03 - "With or Without You"
04 - "Bullet the Blue Sky"
05 - "Running to Stand Still"
06 - "Red Hill Mining Town"
07 - "In God's Country"
08 - "Trip Through Your Wires"
09 - "One Tree Hill"
10 - "Exit"
11 - "Mothers of the Disappeared"

5 comentários:

Alexandre Melo disse...

Sou da ala hipster de fãs do U2, meu favorito segue intocável Achtung Baby!, mas não dentro da subdivisão pernósticos daqueles que não apreciam a guinada americana do grupo. Guardada as devidas proporções e aproveitando raciocínio do final do texto, tal como na invasão beatlemaníaca vinte anos atrás, enfim consagradas, as bandas se desafiaram a ousar e pisaram fundo na experimentação, e por isso avaliando numa perspectiva mais larga, o deleite com que aprecio discos como Revolver dos ingleses, ou projeto Passangers para os irlandeses aumenta nas reaudições.
Tem bons anos que não boto pra rodar o cd do Joshua Tree no som da casa. Acho que tem muito a ver que não só mais o jovem ambicioso e meio prepotente de quando o descobri ainda como fita k7. Entretanto é bom lembrar daquele cara do passado; como me fez bem lembrar dessa inquietação e gana que fez do U2 a maior banda do mundo, e eles permanecem no posto pelos fraldinhas hoje estarem deficitários de sentimentos assim.

Caesius Maximus disse...

Interessante notar que With or without you, para minha tristeza, não levou o posto de música "dor de cotovelo" dos 80's - que ficou com a belíssima Every breath you take, do The Police (segundo uma publicação especializada em música que não me recordo, agora).
Independentemente disso, U2 já era banda obrigatória em festinhas de garagem quando eu estava na sexta série.

Enfim, esse disco traz uma carga emocional enorme pela época vivida, quando de seu lançamento, tendo conquistado seu espaço em qualquer discoteca básica de rock.

E parabéns pelo texto, guri! Se redimiu daquele sobre Out of time... Hehehe...

Gerlande Diogo disse...

Um álbum clássico, essencial. Bos tempos esses... A capa agora tá massa, já aquela adulterada, nojo! Discão com D maiúsculo!

Do Vale disse...

Não sou muito conhecedor do U2, as escutas sempre ficaram ali pelos singles e shows, mas quando peguei um disco inteiro pra ouvir foi o The Joshua Tree. NA MINHA HUMILDE OPINIÃO, é o primeiro da discografia da banda que não soa datado (claro que posso tá falando besteira)... Daqueles poucos álbuns que, ao mesmo tempo que pega o espírito de uma época e de uma banda, pode ser ouvido por gerações seguintes e ainda se mostra relevante.

Marlo de Sousa disse...

ALEXANDRE, meu preferido também continua sendo Achtung Baby, mas recomendo nova audição de The Joshua Tree, se é que ainda não aconteceu. Ainda rola redondinho, pode crer.

CAESIUS MAXIMUS, muito interessante a sua observação sobre a música do The Police. E que bom que saí do que você julgava ser o "piloto automático" e entreguei o texto orgânico que você queria! :)

GERLANDE, vários discos tiveram a capa porcamente adaptada do LP para o CD, mas essa do U2 foi uma das campeãs em prejuízo visual.

DO VALE, acho que, como você, muita gente que não tem o U2 entre seus favoritos tem boa vontade com este disco, exatamente porque ele é bastante fácil de se gostar e sobreviveu bem ao teste do tempo.

Abraços a todos!