05/12/2015

Liberdade a qualquer custo


Meu coração de fã se contrai de tristeza quando vejo George Michael preso na típica espiral descendente que acomete aos artistas em crise: disco de covers, disco ao vivo, coletâneas, presença nos noticiários pelos escândalos, pelas manias, por tudo... menos pela música. 

Sejamos francos, George enfrentou com dignidade e bom humor o episódio que desmascarou sua sexualidade, fazendo graça no clipe de "Outside". Daí por diante, porém, a coisa só foi piorando pra ele: prisões por porte de drogas, acidentes estúpidos, saúde abalada... Desde já há um bom tempo, não tem sido fácil ser George Michael.

Seu último esforço, após 10 anos de silêncio, foi o álbum ao vivo Symphonica (2014), em que ele interpreta clássicos seus e de gente como Elton John, Rufus Wainwright e Terence Trent D'Arby, acompanhado por banda e orquestra. Os problemas (e, claro, a idade) cobraram seu preço da voz de George, sempre alguns tons abaixo dos que costumava atingir. Um disco digno e bonito, mas nada que pudesse salvá-lo do ostracismo em que prossegue.

Tudo isso pode fazê-lo parecer um homem sem qualquer controle de seu destino, mas nada pode estar mais longe da verdade. A História ainda não fez justiça a George Michael como o artista que protagonizou uma das mais espetaculares viradas de carreira já vistas na Música Pop.

Entre 1983 e 1986, George era metade de um duo de technopop chamado Wham!, com o amigo Andrew Ridgeley. O fim da brincadeira foi sacramentado com o imenso sucesso de seu primeiro single solo, "Careless Whisper" (1986) e, pouco depois, com seu elogiado e premiado primeiro disco completo, Faith (1987), de onde saíram clássicos como "Father Figure", "Kissing a Fool" e a faixa-título. 25 milhões de cópias depois, ninguém estaria tão equivocado em pensar que George estava satisfeito da vida, mas ele cometeria uma tentativa de "harakiri comercial".

Primeiro, brigou publicamente com a gravadora Sony Music, onde dizia sentir-se "aprisionado a uma imagem de sex symbol heterossexual" e decretou que, dali em diante, queria ser reconhecido como compositor sério e afastar-se da imagem de bonitão rebolativo, que perdurava. Para tanto, lançou, no final de 1990, um disco maduro e ligeiramente sombrio, Listen Without Prejudice Vol. 1.

Embora tenha sido apenas o terceiro single a sair do álbum, a faixa mais icônica é, inegavelmente, "Freedom '90", em que ele narra a epopeia que foi sua vida/carreira e grita aos quatro ventos seu desejo de libertação. Rebeldia é isto: o astro, cujo rosto bonito sempre foi seu grande chamariz, simplesmente não aparece nos quase sete minutos do vídeo, dirigido por David Fincher. Em seu lugar, aparecem "cantando" as top models mais bonitas (e caras) da época: Naomi Campbell, Christy Turlington, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Linda Evangelista, além de dois modelos masculinos. Para completar, George literalmente explode ícones de seu passado recente: a guitarra e a jukebox que fizeram parte do clipe de "Faith", três anos antes. Mais rock & roll, impossível!

Acima, a capa de Listen Without Prejudice Vol. 1
o disco que revolucionou a carreira de George Michael.

Além disso, Listen... trazia, pelo menos, duas outras obras-primas: "Heal the Pain", em que ele se oferece para curar a tristeza de um amor desfeito, num letra incrivelmente romântica e otimista, com melodia simpaticíssima. Uma criação que coloca George Michael em justo lugar entre os gênios da canção romântica. A segunda é a faixa de abertura e primeiro single"Praying for Time", em que o desencanto com a humanidade ganha ares de desespero, enquanto George aceita que só mesmo o tempo pode curar certas "doenças" da sociedade. "Estes são dias de mãos vazias / Você se agarra ao que pode / E a caridade é só um casaco que você usa duas vezes por ano." Como ficar impassível diante de versos assim?

O disco foi um "fracasso", vendendo "apenas" oito milhões de cópias. Faith vendeu o triplo, é verdade, mas foi Listen... que sedimentou a trilha de George como dono dos próprios rumos, com tudo que isso trouxe de ruim (os problemas descritos nos primeiros parágrafos) e de bom (canções incríveis, como "Jesus to a Child", "Fastlove" e "Amazing").


Como eu, muita gente ainda deve torcer por um retorno de George Michael - se não às glórias da fama planetária, pelo menos, a alguma relevância no cenário musical e às composições infalíveis que caracterizaram seus melhores anos. Artistas com tamanha classe e ardente paixão pela boa música pop sempre fazem falta.

2 comentários:

Gerlande Diogo disse...

George Michael já escreveu seu nome na constelação da música pop, mas merecia continuar escrevendo.

doggma disse...

Tive contato apenas superficial com a vida e obra do homem. Mas a história da turnê chinesa do Wham! é sensacional, bem como a refeitura de "Somebody to Love" ao lado do Queen, pra mim a melhor das versões do tributo ao Freddie.

E fora isso, devo muito a ele pela "One More Try" onipresente nas festinhas americanas da pré-adolescência, quando a paquera rolava solta. Êh, tempos inocentes.

Abraço!