13/11/2015

Jukebox Encantada #3


THE SMITHS
HATFUL OF HOLLOW
(1984)

Meu primeiro contato com a obra de The Smiths foi através de um flexidisc com a faixa "Still Ill", encartado na Bizz nº 8, em março de 1986. Aos meus ouvidos, então acostumados ao pop certinho das FMs, a voz de Morrissey soava bastante estranha, e aqueles três minutos e meio de pop/rock totalmente "alienígena", abertos e encerrados com fraseados de gaita, representavam um desafio. Era algo muito diferente de tudo que eu sempre havia escutado e dizer que gostei seria mentira, mas fiquei, no mínimo, instigado.

Havia ainda a letra, traduzida na seção específica da mesma revista. Aos 12 anos, eu podia já entender de muita coisa, mas amor, definitivamente, ainda não era uma delas - ainda mais um amor que negava tanto e tomava mais ainda; um amor cujos beijos, de doer os lábios, não despertavam mais desejo algum; um amor que era preciso esquecer para não enlouquecer... Você sabe, essas coisas que, cedo ou tarde, a gente acaba aprendendo.

Hatful of Hollow foi o segundo disco dos Smiths a integrar minha coleção (o primeiro foi Meat Is Murder, de 1985). "Still Ill" era uma das faixas, exatamente a mesma versão do disquinho da Bizz. Já mais habituado ao timbre vocal de Morrissey e maravilhado a cada novo fraseado de guitarra ou violão inventado por Johnny Marr, eu começava a desvendar os segredos melódicos do indie pop, gênero que tornou-se uma das bases de meu gosto musical. Mesmo assim, ali, os Smiths pareciam quase outra banda, bem mais solta e selvagem.

Não era por acaso: o disco era uma coletânea de singles (parece prematuro pra um segundo disco, mas, naqueles anos, dificilmente se passavam duas semanas sem um lançamento dos Smiths) e apresentações feitas em programas de rádio. Com a liberdade do "ao vivo em estúdio", a guitarra de Marr soava bem mais arisca e sinuosa, e a "cozinha" de Mike Joyce (bateria) e Andy Rourke (baixo) soava bem mais pulsante.

Guitarrista econômico, Marr nunca foi afeito a solos, preferindo fraseados curtos e certeiros, que serviam como fio condutor para as letras, enquanto Rourke e Joyce proviam uma seção rítmica que me parece mais "negra" (aspas imensas aqui, claro) a cada audição deste disco em particular.

The Smiths: Mike Joyce, Johnny Marr, Morrissey e Andy Rourke

De cara, um momento absolutamente iluminado, com cara de verão e de surf, "William, It Was Really Nothing", em que Morrissey reclamava do cara que o trocou por uma gorda que só falava em casamento. Um pouco mais à frente, a versão definitiva de "This Charming Man", mais paciente e suingada do que no disco de estreia, um clássico pop a ser ouvido pelas estrelas. Colada a ela, a canção mais épica da banda, "How Soon Is Now?", um testemunho de insucesso amoroso que certamente encontrou eco no peito de muitos adolescentes tímidos.

Em "Heaven Knows I'm Miserable Now", o fundo de poço mais bonito que existe, Morrissey se vê obrigado a afastar-se da mulher de sua vida - sua mãe. "This Night Has Opened My Eyes" fala da barra pesada que pode se tornar uma gravidez indesejada. Em "Girl Afraid", menino e menina perdem tempo esperando por sinais que nunca chegam. Ao longo das 16 faixas, Morrissey e/ou seus personagens encaram a barra de ser inseguro e impopular, ora com amargura, ora com ironia e irreverência.

Por muito tempo, tive dúvidas sobre qual seria, afinal, o melhor disco dos Smiths: Hatful of Hollow ou The Queen Is Dead (1986)? Apesar de o segundo ser mais literário, iconoclasta e conter pelo menos três das melhores canções da banda, este aqui funciona melhor como conjunto e, de modo geral, me parece mais representativo do seu modus operandi. Meu amor pela obra dos Smiths solidificou-se a partir deste álbum. 

Quando a banda anunciou seu prematuro fim, em 1987 (pouco mais de um ano depois de eu conhecê-los), foi uma das primeiras vezes em que experimentei um sentimento de perda (um vazio que, a propósito, não foi preenchido pela carreira solo de Morrissey, apesar de sua cota individual de obras-primas). Imagino que foi isso que os fãs dos Beatles sentiram em 1970. Sobrou apenas um travor amargo na garganta e, no coração, o punhado de nada do título.

PS: a capa que ilustra este post é do álbum em vinil; a capa do CD é ligeiramente diferente.

The Smiths - Hatful of Hollow
Lançamento: 12 de novembro de 1984
Produção: John Porter, Roger Pusey, Dale Griffin e The Smiths.

01 - "William, It Was Really Nothing"
02 - "What Difference Does It Make?"
03 - "These Things Take Time"
04 - "This Charming Man"
05 - "How Soon Is Now?"
06 - "Handsome Devil"
07 - "Hand in Glove"
08 - "Still Ill"
09 - "Heaven Knows I'm Miserable Now"
10 - "This Night Has Opened My Eyes"
11 - "You've Got Everything Now"
12 - "Accept Yourself"
13 - "Girl Afraid"
14 - "Back to the Old House"
15 - "Reel Around the Fountain"
16 - "Please, Please, Please, Let Me Get What I Want"

4 comentários:

Gerlande Diogo disse...

Discão, só pra variar em se falando de Smiths. Q banda! :)

doggma disse...

Excelente análise. Minha iniciação com o Smiths foi mais pueril: "Ask", martelando no rádio (bons tempos para o dial!). Primeiro disco, outra compilação: "Louder Than Bombs". Também tive aquela surpresa quando soube que a banda havia encerrado há tempos. Não se deixaram envelhecer 1 segundo. No final acho que foi melhor assim...

Acabei acompanhando mais a carreira do guitarrista (The The e o subestimado Electronic), mas sempre torci pela volta da parceria, independente dos Smiths. A química entre Moz e Marr é única.

The Messiah disse...

Ouvirei esse álbum agora

The Messiah disse...

Oh man, man ohhh man!!! Que viagem que estou fazendo com esse disco. Que coisa mais maravilhosa. Sempre ouvi falar da banda e já tinha ouvido algumas músicas soltas. Confesso que nunca me pegou e nunca me interessei em persistir e conhecer melhor essa banda. Pronto, daí como sempre você nos ensinando e espalhando coisas boas me fez prestar a devida atenção à essa masterpiece!
Muito obrigado MAIS uma vez!