28/12/2015

Fim de feira

Pensei em iniciar esta curta retrospectiva mencionando fatos que foram manchete durante todo este ano surtado, mas eu duvido que alguém queira ser lembrado dessas coisas mais uma vez. 2015 foi um ano que não fez prisioneiros. Em menor ou maior escala, parece ter cobrado alto de todo mundo, individual ou coletivamente. Deixemos, então, as (muitas) mazelas deste ano tão difícil para os especiais televisivos.

2015 foi assim, ó:


CINEMA

Obviamente, Mad Max: Estrada da Fúria e Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força dividem o trono de melhores filmes do ano.


De um lado, temos o criador (George Miller) de uma série que fez sucesso pela última vez há 30 anos, retomar sua criação com um novo protagonista (Tom Hardy no papel que foi de Mel Gibson) e, aos 75 anos, dar uma invejável aula de cinema de ação, com um filme cujo visual parece saído de algum sonho (ou pesadelo) turbinado por lisergia.

Do outro, temos uma franquia que quase foi arruinada (em termos qualitativos, pelo menos) por seu próprio criador, sendo ressuscitada pelas hábeis mãos de um diretor (J.J. Abrams) que entende, como poucos, do ofício de equilibrar elementos visuais/tecnológicos que caracterizam um blockbuster com aspectos dramáticos/humanos que o ancoram ao coração do público.

Estes filmes abraçaram, com excelentes resultados, a diversidade dos novos tempos: enquanto um (Star Wars) tem um negro (John Boyega) e uma jovem mulher (Daisy Ridley) como seus ótimos co-protagonistas, o outro (Mad Max) é praticamente roubado pela força dramática de Imperator Furiosa, seja por mérito da personagem ou de sua intérprete (Charlize Theron).

Ambos, também, provaram que um reboot ou sequência não tem sempre que ser um caça-níqueis descarado; que é possível dar ao público delírio visual e sensorial, ao mesmo tempo em que se respeitam seus neurônios, com bons roteiros, personagens e interpretações.


QUADRINHOS

Não há muito que eu possa dizer sobre quadrinhos mensais, considerando que tenho lido apenas Batman e Liga da Justiça, ambas agradáveis o suficiente (com Batman sempre melhor que a Liga), mas sem inspirar qualquer empolgação extraordinária de minha parte.


O Brasil viciou-se, definitiva e irreversivelmente, na delícia que é ler encadernados. Méritos sejam dados, principalmente, à Panini Comics, que não se fez de rogada e deleitou os leitores com muito mais gibis do que era possível comprar ou ler - pelo menos, não sem comprometer o orçamento doméstico ou o relacionamento amoroso. A editora lançou e relançou muita coisa boa e parece ter tomado gosto pelas reimpressões, mantendo clássicos e neoclássicos sempre nas prateleiras. Ainda nos deve muita coisa boa, mas já aplacou muito de nossa sede.

Os melhores gibis que li pela primeira vez este ano foram Turma da Mônica: Lições, O Inescrito Vol. 9: Orfeu no Mundo Abissal, Fábulas 21: Felizes Para Sempre e Os Vingadores: Mundo de Vingadores.


MÚSICA

Na música, foi um ano de retornos aguardados (Madonna, Alabama Shakes, Adele), surpreendentes (Faith No More, Blur, Giorgio Moroder) e decepcionantes (Belle and Sebastian, The Vaccines). O Brasil viu pelo menos dois festivais gigantescos (Lollapalooza e Rock in Rio) e o nascimento da edição nacional do maior evento de música eletrônica do mundo, Tomorrowland.


Para quem ainda mede o sucesso de um artista pela sua presença na grande mídia, foi mais um ano em que o Brasil só produziu três tipos de música: sertanejo, funk e arrocha. A internet continua sendo um cenário fervilhante de ideias e sons bacanas, sempre ao alcance dos dispostos à garimpagem. Aventure-se e saia do atoleiro mainstream.

Para mim, as músicas mais bacanas de 2015 foram:


17/12/2015

Amor que ecoa pela galáxia



Um velho jargão administrativo recomenda: contrate pessoas melhores que você. 

Foi o que George Lucas fez, pela primeira vez, em 1980, ao permitir que Irwin Kershner dirigisse O Império Contra-Ataca, dando sequência ao sucesso que foi o Star Wars original, três anos antes. Favorito da maioria dos fãs, o ex-segundo filme da saga (com a nova nomenclatura por episódios, passaria a ser o quinto) tornou-se um exemplo claro de que uma ideia que já nasceu boa pode render ainda mais, quando em mãos mais hábeis. Em menor grau, a manobra deu certo, mais uma vez, com Richard Marquand dirigindo O Retorno de Jedi, em 1983.

Uma década e meia depois, porém, num ataque de megalomania, Lucas decidiu roteirizar e dirigir sozinho a trilogia de prequels. Tinha à sua disposição atores melhores do que os da trilogia original (Natalie Portman, Liam Neeson, Ewan McGregor), mas o chato pano de fundo político, a ruindade dos diálogos e sua débil direção de atores deixaram A Ameaça Fantasma (1999), Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005) muito aquém da expectativa.

Não sem razão, muitos fãs temeram o pior quando, em 2012, a Lucasfilm foi vendida à Walt Disney Company. George Lucas declarou-se "cansado" de Star Wars, mas, curiosamente, não parou de dar pitacos mal-educados desde que a produção de uma nova trilogia foi anunciada. A possível "disneyficação" da saga espacial passou a habitar os pesadelos de muita gente.

Estas pessoas já podem respirar aliviadas: J.J. Abrams prova, mais uma vez, que é possível vencer o criador dentro de sua própria criação. Como bem dito por um amigo, em conversa particular comigo, Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força só não é o melhor filme da franquia porque a gente não quer que ele seja. Méritos para tanto, porém, não lhe faltam.

Abrams é o homem que ressuscitou Star Trek para o cinema, em dois filmes (2009 e 2013), nos quais era evidente o quanto se preocupava em criar identificação do público com os dramas que ligavam os personagens (ao contrário de um certo diretor, que andou declarando que os fãs não ligavam para a história, desde que houvesse muita ação e efeitos visuais de ponta).

Este é o maior trunfo do novo Star Wars: colocar os efeitos especiais em segundo plano e trazer de volta para o centro das atenções os personagens e as histórias que os conectam. Tudo isso sem perder, por um fotograma que seja, o caráter "Sessão da Tarde" que permeava os episódios IV, V e VI e fez falta nos episódios I, II e III.

Abrams é pródigo em emular aquele cinemão-pipoca dos anos 80, vide Super 8.


Para começar, é perfeita a apresentação de uma nova e ótima dupla de protagonistas: o stormtrooper desertor Finn (John Boyega) e a catadora de sucata Rey (Daisy Ridley). O filme dá tempo para que a gente conheça os personagens e suas motivações, qualidade que considero possível estender, apesar do tempo menor em tela, ao destemido piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) e ao incrivelmente carismático droide BB-8, novo brinquedo dos sonhos de quem ama Star Wars.

A propósito, é o amor por esta saga e tudo que ela representa que torna inesquecível cada aparição do elenco clássico (rolaram-me umas lágrimas inclusive pelo tema de abertura), bem como as referências aos filmes originais (novamente, cabe a um droide assistente entregar informação vital em forma de holograma, por exemplo).

Rey e Finn são a maior evidência de que Star Wars está adaptando-se aos novos padrões sociais (ou à falta deles): ter uma mulher e um negro protagonizando um dos filmes mais aguardados da década gerou uma patética tentativa de boicote ao filme nas redes sociais, por parte de segregacionistas. A Força, porém, forte é em Rey e Finn, e o filme deve quebrar recordes em sequência. Vai vendo.


O Lado Negro da Força, também, está bem representado: Kylo Ren (o ótimo Adam Driver) é uma figura bastante sinistra e não dá pra falar de sua história sem entregar spoilers, exceto que ele ainda é um sith aprendiz, meio desajeitado e relutante, mas que não tem medo de utilizar sua impressionante espada de luz, definindo momentos-chaves. Por outro lado, espero melhor participação, no Episódio VIII, da Capitã Phasma (Gwendolin Christie) e correções no pouco crível CGI de Snoke, o líder supremo da Primeira Ordem (a nova versão do Império Galáctico).

Como já foi concebido como a primeira parte de uma nova trilogia, não se irrite em perceber que o filme termina deixando muitos mistérios e conflitos sem conclusão. O final é aberto (e emocionante), assim como o sorriso que eu ostentava, ao fim da sessão. Fazia tempo que minha memória afetiva ligada a um filme não era tão gostosamente afagada. Se você ama estes filmes, estes personagens, esta mitologia, vá sem medo de ser feliz.

13/12/2015

Elogio da loucura


Como da última vez, direto ao ponto: Louco: Fuga redime a coleção Graphic MSP da mancada que foi Turma da Mata: Muralha, o volume anterior.

O Louco é um personagem muito querido pelos fãs da Turma da Mônica, pelo total nonsense que toma conta, principalmente, das histórias do Cebolinha, durante seus rápidos e intensos encontros. O Louco consegue, nos poucos quadrinhos da mesma história, deixar o Cebolinha alegre, irritado, constrangido, alegre novamente e, por fim, desnorteado. Tudo isso com direito a muita violência de mentirinha e gags que, em diversas histórias, beiraram o genial.

Dito isto, talvez alguém possa decepcionar-se com o fato de Fuga trazer um Louco tão comportado. Se a principal intenção da coleção é cativar o leitor adulto, o Louco era um personagem que certamente permitiria um pouco mais de (dããã) loucura por parte do paulista Rogério Coelho, responsável pelos roteiros e desenhos. Entenda que isto não quer dizer, de modo algum, que a história seja enfadonha. Ao contrário, carrega em si um lirismo encantador e uma inegável nobreza de intenções, mas as loucuras do personagem, aqui, são fichinha, em comparação ao que ele já aprontou na revista feita pra gurizada.

Alguém poderia ter sussurrado no ouvido de Rogério as célebres palavras dos Mutantes, em "Balada do Louco": "eu juro que é melhor não ser um normal, se eu posso pensar que Deus sou eu."

Digerido este pequeno contrassenso, não há como não se deixar levar pela saga do Louco contra os Guardiões do Silêncio, que aprisionaram um pássaro muito importante para ele. O texto econômico e a opção pela narração em primeira pessoa facilitam a identificação, permitindo que cada leitor escolha o que deseja que aquele pássaro represente: pode ser a imaginação, a liberdade, o amor, sua essência pessoal...

Rogério Coelho

Enquanto flui a leitura, vamos sendo despertados à inevitável questão: não somos nós (muitos de nós, pelo menos) os loucos de verdade? Qual pássaro perde a liberdade a cada vez que nos conformamos com trabalhos indignos? Ou quando insistimos em relacionamentos desgastados ou baseados em mentiras? Ou quando deixamos de ser quem somos (loucos, talvez), para parecermos "normais" aos olhos alheios?

Tudo isto, claro, não passa das conjecturas pessoais deste louco que vos escreve.

Não deixa de ser agradável ver um tema sério tratado com leveza (ainda mais depois do festival de carrancas que foi Muralha), com menções às outras Graphics (incluindo um bem-sacado retcon para Bidu: Caminhos) e uma arte estilosa. Ao já personalíssimo traço de Rogério, somam-se sua linda colorização (que confere a algumas passagens uma atmosfera ora onírica, ora nostálgica) e sua diagramação criativa.

Louco: Fuga cumpre seu propósito de apresentar uma história divertida, interessante e fiel ao espírito da criação original de Mauricio de Sousa, fechando esta segunda leva da Graphic MSP com saldo positivo e fixando o nome de Rogério Coelho no mapa estelar dos quadrinhos brasileiros. Se você é daqueles que dá graças aos céus que esta não seja uma coleção numerada, pra poder deixar passar em branco as edições menos legais, respire aliviado e gaste seus suados reais sem susto. Um livro bonito de ver e gostoso de ler não é tudo que desejamos? Então.

05/12/2015

Liberdade a qualquer custo


Meu coração de fã se contrai de tristeza quando vejo George Michael preso na típica espiral descendente que acomete aos artistas em crise: disco de covers, disco ao vivo, coletâneas, presença nos noticiários pelos escândalos, pelas manias, por tudo... menos pela música. 

Sejamos francos, George enfrentou com dignidade e bom humor o episódio que desmascarou sua sexualidade, fazendo graça no clipe de "Outside". Daí por diante, porém, a coisa só foi piorando pra ele: prisões por porte de drogas, acidentes estúpidos, saúde abalada... Desde já há um bom tempo, não tem sido fácil ser George Michael.

Seu último esforço, após 10 anos de silêncio, foi o álbum ao vivo Symphonica (2014), em que ele interpreta clássicos seus e de gente como Elton John, Rufus Wainwright e Terence Trent D'Arby, acompanhado por banda e orquestra. Os problemas (e, claro, a idade) cobraram seu preço da voz de George, sempre alguns tons abaixo dos que costumava atingir. Um disco digno e bonito, mas nada que pudesse salvá-lo do ostracismo em que prossegue.

Tudo isso pode fazê-lo parecer um homem sem qualquer controle de seu destino, mas nada pode estar mais longe da verdade. A História ainda não fez justiça a George Michael como o artista que protagonizou uma das mais espetaculares viradas de carreira já vistas na Música Pop.

Entre 1983 e 1986, George era metade de um duo de technopop chamado Wham!, com o amigo Andrew Ridgeley. O fim da brincadeira foi sacramentado com o imenso sucesso de seu primeiro single solo, "Careless Whisper" (1986) e, pouco depois, com seu elogiado e premiado primeiro disco completo, Faith (1987), de onde saíram clássicos como "Father Figure", "Kissing a Fool" e a faixa-título. 25 milhões de cópias depois, ninguém estaria tão equivocado em pensar que George estava satisfeito da vida, mas ele cometeria uma tentativa de "harakiri comercial".

Primeiro, brigou publicamente com a gravadora Sony Music, onde dizia sentir-se "aprisionado a uma imagem de sex symbol heterossexual" e decretou que, dali em diante, queria ser reconhecido como compositor sério e afastar-se da imagem de bonitão rebolativo, que perdurava. Para tanto, lançou, no final de 1990, um disco maduro e ligeiramente sombrio, Listen Without Prejudice Vol. 1.

Embora tenha sido apenas o terceiro single a sair do álbum, a faixa mais icônica é, inegavelmente, "Freedom '90", em que ele narra a epopeia que foi sua vida/carreira e grita aos quatro ventos seu desejo de libertação. Rebeldia é isto: o astro, cujo rosto bonito sempre foi seu grande chamariz, simplesmente não aparece nos quase sete minutos do vídeo, dirigido por David Fincher. Em seu lugar, aparecem "cantando" as top models mais bonitas (e caras) da época: Naomi Campbell, Christy Turlington, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Linda Evangelista, além de dois modelos masculinos. Para completar, George literalmente explode ícones de seu passado recente: a guitarra e a jukebox que fizeram parte do clipe de "Faith", três anos antes. Mais rock & roll, impossível!

Acima, a capa de Listen Without Prejudice Vol. 1
o disco que revolucionou a carreira de George Michael.

Além disso, Listen... trazia, pelo menos, duas outras obras-primas: "Heal the Pain", em que ele se oferece para curar a tristeza de um amor desfeito, num letra incrivelmente romântica e otimista, com melodia simpaticíssima. Uma criação que coloca George Michael em justo lugar entre os gênios da canção romântica. A segunda é a faixa de abertura e primeiro single"Praying for Time", em que o desencanto com a humanidade ganha ares de desespero, enquanto George aceita que só mesmo o tempo pode curar certas "doenças" da sociedade. "Estes são dias de mãos vazias / Você se agarra ao que pode / E a caridade é só um casaco que você usa duas vezes por ano." Como ficar impassível diante de versos assim?

O disco foi um "fracasso", vendendo "apenas" oito milhões de cópias. Faith vendeu o triplo, é verdade, mas foi Listen... que sedimentou a trilha de George como dono dos próprios rumos, com tudo que isso trouxe de ruim (os problemas descritos nos primeiros parágrafos) e de bom (canções incríveis, como "Jesus to a Child", "Fastlove" e "Amazing").


Como eu, muita gente ainda deve torcer por um retorno de George Michael - se não às glórias da fama planetária, pelo menos, a alguma relevância no cenário musical e às composições infalíveis que caracterizaram seus melhores anos. Artistas com tamanha classe e ardente paixão pela boa música pop sempre fazem falta.