30/11/2015

Sobre agregar valor (e poder)


O sucesso das adaptações Marvel no cinema não havia influenciado minha lista de compras. Faz anos que não acompanho um título mensal da editora. Até penso em dar uma chance à All New, All Different Marvel Now (seja lá que nome a fase ganhe em português - e já fico preocupado com o tamanho do nome original da próxima).

Mas eis que a Panini Comics começou a encadernar a primeira leva da Marvel NOW! (aqui, Nova Marvel), publicada em 2013, e eu já adquiri dois títulos: Thor - O Carniceiro dos Deuses e este Os Vingadores - Mundo de Vingadores.

Escritas por Jonathan Hickman e desenhadas por Jerome Opeña (1-3) e Adam Kubert (4-6), as seis histórias deste volume trazem uma equipe "revista e ampliada" em relação à formação vista no cinema (manter o sexteto original é, claro, uma decisão esperta da Marvel, visando ao leitor que se interessou pelos quadrinhos a partir dos filmes).

Por sugestão do Homem de Ferro, os heróis mais poderosos da Terra decidem ampliar suas fileiras numa escala nunca vista antes, recrutando vários novos membros (entre velhos conhecidos e estreantes), que entrarão em ação conforme a necessidade. A agremiação de incrível poder inclui gente como Wolverine, Hipérion, Miss Marvel e  os mutantes Míssil e Mancha Solar.

E não é à toa que tal time se reúne: em Marte, duas entidades disputam a primazia pelo direito a intervir na Terra. O robô de extermínio Aleph, criado pelos primeiros seres vivos do universo, deseja cumprir sua programação e eliminar nossa espécie devido a nossas inúmeras imperfeições. Já o semideus alienígena Ex Nihilo tem planos de salvar a raça humana para "reescrevê-la" melhor.

É possível, mesmo para o leitor neófito, como eu, entender por que Jonathan Hickman tornou-se uma das figuras centrais da Marvel, dividindo o ouro da casa com os também ótimos Brian Michael Bendis e Jason Aaron. Hickman possui um senso de espetáculo e grandeza que lembra Mark Millar e alia ciência, psicologia e filosofia (vide o fantástico interlúdio zen entre Shang Chi e a Capitã Universo) como faria um Grant Morrison, só que sem muita "viagem" metafísica - o que pode ser entendido por alguns como uma vantagem e por outros como uma decepção.

Opeña e Kubert dão conta da missão de traduzir tudo em imagens, entregando arte limpa, agradável e adequada ao que é, basicamente, um blockbuster em papel, quase pronto para ser traduzido diretamente em película, coisa em que a Marvel ficou craque desde Os Supremos.

Ao final da sexta história, a revelação da identidade do "homem melhor" projetado por Ex Nihilo faz tilintar vários sinos na cabeça de quem curtia Marvel na segunda metade dos anos 80. Sem querer entregar demais, duas palavras para você matutar: "branco" e "novo".

Após muitos anos em que os X-Men foram os queridinhos absolutos da Marvel, está sendo a vez de Os Vingadores ocuparem o centro do palco. A julgar pela qualidade de entretenimento apresentada aqui, a opção da Marvel me parece plenamente justificada. Eu, que nunca fui tão fã da equipe, estou derretido pelos Vingadores de Jonathan Hickman e mal posso esperar pelo segundo volume.

Os Vingadores - Mundo de Vingadores
Panini Comics - 148 páginas - R$ 26,90.

27/11/2015

Escuta Aqui, Vol. 1


O Catapop se reinventou há seis meses e já tinha rolado de tudo por aqui: resenhas de cinema, séries, discos e HQs; opinião sobre os rumos da sociedade; promoção para os leitores... Só estava faltando uma coletânea musical para o blog tornar-se plenamente reconhecível ao seu leitor.

Embora muitos dos habituais leitores do Catapop sejam meus contatos no Facebook, nem sempre é possível acompanhar o ritmo de minhas postagens musicais, nos dias mais inspirados. Esta nova série de mixtapes (que abandona o pomposo nome "Música Para Seus Ouvidos" em prol de outro, bem mais simples e simpático) cumpre, então, o propósito de condensar uma parte dessas sugestões.

Já faz um ano desde a última coleção. Por isso, o repertório desta contém coisas que podem já ter tocado bastante ao seu redor, mas eu sou capaz de adoecer, se não falar delas. Até pensei em ter mais música nossa, mas, desta vez, a brasilidade está limitada ao arrasador Liniker, uma promessa capaz de encher o coração de esperança em melhores tempos musicais neste país.

Sem mais delongas, o disquinho ficou assim:


01 - Brandon Flowers, "Can't Deny My Love"
Entre os discos de The Killers, Brandon lança inspirados álbuns solo. Esta faixa, do recente The Desired Effect (2015), traz ecos de Eurythmics e outras oitentices.

02 - Selah Sue, "Alone"
Depois de uma elogiada estreia em ritmo de reggae, Selah Sue retorna com um álbum (Reason, 2015) aberto por esta faixa de balanço R&B irresistível.

03 - Allen Stone, "Fake Future"
Com seu novo Radius (2015), Allen se aproxima ainda mais de Stevie Wonder, Jamiroquai e outras referências certeiras do soul e do funk.

04 - Michael Kiwanuka, "I'll Get Along"
Comparado a Otis Redding e outros crooners, o britânico Kiwanuka lançou, em 2012, seu único disco, Home Again. Folk e soul em tons educados e agradáveis.

05 - Liniker, "Zero"
Uma grande promessa do soul nacional, com seus poucos 20 anos e um EP (2015) de três músicas, Liniker veio pra brilhar e bagunçar com balanço e sagacidade.

06 - Benjamin Clementine, "London"
Com o porte de um modelo, a imponência de um príncipe e um timbre barítono privilegiado, o londrino Benjamin tem um senso vocal de drama todo particular.

07 - Estelle, "Silly Girls"
A protegida de John Legend lançou este ano um belo disco (True Romance), de onde saiu esta balada que lembra as classudas divas negras dos anos 70.

08 - Adele, "When We Were Young"
Em uma semana, 25 já é um dos álbuns mais vendidos do ano e começa a quebrar recordes. Esqueça "Hello", esta aqui é superior em diversos aspectos.

09 - Hollie Cook, "Superfast"
Um reggae de estrutura simples, mas irresistível. Você jamais esperaria isso de alguém cujo pai era baterista do Sex Pistols, mas Hollie é assim: surpreendente.

10 - Alabama Shakes, "Future People"
O desafio do segundo disco não os intimidou: Sound & Colour deve liderar várias listas de discos do ano. Um belo portfolio dos recursos vocais de Brittany Howard.

11 - Vintage Trouble, "Another Man's Words"
Ainda me falta fazer justiça, aqui no blog, a este ótimo disco chamado 1 Hopeful Rd. (2015), que justificou a longa espera e a crescente fama do Vintage Trouble. 

12 - Graveyard, "Too Much Is Not Enough"
Pouca gente esperaria que um blues rock tão intenso viesse da Suécia, mas parece haver algo na água que essa gente bebe. Eles sabem muito deste ofício.

26/11/2015

A palavra do vencedor


Amigo leitor, este é o relato de Luís do Vale, ganhador do sorteio do último dia 10, após receber seu prêmio:

"Foram necessários 31 anos de existência pra que eu ganhasse meu primeiro sorteio. E, veja só, o prêmio foi um gibi, um vício que carrego desde a infância, e veja mais ainda, do Batman, personagem que me acompanha desde essa época também.

O quadrinho em questão foi Batman - O Filho do Demônio, mas não é sobre ele que quero falar.

Entre 2000 e 2002, um primo me convidou a pegar emprestado tudo o que eu conseguisse carregar e ler da sua coleção de quadrinhos. Ele comprou praticamente tudo o que foi publicado da Marvel e da DC pela Editora Abril entre algum ano da década de 80 e 1994 quando, segundo ele, ambas as editoras "perderam o rumo". Era um sebo dentro de casa.

Li tudo o que não pude ler por questões financeiras, devido ao saudoso preço tabelado, ou porque era muito novo quando das publicações. X-Men do Claremont e Demolidor do Miller. Liga do DeMatteis e do Giffen e o Super pós-Crise. DC 2000, Novos Titãs, Camelot 3000. Eu não era café-com-leite no assunto, mas aquela coleção era coisa de profissional. Eu tinha que ler tudo. E todo sábado eu pegava uma ou duas sacolas cheias de revistas e ácaros que devolveria no fim de semana seguinte. É mais ou menos sobre isso que quero falar.

O primeiro gibi que li, fora Disney e Turma da Mônica, foi algo do Batman, do Super-Homem (na minha época era assim) ou do Homem-Aranha, por volta de 1990. E mudou a minha vida, sério mesmo. Eu queria saber quem eram aqueles caras e em que eles iam se meter no mês seguinte. E nunca parei. Seja comprando números avulsos ou iniciando e terminando coleções pra começar outras, sempre tive um gibi ao alcance das mãos. Eu era o carinha que, na aula de Educação Física, se afastava pra ler enquanto a turma jogava bola.

Com o tempo, fui conhecendo o mundo fora das duas grandes, e li mais ainda. Antes, a Herói, a Wizard e primos meus velhos eram meus guias; então, veio a internet com sites e blogs de gente que realmente sabia do que tava falando, o Catapop entre eles. E li mais quadrinhos, e li sobre quadrinhos, e queria ler mais. Passei a ser cada vez mais seletivo, deixei de me importar tanto com cronologia e com personagens e mais com as equipes criativas. Os scans me deram a possibilidade de ler títulos que eu nem sabia que existia e muitos que eu achei que nunca leria. Iniciei uma nova e modesta coleção, sem a pretensão e a pressão de ter tudo na estante, focando na qualidade e no prazer que aquela leitura pode me dar nas pausas entre as atribulações do cotidiano.

Obrigado, Marlo, porque relendo Batman – O Filho do Demônio tudo isso me veio à memória. Era sobre isso que eu queria falar."

13/11/2015

Jukebox Encantada #3


THE SMITHS
HATFUL OF HOLLOW
(1984)

Meu primeiro contato com a obra de The Smiths foi através de um flexidisc com a faixa "Still Ill", encartado na Bizz nº 8, em março de 1986. Aos meus ouvidos, então acostumados ao pop certinho das FMs, a voz de Morrissey soava bastante estranha, e aqueles três minutos e meio de pop/rock totalmente "alienígena", abertos e encerrados com fraseados de gaita, representavam um desafio. Era algo muito diferente de tudo que eu sempre havia escutado e dizer que gostei seria mentira, mas fiquei, no mínimo, instigado.

Havia ainda a letra, traduzida na seção específica da mesma revista. Aos 12 anos, eu podia já entender de muita coisa, mas amor, definitivamente, ainda não era uma delas - ainda mais um amor que negava tanto e tomava mais ainda; um amor cujos beijos, de doer os lábios, não despertavam mais desejo algum; um amor que era preciso esquecer para não enlouquecer... Você sabe, essas coisas que, cedo ou tarde, a gente acaba aprendendo.

Hatful of Hollow foi o segundo disco dos Smiths a integrar minha coleção (o primeiro foi Meat Is Murder, de 1985). "Still Ill" era uma das faixas, exatamente a mesma versão do disquinho da Bizz. Já mais habituado ao timbre vocal de Morrissey e maravilhado a cada novo fraseado de guitarra ou violão inventado por Johnny Marr, eu começava a desvendar os segredos melódicos do indie pop, gênero que tornou-se uma das bases de meu gosto musical. Mesmo assim, ali, os Smiths pareciam quase outra banda, bem mais solta e selvagem.

Não era por acaso: o disco era uma coletânea de singles (parece prematuro pra um segundo disco, mas, naqueles anos, dificilmente se passavam duas semanas sem um lançamento dos Smiths) e apresentações feitas em programas de rádio. Com a liberdade do "ao vivo em estúdio", a guitarra de Marr soava bem mais arisca e sinuosa, e a "cozinha" de Mike Joyce (bateria) e Andy Rourke (baixo) soava bem mais pulsante.

Guitarrista econômico, Marr nunca foi afeito a solos, preferindo fraseados curtos e certeiros, que serviam como fio condutor para as letras, enquanto Rourke e Joyce proviam uma seção rítmica que me parece mais "negra" (aspas imensas aqui, claro) a cada audição deste disco em particular.

The Smiths: Mike Joyce, Johnny Marr, Morrissey e Andy Rourke

De cara, um momento absolutamente iluminado, com cara de verão e de surf, "William, It Was Really Nothing", em que Morrissey reclamava do cara que o trocou por uma gorda que só falava em casamento. Um pouco mais à frente, a versão definitiva de "This Charming Man", mais paciente e suingada do que no disco de estreia, um clássico pop a ser ouvido pelas estrelas. Colada a ela, a canção mais épica da banda, "How Soon Is Now?", um testemunho de insucesso amoroso que certamente encontrou eco no peito de muitos adolescentes tímidos.

Em "Heaven Knows I'm Miserable Now", o fundo de poço mais bonito que existe, Morrissey se vê obrigado a afastar-se da mulher de sua vida - sua mãe. "This Night Has Opened My Eyes" fala da barra pesada que pode se tornar uma gravidez indesejada. Em "Girl Afraid", menino e menina perdem tempo esperando por sinais que nunca chegam. Ao longo das 16 faixas, Morrissey e/ou seus personagens encaram a barra de ser inseguro e impopular, ora com amargura, ora com ironia e irreverência.

Por muito tempo, tive dúvidas sobre qual seria, afinal, o melhor disco dos Smiths: Hatful of Hollow ou The Queen Is Dead (1986)? Apesar de o segundo ser mais literário, iconoclasta e conter pelo menos três das melhores canções da banda, este aqui funciona melhor como conjunto e, de modo geral, me parece mais representativo do seu modus operandi. Meu amor pela obra dos Smiths solidificou-se a partir deste álbum. 

Quando a banda anunciou seu prematuro fim, em 1987 (pouco mais de um ano depois de eu conhecê-los), foi uma das primeiras vezes em que experimentei um sentimento de perda (um vazio que, a propósito, não foi preenchido pela carreira solo de Morrissey, apesar de sua cota individual de obras-primas). Imagino que foi isso que os fãs dos Beatles sentiram em 1970. Sobrou apenas um travor amargo na garganta e, no coração, o punhado de nada do título.

PS: a capa que ilustra este post é do álbum em vinil; a capa do CD é ligeiramente diferente.

The Smiths - Hatful of Hollow
Lançamento: 12 de novembro de 1984
Produção: John Porter, Roger Pusey, Dale Griffin e The Smiths.

01 - "William, It Was Really Nothing"
02 - "What Difference Does It Make?"
03 - "These Things Take Time"
04 - "This Charming Man"
05 - "How Soon Is Now?"
06 - "Handsome Devil"
07 - "Hand in Glove"
08 - "Still Ill"
09 - "Heaven Knows I'm Miserable Now"
10 - "This Night Has Opened My Eyes"
11 - "You've Got Everything Now"
12 - "Accept Yourself"
13 - "Girl Afraid"
14 - "Back to the Old House"
15 - "Reel Around the Fountain"
16 - "Please, Please, Please, Let Me Get What I Want"

Proteger e servir


Existem excelentes razões para você comprar este encadernado.

A primeira é que Gotham DPGC, em sua primeira publicação no Brasil (ainda com o nome de Gotham City Contra o Crime, ao longo de seis edições do extinto encadernado trimestral DC Especial), foi concluído na marra pela Panini Brasil, com os editores brasileiros batendo de frente com os capos da matriz italiana. Com vendas pouco expressivas, tê-la publicada na íntegra foi uma conquista e tanto. Ou seja, existe uma história de heroísmo que transcende aquelas que estão nas suas páginas.

A segunda boa razão é que, naquele tempo, Gotham DPGC deu uma bem-vinda arejada no universo do Batman, mesmo sendo uma série em que ele pouco aparecia. Além de apresentar novos e carismáticos personagens, a série aprofundava-se na personalidade de velhos conhecidos dos leitores, como Renée Montoya. Seu antigo parceiro, Harvey Bullock, encontrava-se afastado por cumplicidade em um assassinato. Maggie Sawyer, surgida nas páginas de Superman, mudou-se para Gotham e era a nova capitã da polícia. James Gordon estava aposentado após ter sido baleado (em Batman Premium 22, Editora Abril) e o novo comissário era Michael Akins, que tinha sérias restrições quanto à parceria da polícia com o Morcego. Ou seja, naquele tempo, coisas importantes estavam acontecendo num universo que é, basicamente, estático.

A mais importante razão de todas, porém, é o fato de que Gotham DPGC é uma das melhores séries policiais já publicadas, um trabalho que comprovava a perícia de Ed Brubaker e Greg Rucka (que compartilhavam e se revezavam nos argumentos) para histórias de crime e suspense. Em 2004, o arco "Meia Vida", presente na segunda metade deste livro, ganhou tanto o Eisner quanto o Harvey Awards, os mais importantes prêmios da indústria de quadrinhos norte-americana. É justo destacar, também, que o ótimo traço de Michael Lark contribui fortemente para a atmosfera noir que impregna as páginas.

No primeiro arco ("No Cumprimento do Dever", que dá título ao livro), os policiais de Gotham já enfrentam (com trágicas consequências) a barra que é topar com um dos supervilões do Batman - no caso, o Sr. Frio. Enquanto alguns agentes acham que o certo seria ligar o bat-sinal de uma vez, outros se ressentem da interferência do Morcego e o consideram responsável, ainda que indiretamente, pelas ações dos vilões.

No segundo, o premiado "Meia Vida", a vingança de um mafioso contra Renée Montoya expõe sua vida íntima de modo devastador e os desdobramentos complicam cada vez mais sua já delicada situação. Tabus são tratados com sensibilidade e diálogos elegantes, ganhando um final agridoce e realista.

Uma das características pétreas dos quadrinhos de super-heróis, porém, é que as coisas andam para frente e para trás, em ciclos. O fim de Gotham Central coincidiu com o da Crise Infinita e, quando o Batverso surgiu modificado no "Um Ano Depois", estava tudo de volta às suas antigas posições: Gordon reempossado como comissário (o ilibado Michael Akins teria sido afastado em um suposto episódio de corrupção, que jamais foi detalhado); Bullock reintegrado; e, pior das injustiças, todos aqueles personagens fantásticos (Romy Chandler, Marcus Driver, Josie McDonald, Ron Probson) jogados no limbo das coisas mortas e esquecidas.

Diante da expectativa observada entre os leitores quando teve seu lançamento anunciado (e contando com o suporte extra transmídia da bem-sucedida série de TV Gotham), esta série de encadernados (de impecável tratamento gráfico), com quatro volumes previstos, deve ter vendas bem melhores do que há 10 anos. Sorte a nossa, porque é entretenimento de primeira grandeza, tanto como obra de impacto no universo do Batman quanto como leitura simultaneamente simples e respeitosa com nossos neurônios. Se você sabe o que é bom, precisa ter Gotham DPGC na sua estante.

10/11/2015

Fim da infância (com direito a presente)


Inspirado na origem de Kal-El, contada por Grant Morrison em uma só página de Grandes Astros: Superman, vai aqui uma breve história dos 10 primeiros anos do Catapop:

Até 10 de novembro de 2005, eu tinha um blog chamado Gotham City e o gaúcho Fábio Chang tinha outro, chamado Mestre Chang. A gente fechou nossos blogs e abriu o CATAPOP. Em 2008, eu decidi administrar o blog sozinho e, desde então, assim tem sido. No começo, a gente passava facilmente das 150 postagens anuais. Hoje, estou suando pra terminar 2015 com 20 artigos. Apesar disso, você ainda estão aqui comigo e isso conta muito! :-)

É engraçado, também, pensar em minha própria história, de dez anos pra cá. Em 2005, eu estava voltando à Bahia, após quase uma década vivendo em Goiás. Nem achei que fosse "enterrar umbigo" em Alagoinhas, mas eis que fiquei e, por enquanto, não tenho planos de arredar pé daqui.

Em 2005, eu comprava OITO revistas mensais da DC e da Marvel, quatro de cada. Hoje, só Batman e Liga da Justiça (e olhe lá!). Naquele ano, a Panini ainda tinha a má fama de "Editora Nº 1", por sua mania de iniciar coleções e encerrá-las logo após o primeiro volume (Liga da Justiça por Grant Morrison, Batman por Neal Adams, Starman por James Robinson, alguém?). Hoje, a editora publica uma variedade absurda de encadernados do começo ao fim e já nos entregou as versões integrais de diversas séries importantes (mas não dessas mencionadas acima - estamos de olho!).

Dez anos atrás, eu era um "magro gordo": um sedentário de corpo esguio, mas flácido. Jamais abandonei o pop e o rock, mas ainda era chegado em axé music (embora esse affair já estivesse perto do fim) e bom de copo no matter what.  Hoje em dia, não tolero música baiana (uma coisa morta, embora ainda faça tanto barulho) e virei adepto de uma rotina mais saudável, que inclui atividade física constante e quantidades bem menores de álcool. Nem a embriaguez nem a ressaca me parecem mais tão sedutoras.

Nos primeiros anos do Catapop, eu escrevi um bocado de artigos que, hoje, me matariam de vergonha. Sério, eu não consigo acreditar que disse certas coisas  (por que você acha que eu decidi fechar o conteúdo mais antigo?). Me diziam que eu escrevia melhor de mau humor e acabei comprando a ideia. Sob o pretexto de estar sendo engraçado, porém, fui deselegante, preconceituoso e reacionário em diversos momentos. Quero acreditar que não abracei o politicamente correto, apenas aprendi a distinguir melhor entre o que pode e o que precisa ser dito (a idade faz isso com a gente). Aos que porventura se ofenderam, minhas desculpas. Aos que me ajudaram a melhorar, meus agradecimentos.

Em 2005, eu não dava presente pros meus leitores. Em 2015, isso já está acontecendo pela quinta vez! Quem disse que as coisas aqui não mudaram pra melhor? Boa parte de vocês é um bando de interesseiros, que só me dão o gostinho de um comentário quando eu sorteio uma HQ lindona, mas eu não os amo menos por isso - apenas fico me perguntando se a contrapartida é sempre igualmente generosa. Entendam, isso não quer dizer que não vou sortear mais nada... mas, a partir de agora, vocês terão que merecer. Como dizemos aqui no Nordeste, eu tô ficando é velho, não besta!

Assim sendo, tenho a satisfação de anunciar que o ganhador de um exemplar novinho em folha de Batman: O Filho do Demônio é LUÍS DO VALE, de São Luís, MA.

Concorreram: Luís do Vale, Alexandre Melo, Gerlande Diogo, Fabiano Belchior, Luís Gustavo (Luwig) de Sá, José Rabelo, Thiago Messias (The Messiah), Rodrigo Bertuol (Caesius Maximus), Reginaldo Yeoman, Fernando Ishiruji, Rodrigo Valverde, Alberto Silva e Djaman Barbosa.

Bem, isto é tudo, por enquanto. Prontos para mais 10 anos? ;-)

Para o alto e... CATAPOP!

02/11/2015

O drama dos adultos

Comente e concorra a BATMAN: O FILHO DO DEMÔNIO! Sorteio em 10/11/2015. 


Desde o Superman (1978) de Richard Donner, por décadas que pareceram intermináveis, desejamos muito que os estúdios de Hollywood fossem capazes de fazer filmes decentes com super-heróis. Em 2000, o primeiro X-Men, com sua precisa combinação de drama e ação, inaugurou uma nova "Era de Ouro" do gênero, consolidada com Batman Begins (2005) e Homem de Ferro (2008).

Já houve muita tranqueira e muita coisa legal desde então, mas não há como negar: super-heróis são a coisa mais quente na Sétima Arte, hoje em dia, dominando a expectativa dos fãs e o burburinho nas redes sociais.

Por um lado, isso é muito bom, porque os filmes estão cada vez mais bem-feitos e parece não existir mais efeito especial impossível ou sequer desafiador, frequente desculpa para a não realização dos filmes, antes da supracitada "Era de Ouro".

Por outro lado, Hollywood está vivendo uma "adolescência" que parece interminável. Mesmo considerando que boa parte do público de super-heróis é gente acima dos 30 anos, estes não são filmes que se possa exatamente chamar de adultos - e existe, sim, uma demanda por filmes que atendam a expectativas dramáticas que os filmes de heróis (ou fantasias adolescentes distópicas, como Jogos Vorazes, Divergente ou Maze Runner) nem sempre estão dispostos ou aptos a suprir. 

Observe o circuito de cinema: os lançamentos de filmes baseados em HQs e outros tipos de fantasia dominam, enchendo diversas salas simultaneamente, numa demonstração de supremacia que parece longe do fim. Com isso, os filmes de outros gêneros acabam relegados a um mínimo de salas, não raramente em horários proibitivos.

Até mesmo a chamada "temporada do Oscar", na qual grandes dramas com chances no prêmio sempre acabam chamando atenção, parece estar ficando mais curta a cada ano que passa. Veja bem, este não é um manifesto contra os filmes de heróis e super-heróis, que eu tanto adoro. Só desejo que haja um pouco mais de diversidade na programação das salas e que os nerds gastem um pouco mais de seu tempo e de seu dinheiro para ver, também, filmes que fujam do nicho HQ/ação/sci-fi.

O Catapop é um blog em que as HQs, bem como o cinema nelas baseado, estão e estarão sempre presentes, mas, desta vez, desejo sugerir aos amigos leitores alguns cineastas, cujas obras agregam valor ao intelecto de quem as assiste. Listas são aquela coisa, né? Tanto os cineastas quanto os três filmes de cada um que escolhi como seus pontos altos refletem somente minha atual percepção. Feita daqui a uma semana ou daqui a um ano, talvez fossem outros. Enfim, assistam e escolham os seus.


CLINT EASTWOOD 


Há pouco que eu possa falar sobre os primeiros anos de Clint como diretor, ainda na década de 70, mas, desde Bird (1988) e, mais notadamente, Os Imperdoáveis (1992, vencedor de quatro Oscars), seu nome está, para mim, associados a dramas a que não se assiste impunemente. Quem diria que um ator que construiu toda uma reputação sempre de arma em punho (como o "estranho sem nome" dos westerns ou como o detetive "Dirty" Harry Callahan em diversos policiais) se tornaria tão sensível contador de histórias? 

Pontos altos: Os Imperdoáveis (1992), As Pontes de Madison (1995), Sobre Meninos e Lobos (2003).


DAVID FINCHER 


Antigo diretor de videoclipes (por exemplo, Vogue e Bad Girl, de Madonna), Fincher trouxe para o cinema o charme cool de sua estética, combinando-a com ótimos roteiros, irrepreensível direção de atores e trilha sonora sufocante, geralmente a cargo do amigo Trent Reznor (do Nine Inch Nails). Tudo isso sem perder, por um fotograma que seja, o senso de espetáculo e, ocasionalmente, bem-vinda provocação. O Curioso Caso de Benjamin Button mostrou que Fincher também sabe emocionar.

Pontos altos: Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), Clube da Luta (1999) e Garota Exemplar (2014).


MICHAEL MANN 


Não raramente, os homens do universo dos filmes de Michael Mann são tipos que levam muito a sério seus trabalhos e têm essa dedicação testada pelas circunstâncias. Em seus filmes, palavra e compromisso são iguarias de alto valor e piadinhas não constam do cardápio. Os homens (sim, no gênero masculino, mesmo) que protagonizam os filmes de Mann não descansam até que suas missões estejam cumpridas (e, acredite, sem que isso implique em qualquer vestígio de autoajuda).

Pontos altos: O Último dos Moicanos (1992), O Informante (1999) e Colateral (2004).


PAUL THOMAS ANDERSON 


Vou confessar: os três filmes citados como pontos altos são os três únicos de Paul Thomas Anderson que assisti - mas, caramba, que experiências! Seus filmes são sempre longos, contemplativos, mas seu caráter permanentemente questionador e filosófico os torna obrigatórios, presença constante em lista de melhores do ano. Nota mental: assistir e riscar Boogie Nights (1998) e Embriagado de Amor (2002) da minha Lista da Vergonha o quanto antes.

Pontos altos: Magnolia (1999), a obra-prima Sangue Negro (2007) e O Mestre (2010).


SPIKE JONZE 


Provavelmente, o mais original dos cineastas nesta lista, Jonze é um articulador de histórias improváveis. Ele dirigiu apenas quatro longa-metragens e o único que eu não assisti foi justamente o primeiro deles, Quero Ser John Malkovich (vergonha, vergonha, VERGONHA!). De resto, temos mesmo que bater palmas para um homem que consegue extrair um duplo ótimo desempenho de Nicolas Cage (como os gêmeos de Adaptação) e transforma a história de amor entre um homem e um sistema operacional (Ela) num dos melhores filmes da década.

Pontos altos: Adaptação (2002), o genial Ela (2014) e Quero Ser John Malkovich (1999 - é, eu não vi, mas tantos prêmios e tantos queixos caídos dos que assistiram não podem estar tão errados).