13/12/2015

Elogio da loucura


Como da última vez, direto ao ponto: Louco: Fuga redime a coleção Graphic MSP da mancada que foi Turma da Mata: Muralha, o volume anterior.

O Louco é um personagem muito querido pelos fãs da Turma da Mônica, pelo total nonsense que toma conta, principalmente, das histórias do Cebolinha, durante seus rápidos e intensos encontros. O Louco consegue, nos poucos quadrinhos da mesma história, deixar o Cebolinha alegre, irritado, constrangido, alegre novamente e, por fim, desnorteado. Tudo isso com direito a muita violência de mentirinha e gags que, em diversas histórias, beiraram o genial.

Dito isto, talvez alguém possa decepcionar-se com o fato de Fuga trazer um Louco tão comportado. Se a principal intenção da coleção é cativar o leitor adulto, o Louco era um personagem que certamente permitiria um pouco mais de (dããã) loucura por parte do paulista Rogério Coelho, responsável pelos roteiros e desenhos. Entenda que isto não quer dizer, de modo algum, que a história seja enfadonha. Ao contrário, carrega em si um lirismo encantador e uma inegável nobreza de intenções, mas as loucuras do personagem, aqui, são fichinha, em comparação ao que ele já aprontou na revista feita pra gurizada.

Alguém poderia ter sussurrado no ouvido de Rogério as célebres palavras dos Mutantes, em "Balada do Louco": "eu juro que é melhor não ser um normal, se eu posso pensar que Deus sou eu."

Digerido este pequeno contrassenso, não há como não se deixar levar pela saga do Louco contra os Guardiões do Silêncio, que aprisionaram um pássaro muito importante para ele. O texto econômico e a opção pela narração em primeira pessoa facilitam a identificação, permitindo que cada leitor escolha o que deseja que aquele pássaro represente: pode ser a imaginação, a liberdade, o amor, sua essência pessoal...

Rogério Coelho

Enquanto flui a leitura, vamos sendo despertados à inevitável questão: não somos nós (muitos de nós, pelo menos) os loucos de verdade? Qual pássaro perde a liberdade a cada vez que nos conformamos com trabalhos indignos? Ou quando insistimos em relacionamentos desgastados ou baseados em mentiras? Ou quando deixamos de ser quem somos (loucos, talvez), para parecermos "normais" aos olhos alheios?

Tudo isto, claro, não passa das conjecturas pessoais deste louco que vos escreve.

Não deixa de ser agradável ver um tema sério tratado com leveza (ainda mais depois do festival de carrancas que foi Muralha), com menções às outras Graphics (incluindo um bem-sacado retcon para Bidu: Caminhos) e uma arte estilosa. Ao já personalíssimo traço de Rogério, somam-se sua linda colorização (que confere a algumas passagens uma atmosfera ora onírica, ora nostálgica) e sua diagramação criativa.

Louco: Fuga cumpre seu propósito de apresentar uma história divertida, interessante e fiel ao espírito da criação original de Mauricio de Sousa, fechando esta segunda leva da Graphic MSP com saldo positivo e fixando o nome de Rogério Coelho no mapa estelar dos quadrinhos brasileiros. Se você é daqueles que dá graças aos céus que esta não seja uma coleção numerada, pra poder deixar passar em branco as edições menos legais, respire aliviado e gaste seus suados reais sem susto. Um livro bonito de ver e gostoso de ler não é tudo que desejamos? Então.

2 comentários:

Do Vale disse...

Marlo, fiquei RESSABIADO depois dos álbuns do Penadinho e da Turma da Mata (até mesmo com a do Chico), mas acho que depois desse teu post vou ter que conferir essa do Louco.

Gerlande Diogo disse...

Falta Muralha e essa agora pra completar a coleção. Vou comprar todos.