13/11/2015

Proteger e servir


Existem excelentes razões para você comprar este encadernado.

A primeira é que Gotham DPGC, em sua primeira publicação no Brasil (ainda com o nome de Gotham City Contra o Crime, ao longo de seis edições do extinto encadernado trimestral DC Especial), foi concluído na marra pela Panini Brasil, com os editores brasileiros batendo de frente com os capos da matriz italiana. Com vendas pouco expressivas, tê-la publicada na íntegra foi uma conquista e tanto. Ou seja, existe uma história de heroísmo que transcende aquelas que estão nas suas páginas.

A segunda boa razão é que, naquele tempo, Gotham DPGC deu uma bem-vinda arejada no universo do Batman, mesmo sendo uma série em que ele pouco aparecia. Além de apresentar novos e carismáticos personagens, a série aprofundava-se na personalidade de velhos conhecidos dos leitores, como Renée Montoya. Seu antigo parceiro, Harvey Bullock, encontrava-se afastado por cumplicidade em um assassinato. Maggie Sawyer, surgida nas páginas de Superman, mudou-se para Gotham e era a nova capitã da polícia. James Gordon estava aposentado após ter sido baleado (em Batman Premium 22, Editora Abril) e o novo comissário era Michael Akins, que tinha sérias restrições quanto à parceria da polícia com o Morcego. Ou seja, naquele tempo, coisas importantes estavam acontecendo num universo que é, basicamente, estático.

A mais importante razão de todas, porém, é o fato de que Gotham DPGC é uma das melhores séries policiais já publicadas, um trabalho que comprovava a perícia de Ed Brubaker e Greg Rucka (que compartilhavam e se revezavam nos argumentos) para histórias de crime e suspense. Em 2004, o arco "Meia Vida", presente na segunda metade deste livro, ganhou tanto o Eisner quanto o Harvey Awards, os mais importantes prêmios da indústria de quadrinhos norte-americana. É justo destacar, também, que o ótimo traço de Michael Lark contribui fortemente para a atmosfera noir que impregna as páginas.

No primeiro arco ("No Cumprimento do Dever", que dá título ao livro), os policiais de Gotham já enfrentam (com trágicas consequências) a barra que é topar com um dos supervilões do Batman - no caso, o Sr. Frio. Enquanto alguns agentes acham que o certo seria ligar o bat-sinal de uma vez, outros se ressentem da interferência do Morcego e o consideram responsável, ainda que indiretamente, pelas ações dos vilões.

No segundo, o premiado "Meia Vida", a vingança de um mafioso contra Renée Montoya expõe sua vida íntima de modo devastador e os desdobramentos complicam cada vez mais sua já delicada situação. Tabus são tratados com sensibilidade e diálogos elegantes, ganhando um final agridoce e realista.

Uma das características pétreas dos quadrinhos de super-heróis, porém, é que as coisas andam para frente e para trás, em ciclos. O fim de Gotham Central coincidiu com o da Crise Infinita e, quando o Batverso surgiu modificado no "Um Ano Depois", estava tudo de volta às suas antigas posições: Gordon reempossado como comissário (o ilibado Michael Akins teria sido afastado em um suposto episódio de corrupção, que jamais foi detalhado); Bullock reintegrado; e, pior das injustiças, todos aqueles personagens fantásticos (Romy Chandler, Marcus Driver, Josie McDonald, Ron Probson) jogados no limbo das coisas mortas e esquecidas.

Diante da expectativa observada entre os leitores quando teve seu lançamento anunciado (e contando com o suporte extra transmídia da bem-sucedida série de TV Gotham), esta série de encadernados (de impecável tratamento gráfico), com quatro volumes previstos, deve ter vendas bem melhores do que há 10 anos. Sorte a nossa, porque é entretenimento de primeira grandeza, tanto como obra de impacto no universo do Batman quanto como leitura simultaneamente simples e respeitosa com nossos neurônios. Se você sabe o que é bom, precisa ter Gotham DPGC na sua estante.

5 comentários:

Caesius Maximus disse...

Minha chance de possuir um material que me arrependo por não ter adquirido na época!

Gerlande Diogo disse...

Nunca li essa série. Chegou a hora.

Alexandre Melo disse...

Especialista mesmo é o Marlo e passo longe de ser voz relevante no assunto, GCPD era melhor série regular de Batman (ainda que "meio sem" Batman) em décadas.
Primeiras edições e gostava demais dessa pegada meio MARVELS. Relatos da vida cotidiana do que seria existência de malucos uniformizados (alguns superpoderosos) tendendo contra ou a favor, mas definitivamente à margem da lei. Depois a coisa progrediu. Gozado que as pessoas tem essa concepção do Morcego ser mais "realista" e dessa vertente pra investigação. As tramas focadas na chefatura de polícia é que dão melhor vislumbre do trabalho policial. Mérito de dois dos melhores escritores do gênero, e um desenhista emulando com toda reverência David Mazzucchelli de Ano Um.

Do Vale disse...

Lá em 2003 eu comecei minha coleção 2.0 (tinha parado de acompanhar Marvel e DC por volta de 98, 99), e Gotham Central foi um dos materiais que me chamou atenção na época. Os scans me deram oportunidade de conhecer muita coisa fora da caixa, de selecionar mais o que eu comprava e lia.
De vez em quando pego pra reler algum dos meus DC Especial e fico imaginando como seria se o título tivesse continuado, mas acho que o Brubaker e o Rucka, apesar do fim meio abrupto, interromperam na hora certa. Até porque os caras foram pra Marvel e engrandeceram ainda mais os currículos.
Dando o braço a torcer que a Panini ultimamente tem acertado e muito.
E não sabia desse perrengue pra finalizar a publicação por aqui, QUE BOM QUE EU CONTRIBUÍ NAS VENDAS.

Marlo de Sousa disse...

CAESIUS MAXIMUS e GERLANDE, "corrão" pra garantir o de vocês!

ALEXANDRE, a semelhança no traço de Lark e Mazzuchelli não me passou despercebida - e, sim, a série era hors-concours naquela primeira metade da década.

DO VALE, só te digo que Gotham DPGC fica bem mais bonito como livro na estante do que como pasta de imagens no HD. ;)

Abraço a todos!