17/12/2015

Amor que ecoa pela galáxia



Um velho jargão administrativo recomenda: contrate pessoas melhores que você. 

Foi o que George Lucas fez, pela primeira vez, em 1980, ao permitir que Irwin Kershner dirigisse O Império Contra-Ataca, dando sequência ao sucesso que foi o Star Wars original, três anos antes. Favorito da maioria dos fãs, o ex-segundo filme da saga (com a nova nomenclatura por episódios, passaria a ser o quinto) tornou-se um exemplo claro de que uma ideia que já nasceu boa pode render ainda mais, quando em mãos mais hábeis. Em menor grau, a manobra deu certo, mais uma vez, com Richard Marquand dirigindo O Retorno de Jedi, em 1983.

Uma década e meia depois, porém, num ataque de megalomania, Lucas decidiu roteirizar e dirigir sozinho a trilogia de prequels. Tinha à sua disposição atores melhores do que os da trilogia original (Natalie Portman, Liam Neeson, Ewan McGregor), mas o chato pano de fundo político, a ruindade dos diálogos e sua débil direção de atores deixaram A Ameaça Fantasma (1999), Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005) muito aquém da expectativa.

Não sem razão, muitos fãs temeram o pior quando, em 2012, a Lucasfilm foi vendida à Walt Disney Company. George Lucas declarou-se "cansado" de Star Wars, mas, curiosamente, não parou de dar pitacos mal-educados desde que a produção de uma nova trilogia foi anunciada. A possível "disneyficação" da saga espacial passou a habitar os pesadelos de muita gente.

Estas pessoas já podem respirar aliviadas: J.J. Abrams prova, mais uma vez, que é possível vencer o criador dentro de sua própria criação. Como bem dito por um amigo, em conversa particular comigo, Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força só não é o melhor filme da franquia porque a gente não quer que ele seja. Méritos para tanto, porém, não lhe faltam.

Abrams é o homem que ressuscitou Star Trek para o cinema, em dois filmes (2009 e 2013), nos quais era evidente o quanto se preocupava em criar identificação do público com os dramas que ligavam os personagens (ao contrário de um certo diretor, que andou declarando que os fãs não ligavam para a história, desde que houvesse muita ação e efeitos visuais de ponta).

Este é o maior trunfo do novo Star Wars: colocar os efeitos especiais em segundo plano e trazer de volta para o centro das atenções os personagens e as histórias que os conectam. Tudo isso sem perder, por um fotograma que seja, o caráter "Sessão da Tarde" que permeava os episódios IV, V e VI e fez falta nos episódios I, II e III.

Abrams é pródigo em emular aquele cinemão-pipoca dos anos 80, vide Super 8.


Para começar, é perfeita a apresentação de uma nova e ótima dupla de protagonistas: o stormtrooper desertor Finn (John Boyega) e a catadora de sucata Rey (Daisy Ridley). O filme dá tempo para que a gente conheça os personagens e suas motivações, qualidade que considero possível estender, apesar do tempo menor em tela, ao destemido piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) e ao incrivelmente carismático droide BB-8, novo brinquedo dos sonhos de quem ama Star Wars.

A propósito, é o amor por esta saga e tudo que ela representa que torna inesquecível cada aparição do elenco clássico (rolaram-me umas lágrimas inclusive pelo tema de abertura), bem como as referências aos filmes originais (novamente, cabe a um droide assistente entregar informação vital em forma de holograma, por exemplo).

Rey e Finn são a maior evidência de que Star Wars está adaptando-se aos novos padrões sociais (ou à falta deles): ter uma mulher e um negro protagonizando um dos filmes mais aguardados da década gerou uma patética tentativa de boicote ao filme nas redes sociais, por parte de segregacionistas. A Força, porém, forte é em Rey e Finn, e o filme deve quebrar recordes em sequência. Vai vendo.


O Lado Negro da Força, também, está bem representado: Kylo Ren (o ótimo Adam Driver) é uma figura bastante sinistra e não dá pra falar de sua história sem entregar spoilers, exceto que ele ainda é um sith aprendiz, meio desajeitado e relutante, mas que não tem medo de utilizar sua impressionante espada de luz, definindo momentos-chaves. Por outro lado, espero melhor participação, no Episódio VIII, da Capitã Phasma (Gwendolin Christie) e correções no pouco crível CGI de Snoke, o líder supremo da Primeira Ordem (a nova versão do Império Galáctico).

Como já foi concebido como a primeira parte de uma nova trilogia, não se irrite em perceber que o filme termina deixando muitos mistérios e conflitos sem conclusão. O final é aberto (e emocionante), assim como o sorriso que eu ostentava, ao fim da sessão. Fazia tempo que minha memória afetiva ligada a um filme não era tão gostosamente afagada. Se você ama estes filmes, estes personagens, esta mitologia, vá sem medo de ser feliz.

5 comentários:

Gerlande Diogo disse...

Expectativa total. Semana que vem eu vejo asisto :)

The Messiah disse...

Compartilho aqui a mesma emoção e opinião! Como foi emocionante e gostoso assistir a essa magnífica continuação. Que emocionante ver Han Solo e Chewbacca juntos novamente. Amei os novos personagens. Quero maaaaais Star Wars na telona, rápido.. :D

Do Vale disse...

Marlo, assisti ontem. Roteiro redondinho, personagens carismáticos, escolha certeira do elenco e, pra mim, PODE SER ATÉ CALOR DO MOMENTO, é o melhor dos 7. Talvez perca pro Episódio V. Mas, no momento, tá ganhando.

Do Vale disse...

MARLO, passado o calor do momento, percebi algumas forçadas no Episódio VII mas nada que derrube tanto o filme. Acho até perdoável por ser um retorno, um reinício etc. VEREMOS.

Caesius Maximus disse...

Finalmente posso comentar sobre o filme! Saí contentaço do cinema, ontem. Gostei muito da forma como J. J. Abrams conduziu a história, as homenagens aos personagens clássicos e o respeito às bases que fizeram Star Wars ser o que é.

Mas (diabos, ficamos velhos e com a mania de sempre colocar um "mas" em tudo) Kylo Ren me pareceu uma criança chiliquenta, não um vilão à altura de Darth Vader. Darth Maul, sem pronunciar uma palavra, demonstrava ser um aprendiz muito mais ameaçador, por exemplo. Felizmente ainda temos dois longas para melhorarem o personagem e aprofundar suas motivações. Não comprei aquela história de terminar o que Vader tinha começado. Até porque os fantasmas da força apareciam para Luke e Anakim poderia ter vindo dar um puxão de orelha no moleque, sei lá. Levando em consideração o final (e não escapei do spoiler sobre qual planeta era aquele. Merda) até dá pra imaginar um motivo pra nenhum fantasma da força ter aparecido, ainda.

Enfim, são rabugices de um quarentão que em nada apagam o mérito do resgate maravilhoso da saga, depois daquele tiro no pé dado nos episódios I, II e III.