14/11/2016

Abra seu olho e veja


A tal "fórmula Marvel" é um assunto muito discutido internet afora. O mix de aventura e humor costuma agradar mais do que desagradar (ou os filmes não fariam centenas de milhões de dólares a cada lançamento), mas a tática dos Marvel Studios de nunca se aprofundar muito no desenvolvimento dos personagens ou tramas já começa a irritar a espectadores mais exigentes.

Doutor Estranho não é imune a críticas, uma vez que é um dos seus filmes com humor mais capenga. Algumas tiradas até funcionam, mas muitas são deslocadas ou, simplesmente, inconvenientes (como a reação de Wong, ao final da última batalha). Em que pesem as interrupções engraçadinhas, Dr. Estranho tem bom ritmo e acaba revelando-se um dos melhores filmes de origem da Marvel, além de expandir as fronteiras místicas de seu universo.

Se você nunca tinha ouvido falar do Dr. Estranho, não se sinta mal: o personagem nunca foi nenhum fenômeno de popularidade. Shamballa, de J. M. de Matteis e Dan Green, é a única HQ protagonizada por Stephen Strange que me recordo de ter lido, há mais de 20 anos (ainda assim, a verdade é que me lembro que li, mas não me lembro do que li). A propósito, o título está de volta às bancas, em relançamento pontual da Panini Comics.

A trama segue o que sempre me veio como a origem clássica do Mago: Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um cirurgião exímio e arrogante, para quem importa menos a salvação do paciente do que seu sucesso pessoal na execução. Egomaníaco de carteirinha, ele destrata a estranhos, colegas e a agora ex-namorada, a dra. Christine Palmer (Rachel McAdams). Ao sofrer um horrível acidente de carro, tem suas mãos (seus mais caros instrumentos de trabalho) esmagadas, além de qualquer recuperação ao alcance da medicina.

Sua busca por uma cura virtualmente impossível o leva, primeiramente, à falência; em seguida, ao Nepal, onde é acolhido como aprendiz da Anciã (Tilda Swinton), que o inicia nos segredos de coisas que Stephen, ao chegar, sequer acredita: energias e projeções espirituais, entidades cósmicas, universos alternativos...


Para incredulidade da Anciã e dos mestres Mordo (Chiwetel Ejiofor) e Wong (Benedict Wong), além da sua própria, Stephen revela altíssima afinidade com as artes místicas, tanta quanto já teve o antigo mestre Kaecilius (Mads Mikkelsen), que violou as leis naturais e aliou-se a forças malignas. Com ajuda de alguns discípulos, Kaecilius espera preparar a Terra para anexar-se à dimensão sombria. Cabe a Strange e seus aliados impedi-los.

Mesmo que Scott Derrickson não possa ser considerado um diretor com assinatura, ele não decepciona em entregar um blockbuster divertido e com visual psicodélico (as primeiras viagens astrais de Strange me remeteram à minha própria experiência com ayahusca, há quatro anos). Os efeitos visuais são incríveis, com a experiência de "dobras de realidade" de A Origem sendo elevada à enésima potência. Talvez seja prematuro cravar, mas me parece que já temos o vencedor do Oscar da categoria em 2017.

Salta aos olhos, também, o elenco acima da média, com óbvio destaque para Cumberbatch e Swinton. Os ataques de fúria de um e a serenidade extrema da outra encontraram o tom exato. A trajetória de desilusão do personagem de Ejiofor também ganha uma interpretação com boas nuances. Por outro lado, Mikkelsen me pareceu um tanto canastrão, e McAdams, apagada.

Até a primeira de suas duas cenas pós-créditos, Doutor Estranho funciona perfeitamente para quem nunca assistiu aos demais filmes do Universo Marvel (mas, fala sério, ainda existe alguém assim?). Nessa primeira cena, abre-se a porta para a participação de Strange em um filme de outro personagem. Na segunda, nasce o provável inimigo da segunda aventura do mago (ainda sem previsão de estreia, mas inevitável, diante do sucesso deste primeiro filme).

Cobrar mais "densidade" da Marvel pode até não fazer muito sentido, uma vez que seus filmes são produtos de escapismo assumidos, mas este filme, com suas breves discussões sobre o tempo e a mortalidade, dá um bom vislumbre de que o estúdio poderia - e deveria - arriscar-se um pouco mais. Algumas boas sacadas do roteiro são comprometidas pela incompreensível necessidade de encaixar piadas em momentos tensos. Esse negócio de dar ao público apenas o que ele (supostamente) quer pode prender os filmes numa espiral de previsibilidade que, com o tempo, talvez acabe afastando esse mesmo público, enjoado da mesmice. Doutor Estranho ainda conta pontos a favor da Marvel, mas talvez seja hora de alguém acender uma luz amarela.

24/09/2016

Velho amigo


Com minha decisão de só ler quadrinhos em encadernados, o período aqui conhecido como "DC e Você", logo após a Convergência, passou em brancas nuvens. A mão de comprar mix mensal chegou a tremer algumas vezes, principalmente porque o Batman de Scott Snyder parecia continuar bastante interessante, mas me segurei. 

Já no "superfront", desde 2011, houve dream teams a rodo (Grant Morrison e Rags Morales, Scott Snyder e Jim Lee, Geoff Johns e John Romita Jr., Clark e Diana no mesmo título), mas o fato é que nada disso me empolgou a ler Superman. Talvez devesse ter insistido um pouco mais, já que algumas histórias até parecem bacanas. Talvez eu compartilhe do sentimento de muitos outros leitores: essa coisa voando por aí, de armadura e gola vitoriana, simplesmente não é o Superman. 

Spoilers no parágrafo a seguir.

A DC, por mais que tenha tentado defender a iniciativa d'Os Novos 52, acabou apertando o "botão de pânico", que sempre manteve à mão. Com a oportunidade criada pela Convergência, trouxe de volta a versão pré-2011 do Superman, para secretamente coexistir com o do novo universo. Além disso, encomendou a morte da nova versão e, ao invés de simplesmente modificar tudo de volta ao que era antes, vem fazendo o antigo Superman reaprender seu lugar neste novo universo, testando seus laços com as versões mais jovens de seus velhos amigos. É uma ideia interessante - mas, da mesma forma que uma ideia ruim pode ser salva por uma boa execução, uma ideia aparentemente boa pode ser arruinada por mãos pouco hábeis. Veremos.

Fim dos spoilers.

Em um universo novo e estranho, o Clark Kent e a Lois Lane do universo pré-Novos 52 levam vidas secretas, sob nomes falsos, enquanto tentam criar o filho Jonathan* da melhor maneira que conseguem. Acontece que Lois não consegue deixar de ser uma grande repórter e Clark não consegue deixar de ser um herói. Enquanto ela investiga as atividades da Intergangue, ele realiza salvamentos mundo afora em segredo, acompanhando (nem sempre tão de longe) as façanhas dos demais integrantes da Liga da Justiça.

* Alguém me explica esse filho? Ele existiu oficialmente antes d'Os Novos 52? Eu não acompanhava Superman havia algum tempo.

Este encadernado compila os oito capítulos da minissérie Superman: Lois & Clark. Quem cuida dos roteiros é um grande entendedor do personagem: Dan Jurgens, o homem responsável pela já clássica A Morte do Superman, há mais de 20 anos. No lápis, outro veterano, que fez fama na Marvel: Lee Weeks.

O que eu digo a vocês? Foi como reencontrar um velho amigo! ESTE é o Superman que desejamos ver, o Superman que funciona! A patuscada intermidiática da DC, de querer empurrar pra cima de nós um Superman assemelhado àquele visto nos filmes do Zack Snyder, deslocado no planeta e emocionalmente distanciado dos humanos, deveria ser invertida com urgência: é no Superman de Lois & Clark, entre outros, que reside o espírito heroico que desejamos ver no cinema.

Mesmo enfrentando um inimigo poderosíssimo, o telepata Blanque (?), Superman não quebra pescoços, nem destrói cidades. Faz tudo conforme o Manual do Super-Herói Clássico, ainda achando tempo para ser bom marido e bom pai. O "superfilho", Jonathan, é um achado com potencial para ter seu próprio espaço na mitologia do personagem, a exemplo de Damien Wayne com o Batman - com a vantagem da simpatia natural de quem não foi criado por uma liga de assassinos.

Enfim, se você viu esse gibi nas bancas e ficou se perguntando se valia a pena, não perca mais tempo. Superman: Lois & Clark é tudo aquilo que nos tem sido negado há cinco anos: uma história do Superman para guardar e lembrar com carinho.

P.S.1: apesar da presença do Superman "falso", Batman/Superman: Dois Mundos, escrito por um Greg Pak inspirado, é um encadernado muito bacana, compilando as sete primeiras edições do título. O arco-título é desenhado por um Jae Lee absolutamente destruidor. A segunda história tem desenhos do restolho que atende por Brett Booth.

P.S.2: está acontecendo o advento chamado Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, mas eu me nego a sentar para escrever uma análise profunda de um gibi tão raso. Padece do mesmo problema que acometeu Grandes Astros: Batman & Robin: a história não anda - e, quando anda, não chega a lugar algum. Como já faz décadas que não sabemos o que é uma boa história nova de Frank Miller, não dá nem pra chamar de decepção.

Superman: Lois & Clark
Panini Comics - 196 páginas - R$ 25,90

31/07/2016

Um século de proezas


Meus sentimentos por Alan Moore são bastante ambíguos. 

Fora das páginas das HQs que escreve, costumo pensar nele como aquele velho ranzinza que, num bastante elogiável lapso de furiosa integridade, abriu mão dos direitos sobre algumas de suas obras mais aclamadas (mais notadamente, V de Vingança e Watchmen), mas, a exemplo de George Lucas em relação a Star Wars, sente-se no direito de dar pitacos sobre o que os novos donos devem ou não devem fazer com elas. Provavelmente, isso nem é culpa de Moore. Em busca de repercussão barata, a imprensa de entretenimento pop deve dar um sorriso maléfico a cada vez que pisa nos calos do velho eremita, reacendendo suas famosas picuinhas - especialmente, aquelas envolvendo a DC Comics.

Moore, entretanto, não é feito apenas de olhos pesados, barba e rancor. Recentemente, ele respondeu à carta de um leitor de apenas nove anos, fã de várias das obras que ele hoje renega, de maneira que revela bastante carinho, franqueza e respeito pela inteligência de um ser humano, mesmo em tão tenra idade. Ou seja, num pequeno intervalo entre trabalhos, Alan Moore criou uma peça de escrita pessoal tão memorável que, mesmo sem qualquer pretensão a tanto, deve adentrar a Eternidade. 

Em sua arte, porém, Moore é praticamente imbatível, sendo o mais próximo que existe de uma unanimidade entre os leitores de quadrinhos. Várias de suas obras gozam de reconhecimento geralmente dedicado a obras de literatura convencional, tamanho o esmero de sua narrativa e de seu trabalho de pesquisa, através do qual inunda as histórias com referências de diversos campos da arte e da ciência. Ler uma HQ de Alan Moore, mesmo o mais pop de seus títulos, é sempre uma experiência enriquecedora.

O emblema da Vertigo na capa de Tom Strong: A Origem é enganador. Moore escreveu as aventuras do centenário herói para o selo America's Best Comics (ABC), criado dentro da WildStorm especialmente para ele. Com a venda da WildStorm para a DC Comics (dona da Vertigo), Alan Moore encontrava-se, mais uma vez, respondendo à editora para a qual havia jurado nunca mais trabalhar. Desta vez, porém, a autonomia criativa de Moore foi assegurada e, na ABC, ele deu à luz alguns de seus "filhos" mais ilustres: A Liga Extraordinária, Promethea e este Tom Strong, no qual tem a companhia de artistas como Chris Sprouse, Gary Frank e Dave Gibbons, entre outros.

O personagem-título é uma espécie de amálgama do Superman com heróis pulp, como Tarzan e Doc Savage. São histórias onde se encontram aventuras em paisagens exóticas, ficção científica escapista, civilizações perdidas, nazistas e uma lista de referências talvez grande demais para uma resenha de HQ.

Tom Strong nasceu em Attabar Teru, uma ilha que não consta oficialmente dos mapas, no primeiro dia do século 20. Criado sob condições especiais, ele tem força, inteligência e longevidade sobre-humanas, além de grande simpatia e apelo popular: perto dos 100 anos de idade, Tom é o herói preferido das crianças de Millennium City, que leem sobre suas façanhas e se juntam em uma espécie de clubinho oficial, chamado Strongmen da América. Tom é um fenômeno pop e suas contribuições intelectuais transformaram a cidade em um oásis de progresso social e científico.

Como todo bom super-herói, Tom Strong tem seus oponentes ocasionais (máquinas sencientes, astecas extradimensionais, deuses cibernéticos) e um arqui-inimigo declarado: Paul Saveen, dado como morto quando começamos a acompanhar a saga. Tom também tem aliados: Pneuman, o primeiro ser mecânico inteligente, criado por seu pai; Rei Solomon, um gorila que teve seu cérebro aperfeiçoado pelo herói; por fim, sua esposa Dhalua e sua filha Tesla, moças com vocação para muita coisa, menos damas em perigo.

O gênio de Moore manifesta-se na comedida e bem-pensada atualização dos conceitos que povoavam as aventuras dos quadrinhos da primeira metade do século 20. Ao mesmo tempo em que modernizou algumas coisas para o paladar do leitor do século 21 que se aproximava, o escritor foi extremamente hábil em manter a aura aventuresca e escapista do período clássico. As ameaças que Tom Strong enfrenta costumam, em mãos menos talentosas, descambar para a paródia e canastrice. Isso não acontece aqui. Ainda que mantenham certa fanfarronice, os vilões revelam-se desafios à altura da virtual invencibilidade do herói. Na última história, por exemplo, o mais mundano dos desafios acaba sendo o maior de todos. Tom, porém, não poderia ser chamado de gênio se não tivesse soluções engenhosas para os apuros em que se mete.

Fico bastante feliz em ver a Panini em publicar esta série, neste formato e a preço acessível - quem já ouviu falar em pulp de luxo, afinal? Dá gosto de ver tão lindamente preenchidas lacunas como esta em meu currículo de leitor. Obviamente, existe um prazer muito grande na descoberta de um novo talento narrativo, e as opções na banca eram muitas neste sentido, mas, de vez em quando, nada melhor do que apostar no seguro. O nome Alan Moore é chancela de qualidade garantida.

Tom Strong: A Origem.
Edições originais: Tom Strong 1 a 7.
Panini/Vertigo - 212 páginas - R$ 27,90

21/06/2016

Palavra da salvação


Desafiar o sistema é, desde sempre, um dos motores da arte. Sempre que a liberdade se vê ameaçada, a Arte floresce com especial vigor, tanto em quantidade quanto em impacto. Não poderia ser diferente quando a Arte desafia o que é tido como sagrado - afinal, a religião ainda é, em diferentes partes do mundo, um rolo compressor que esmaga sonhos e sonhadores. O risco de derrubar conceitos sacrossantos de seu pedestal está no ato em si: é preciso muita sutileza para não resvalar no choque gratuito ou na ofensa pura e simples. A crítica não-fundamentada e que não oferece alternativa não passa, apelando a um termo muito em voga, de mimimi.

Daí, você ouve falar de uma série da Vertigo chamada Preacher. Nela, o pastor do título é possuído por uma entidade meio anjo, meio demônio e passa a ter o dom da Palavra Divina. Ele usa seu poder numa caçada ao próprio Deus, que está escondido na Terra, depois de abandonar o céu sem maiores explicações. Ao seu lado, uma namorada que já foi ladra e matadora profissional; e um vampiro junkie irlandês. Tudo muito profano, violento e escatológico, perigosamente próximo do choque gratuito e da ofensa pura e simples a serem desejavelmente evitados.


Não se engane, Preacher é, sim, chocante e ofensiva. É leitura que exige estômago forte e mente aberta. Estando avisado, uma vez que você desbrave os primeiros cinco ou seis capítulos, vai começar a perceber que existe uma grande história sendo contada pelo irlandês Garth Ennis, que vai muito além da mera desconstrução de dogmas. Subtraída a estética bagaceira, evidenciada em sangrenta glória na arte de Steve Dillon, resta muita crítica ao modo de vida norte-americano, denúncia de exploração da fé e de violência doméstica, uma história de amor e amizade das melhores e muito, mas muito mesmo, dedo na sua cara e na minha, por conta de nossas pequenas, médias e grandes hipocrisias. Preacher não faz concessões, nem prisioneiros.

A saga de Jesse Custer começa na pequena Annville, Texas, onde ele é um pastor brigão e beberrão, em plena crise com sua fé. Durante um sermão, seu corpo é tomado por uma entidade chamada Gênesis, filha do amor proibido entre um anjo e uma "demônia". A possessão lhe confere o dom da Palavra Divina: ao ouvir um comando de Jesse, ninguém é capaz de desobedecê-lo.


Você pode pensar que, com um poder assim, a missão que Jesse se autodelega (achar Deus e forçá-lo a voltar ao Céu e encarar suas responsabilidades) será uma moleza, mas, se assim fosse, não haveria história. Após reencontrar seu grande amor (Tulipa) e conhecer seu novo melhor amigo (o vampiro Cassidy), Jesse enfrenta bandidinhos e bandidões, inocentes úteis e inúteis, cultos mequetrefes e um megaculto que deseja causar o Armagedom para empossar um novo messias. A cada edição, somos apresentados a um novo degrau de baixeza humana e, mesmo assim, tudo parece muito crível e próximo: podia ser seu vizinho; podia ser seu parente; podia ser você.

Toda essa galeria de personagens espetaculares (Herr Starr, Santo dos Assassinos, Cara de Cu e tantos outros) e situações extraordinárias poderia não render tão bem, não fosse Garth Ennis um escritor exemplar, mascarando profundas discussões políticas, morais e existenciais com coloquialidade e palavrões. A sagacidade do texto de Ennis está em parecer tão simples e, ao mesmo tempo, revelar tanto refinamento, sob leitura mais atenta. Nem os mais longos balões ou recordatórios causam fadiga ao leitor, uma proeza a ser tomada como exemplo por qualquer um com ambições no campo das letras. Aliadas à arte de Dillon, as capas de Glenn Fabry (algumas, maravilhosamente repulsivas) ajudam a compor um imaginário visual histórico e inconfundível.


O melhor de tudo é que toda a odisseia de violência, absurdo, tristeza e alegria vivida pelos personagens tem serventia. Jesse, Tulipa e Cassidy chegam ao final do nono volume marcados, porém, transformados. Nos momentos finais do último capítulo, existem duas splash pages maravilhosas, uma linda e econômica síntese da única coisa que, ao fim de tudo, permanece inabalável - porque esta é, como dito antes, uma história de amor das melhores. Envolve 66 edições de sangue, tripas, balas e heresias, mas acaba com os maus punidos e os bons felizes. Não é assim que se constroem clássicos universais?

PREACHER
Garth Ennis e Steve Dillon
Panini Books / Vertigo Comics

Vol. 1: A Caminho do Texas
Vol. 2: Até o Fim do Mundo
Vol. 3: Orgulho Americano
Vol. 4: Histórias Antigas
Vol. 5: Rumo ao Sul
Vol. 6: Guerra ao Sol
Vol. 7: Salvação
Vol. 8: Às Portas do Inferno
Vol. 9: Álamo

10/06/2016

Jukebox Encantada #5


GOSSIP
MUSIC FOR MEN
(2009)

Um disco de apenas sete anos atrás, frequentando uma seção dedicada a clássicos? Questionar é seu direito, mas, antes disso, você precisa entender (e comprovar) que Music for Men, quarto álbum do Gossip, é cheio de predicados que o qualificam para a honraria.

Não lembro se foi por sugestão da Rolling Stone Brasil ou diretamente no YouTube, mas meu primeiro contato com a música do Gossip foi com a sétima faixa - e quarto single - deste disco, "Men in Love". Abria com uma contagem marcada em baquetas, seguida por um riff de baixo estalado, ganhando peso com a bateria funky e um fraseado de guitarra curto e agressivo. Quando a vocalista Beth Ditto abriu os pulmões, eu já estava conquistado, mas ela ainda me fez babar colorido. Era um troço meio punk e meio disco, que me prendia pelos ouvidos e não soltava por nada!

Como você sabe, a música digital praticamente destruiu o hábito de escutar álbuns do começo ao fim. Eu sou vítima dessa síndrome. Demoraria bastante até que eu ouvisse Music for Men como se deve: do começo ao fim, em sua sequência original de faixas. A bem da verdade, afirmo, sem muita certeza, que fazer isso enquanto escrevo este texto talvez tenha sido a primeira vez. 

Não que isso me desqualifique para comentar e recomendar faixas matadoras, como a sublime trinca de abertura ("Dimestore Diamond", "Heavy Cross" e "8th Wonder"), em que o produtor Rick Rubin mesclou peso e groove à perfeição. Os três primeiros discos do Gossip têm boas canções, mas o polimento de um produtor de primeira linha trouxe o equilíbrio entre doçura e selvageria que costuma catapultar promessas do rock ao estrelato. Semi-baladas perfeitas, como "Love Long Distance" (que brinca com um clássico de Marvin Gaye em sua letra), comprovam o potencial radiofônico da banda, enquanto o encerramento furioso, com "Spare Me From the World", acena ao seu passado garageiro.

Gossip: Hannah Blilie, Beth Ditto e Brace Paine.

Estamos falando de um disco com 12 faixas, cheias de refrões ganchudos, desses que a gente tem ímpetos de cantar junto, enquanto anda na rua, toma banho ou lava a louça. Music for Men nasceu clássico, com a andrógina imagem da baterista Hannah Blilie na capa, mas é o capricho pop de suas canções que justifica sua inclusão entre os grandes discos lançados na primeira década do século 21. É um daqueles discos que não se ouve impunemente: é impossível que seu corpo não reaja à pulsação da música do Gossip.

Não sei se por força da comparação ingrata com um disco tão bom, senti que seu sucessor não chegou nem perto do brilhantismo alcançado aqui. A Joyful Noise permanece como um disco a ser redescoberto, mas, lá em 2012, me pareceu indigno de pleitear igualdade com o neoclássico anterior. 

Para minha tristeza, em meio à procura por informações sobre um possível novo álbum da banda, descobri que ela foi desfeita no começo deste ano. Desconheço as razões e, sinceramente, me importo muito pouco em descobrir. O que sei é que, sempre que puser este disco pra tocar, vou lamentar o fato de que o Gossip não teve oportunidade para desafiar seu próprio auge criativo.

Gossip - Music for Men
Lançamento: 19 de Junho de 2009.
Produção: Rick Rubin.

01 - "Dimestore Diamond"
02 - "Heavy Cross"
03 - "8th Wonder"
04 - "Love Long Distance"
05 - "Pop Goes the World"
06 - "Vertical Rhtyhm"
07 - "Men in Love"
08 - "For Keeps"
09 - "2012"
10 - "Love and Let Love"
11 - "Four Letter Word"
12 - "Spare Me From the World"

08/05/2016

Os que chegam com a noite


Com sua cota de pequenas obras-primas e grandes decepções, a coleção Graphic MSP rompeu a marca das dez edições como uma das mais sólidas novidades do quadrinho nacional. Claro, tudo isso tem muito a ver com a "grife" Maurício de Sousa e o imenso amor que suas criações têm despertado há mais de 50 anos. Agora que o potencial comercial está mais que confirmado, a responsabilidade da MSP é garantir roteiristas e artistas cada vez melhores e assegurar a sobrevida da coleção por mais dez edições e além.

Papa-Capim: Noite Branca, a 11ª, é um bom esforço neste propósito. A dupla responsável pela transposição das aventuras do indiozinho, criado por Maurício em 1963, foi muito bem escolhida. O consagrado Renato Guedes (Superman, Constantine) empresta seu traço leve e realístico para dar forma e força à trama, com elementos de terror, conduzida com habilidade por Marcela Godoy (Liah e o Relógio).

Havia um grande risco de fracasso em adaptar Papa-Capim aos olhos adultos - um risco que se ampliava com a opção de retirar da histórias os elementos cômicos (ainda está fresca, na memória, a enorme decepção com Turma da Mata: Muralha). Para nosso alívio, não houve sacrifício da essência do personagem. O medo e o perigo de morte existem para Papa-Capim, mas a história de Godoy os coloca a serviço de seu amadurecimento (ritos de passagem e purificação são, afinal, um tema caro à mitologia indígena).

Existia, ainda, a possibilidade de cair no ridículo dos estereótipos sobre os nativos, mas a história não os trata, em momento algum, como coitados ou exóticos. A crítica social está presente, mas não é panfletária, nem toma o centro da história. Talvez seja este cuidado com o que realmente importa (fazer uma história que possa levar um adulto à reflexão, mas que ainda possa divertir uma criança) que tenha tornado este volume uma leitura tão agradável.


Resumidamente, a trama coloca Papa-Capim contra uma ameaça sobrenatural que paira sobre sua aldeia. Suas piores suspeitas se confirmam, mas os adultos parecem ignorar seus avisos. Com a ajuda de seu amigo Cafuné, ele espera salvar os aldeões, especialmente a Jurema que tanto lhe encanta. Papa tem a chance de obter ajuda contra o terror da noite, mas isso significa entregar-se a uma experiência assustadora.

Não é uma HQ para se ler com medo (como chega a cogitar Maurício, na introdução), mas é boa diversão e traz surpresas interessantes. É uma história honesta, bem contada e, diga-se de passagem, com grande potencial para adaptação ao cinema. Não alcança as rarefeitas altitudes de Laços e Lições, da Turma da Mônica, mas merece estar sentada apenas algumas nuvens abaixo, em lugar seguro e confortável. Ainda bem. Com a quantidade absurda de títulos publicados hoje em dia, errar na compra de uma HQ é um luxo a que muitos (eu, inclusive) não podem se dar. Papa-Capim: Noite Branca é, felizmente, uma flechada certeira.

30/04/2016

Cicatrizes de Guerra


Analisando friamente, o imenso cemitério de promessas não-cumpridas chamado Batman vs Superman: A Origem da Justiça é apenas reflexo do que acontece na própria DC Comics: um panteão inigualável de heróis e vilões, sofrendo em "revoluções" meia-boca a cada doze meses nas HQs e em filmes que cedem ao peso da "genialidade" de executivos da Warner, pessoas que parecem não entender da sétima ou da nona arte, muito menos como combiná-las. Até quando será possível gabar-se das glórias da trilogia de Christopher Nolan com o Batman?

Capitão América: Guerra Civil é o mais espetacular chute no traseiro que a DC/Warner um dia sonhou que pudesse levar. É uma verdadeira aula de cinema de ação, elevando ao cubo o já alto padrão obtido pelos irmãos Anthony e Joe Russo em Capitão América: O Soldado Invernal (2014) e apontando um rumo novo e dramático (pero no mucho) para os principais personagens dos Marvel Studios. Batman vs Superman pode ter feito boa carreira nas bilheterias (mais por conta da expectativa gerada do que por méritos artísticos), mas suas pretensões como filme-evento do ano estão oficialmente sepultadas desde quinta-feira passada.

Enquanto nas HQs a Guerra Civil (escrita em 2006 pelo escocês Mark Millar) começa quando uma creche é explodida por um supervilão série C (Nitro, alguém?), no filme, o motivo é o rastro de destruição deixado a cada vez que os Vingadores salvam o mundo (incluindo uma nova e desastrosa missão na Nigéria). Nos quadrinhos, a luta é pelo registro das identidades secretas dos superseres. No filme, isso não faria sentido, já que o elenco atua sem máscaras. Em vez disso, temos o Tratado de Sokóvia, proposta que torna os Vingadores uma força-tarefa a serviço das Nações Unidas. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) aceita. O Capitão América (Chris Evans) rejeita.

O conflito ideológico não tarda a descambar para a violência física quando o Soldado Invernal (Sebastian Stan), foragido após os eventos do filme anterior, é acusado por um atentado a bomba contra a ONU. Recusando-se a acreditar que o amigo tenha cometido o ato, o Capitão parte em sua defesa. Com ele, estão o Falcão (Anthony Mackie) e a Feiticeira Escarlate (Elisabeth Olsen). Ao lado do Homem de Ferro, estão Máquina de Combate (Don Cheadle) e uma hesitante Viúva Negra (Scarlett Johansson). Com propósitos opostos, os dois times saem no encalço do Soldado, ganhando importantes acréscimos ao longo do filme.


A primeira coisa que chama atenção é a qualidade dos efeitos especiais, que tornam naturais as mais improváveis proezas físicas, e das elaboradíssimas coreografias de lutas. Embora não se veja muito sangue, existe uma "tensão pré-morte" permeando todo o filme e dá pra gente "sentir" o peso e a violência de cada golpe. Também merece crédito a espantosa versatilidade das asas do Falcão, transformando cada aparição sua em um show à parte. Como nos quadrinhos, Sam Wilson mostra-se o parceiro perfeito de Steve Rogers.

Há um ótimo equilíbrio na participação de todos os heróis envolvidos, com todos tendo momentos cruciais. Além dos já citados, temos ainda o Visão (Paul Bethany), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), o Homem-Formiga (Paul Rudd) e as esperadas adições de Pantera Negra e Homem-Aranha. O soberano de Wakanda é a presença mais ágil, vigorosa e impressionante, mostrando que Chadwick Boseman está apto para um filme só seu. Já Tom Holland entrega o melhor Homem-Aranha já visto nas telas, simples assim. A cena em que é convocado pelo Homem de Ferro rende as situações mais divertidas do filme. Do Homem-Formiga, durante a longa e empolgante batalha no aeroporto de Leipzig, vem a maior das surpresas.


Por mais que pareça mais um filme dos Vingadores, o roteiro necessariamente privilegia o conflito entre o Capitão e o Homem de Ferro, num crescendo dramático que atinge o ápice quando Stark descobre uma dolorosa verdade sobre seu passado. Cada duelo provoca as reações e reflexões do espectador, mas este é o momento em que mais nos perguntamos: "e se fosse comigo?" Durante todo o filme, as ações dos heróis e as consequências de sua falibilidade são discutidas com surpreendente consistência.

Capitão América: Guerra Civil é um filme de super-heróis porque desejamos chamá-lo assim. Na verdade, trata-se de um thriller sagaz e comovente, um filme de gente grande, conduzido com maestria. Dificilmente vai emplacar alguma indicação ao Oscar fora de categorias técnicas, mas não seria por falta de merecimento do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely ou da direção assombrosamente segura dos Russo. A última vez que me senti assim foi há oito anos, quando assisti a Batman: O Cavaleiro das Trevas. Como em 2008, sinto que hoje presenciei uma gigantesca quebra de paradigmas. Se já vai ficar difícil para a própria Marvel fazer melhor, o que dizer da DC/Warner, coitada...

09/04/2016

Baú do Vexame, Parte 1 - Pirralho salgado à milanesa


A primeira lembrança que eu tenho de Salvador é uma mistura de traquinagem com insanidade e caipirice. Imagino que eu devia ter nove, talvez dez anos.

Na minha infância, em Feira de Santana, eu tinha problemas respiratórios que, volta e meia, levavam-me a nebulizações emergenciais. Certa vez, a prima de uma amiga de minha mãe gentilmente ofereceu-se para me hospedar em Salvador e levar-me a um médico de lá, "passeio" este de que não me lembro.

Minhas únicas lembranças desse dia são do quanto era grande a cabeça do filho dessa senhora - isso, vindo de um cara cuja cabeça parece uma abóbora de halloween, dá ideia da proporção - e do meu primeiro, rapidíssimo e arriscadíssimo banho de mar.

Acho que era na Pituba, na Praça de Nossa Senhora da Luz, o apartamento onde eu estava. O mar se estendia, lindo e azul, pela vista da janela do sei-lá-qual andar. Eu podia ter proposto a um adulto da casa que me levasse à praia. Eu podia ter chamado o garoto cabeçudo pra ir comigo, mas, não. Eu fui só. Eu, garoto de bairro, então ainda periférico, de uma cidade do interior, atravessei uma avenida de capital à beira-mar, disposto a ter meu primeiro encontro com as salgadas águas de Iemanjá.

Entenda o tamanho da encrenca: além de não conhecer Salvador, estar sozinho e não ter avisado a ninguém da minha aventura, eu nunca soube nadar, exceto na modalidade "bigorna". Mesmo assim, fui e não tive medo de me meter na água (que, felizmente, não estava em um dia particularmente furioso), de short e camiseta, mesmo. Do meu lado, um garoto qualquer seria a vítima de minha desajeitada tentativa de contato humano: "água salgada da porra, né?"

Poucos minutos depois, diante do receio de ser descoberto em minha travessura, eu fiz o que qualquer "meliante" discreto faria, só que não: voltei ensopado para o edifício, com o porteiro dirigindo olhares fulminantes a mim, além de alagar e deixar areia no elevador. 

Dane-se. Eu tinha ido à praia em Salvador. Sozinho. Com aquela idade, isso equivalia a vencer na vida - e eu venci, bitches!

24/03/2016

Sob o jugo do Superdiretor


Sem saber, hoje, eu devo estar doente, mal-humorado ou, simplesmente, desconectado do meu tempo. Por mais boa vontade que houvesse em meu peito ao entrar na sala de cinema, sinto que Batman vs Superman: A Origem da Justiça está longe de ser a redenção definitiva da DC/Warner nas telas, em seus planos de igualar ou superar os Marvel Studios.

Pode ser que assisti-lo em versão dublada tenha contribuído para a má impressão, mas, em nível consciente, os problemas que enxergo são outros. O maior deles, responsável por boa parte dos outros, chama-se Zack Snyder.

Ao contrário do que li pela internet, na ocasião da pré-estreia do filme, o diretor não parece ter aprendido muito desde O Homem de Aço (2013) e repete muitos de seus erros aqui: edição impaciente (embora o filme seja longo), escuridão excessiva, destruição em larga escala e raios, muitos raios, raios demais!

Batman vs Superman: A Origem da Justiça abre com uma nova versão da origem do Batman e, olha, vou ser franco: a gente não precisava de mais essa. Ela termina de um jeito bem pirado - disso, eu gostei. Felizmente, não quiseram recontar a origem do Superman e isso nos salvou de mais déjà-vu em câmera lenta.

Os eventos de O Homem de Aço são revisitados, mostrando que Bruce Wayne estava em Gotham City e tentava desesperadamente salvar os funcionários de sua empresa, vitimados pelo conflito entre Superman e Zod. Longe de aposentado, o Batman (Ben Affleck, muito bem no manto) já tem 20 anos de carreira e não alivia. É elogiável a agilidade do personagem e as demonstrações práticas de sua "foditude": ele toma facada no pescoço e até tiro à queima-roupa na cabeça e o capuz o protege de tudo, como nos quadrinhos. Suas brigas foram as mais caprichadas do longa.

Entretanto, as cenas de perseguição são péssimas, devido à escuridão e aos cortes malucos nas cenas. O Batmóvel e o Batwing tornam-se praticamente indistinguíveis em meio a tanto preto e travelings de câmera exagerados. Não me pergunte se eles ficaram legais, porque eu não consegui ver para saber.

Alguém que parecia caminhar para ser um dos maiores problemas do filme surge como um autêntico trunfo: o Lex Luthor histriônico de Jesse Eisenberg é uma figuraça, uma interessante revisão do personagem, e revela-se um estrategista exemplar: é dele o plano (executado com maestria) que alimenta a animosidade entre os dois heróis. O Alfred insolente de Jeremy Irons é outro sopro de ar fresco, num filme tão sisudo.


Outro acerto do filme é a Mulher-Maravilha. Seu tempo em cena é curto, mas cada aparição sua inspira, com o devido perdão pelo trocadilho, maravilhamento. Sexy sem ser vulgar em roupas de gala, segura sem ser babaca em trajes de batalha, Gal Gadot revelou-se uma excelente escolha. Bônus: ela dá uma volta no Batman, sem fazer força.

O Superman (Henry Cavill) tem boas cenas de ação, mas não é aqui que perde a fama de arma de destruição em larga escala. Nada que se compare ao que foi visto em 2013, mas ainda muito imprudente para quem é visto como o maior herói do planeta.

A esperada briga com o Batman já é muito impactante, considerando que o filme terá uma já anunciada versão mais violenta para blu-ray e download. É aquilo que quem leu os quadrinhos já sabe: com tecnologia e kryptonita, o Batman esfrega o chão com a cara do Superman, mas o Super não perde nenhuma oportunidade de socar pesado a fuça do Morcego.

Está tudo bem, então? Não, não está, e a culpa é do diretor. Snyder pesa com força a mão no uso de flare - os raios, saca? - e de travelings malucos (provando que ele não é um "poeta visual" nível Peter Jackson). Tudo parece corrido e empoeirado demais, o que quase compromete o ápice do filme: o momento em que Batman, Superman e Mulher-Maravilha se reúnem contra Apocalypse. Mas é tão legal ver os três em cena, que, vá lá, relevemos. A trilha sonora tonitruante (de Hans Zimmer) causa estranheza inicial, mas vai ganhando personalidade.

Como todo mundo também já sabe, aqui são plantadas as sementes dos próximos filmes da DC, em especial os dois longas da Liga da Justiça, com breves (e criativos) lampejos de Flash, Aquaman e Cyborg. O final vai dividir opiniões, mas era necessário que fosse daquele jeito. 

Não deixo de imaginar o quanto este filme poderia ter sido melhor, caso estivesse nas mãos de um diretor mais hábil. Enxergo Zack Snyder, hoje em dia, como o equivalente no cinema de Geoff Johns nos quadrinhos: alguém cuja fama foi alcançada com talento e bons trabalhos inicias, mas que agora é mais famoso por ser famoso do que por entregar bons produtos.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça vale o seu ingresso, mas não pretenda sair do cinema com a vida transformada. Se há algo bastante visível aqui, é o tamanho da oportunidade perdida. Vai fazer muita grana, claro, mas perdeu-se a chance de fazer História.

23/03/2016

Pequeno Dicionário Idiossincrático, Parte 2


A
Acidentes - Marcone, meu irmão do meio, já quebrou o mesmo braço duas vezes e quase virou tira-gosto de leão de circo. Na infância, novidade era o dia em que ele não aparecia arrebentado de algum jeito. Já eu, o rei da prudência (ou seja, um adolescente bundão), cometi apenas a proeza de quebrar a clavícula numa ridícula trombada de bicicleta. Alguém normal se aproveitaria da situação e ficaria ainda mais dengoso, mas eu... Bom, eu fiz bem isso, mesmo.

C
Cerveja - Minha atual rotina de "rato de academia" não combina com bebedeira, mas este não é o único motivo para eu estar bebendo cada vez menos. Eu, simplesmente, não gosto mais da sensação de embriaguez e, menos ainda, de ter ressaca. É verdade que dá pra beber sem ter ressaca e eu até já aprendi uns macetes, mas, hoje em dia, odeio estar fora do controle. Ainda tomo umas, mas minha "linha de chegada", que antes era de maratonista, agora corresponde ao trajeto de comprar pão.

E
Erudição - Acho importante possuir uma boa cultura geral. Pode ser que isso não ajude você a ganhar mais dinheiro ou a transar (se você quer mesmo saber, ajuda, sim), mas sentir-se excluído de uma conversa é muito ruim. Não precisa ser erudito (e eu não sou). Saber um pouco sobre muitas coisas é melhor do que saber tudo sobre uma coisa só. Por exemplo: em uma aula, se faço uma pergunta sobre datas, lugares ou nomes históricos, geralmente ouço réplicas do tipo, "Pra que eu preciso saber disso?". No entanto, quando falo desses assuntos, as mesmas pessoas perguntam: "Poxa, como é que você sabe tudo isso? Queria ser assim!". Vai entender.

P
Plantas - Acho lindo quando alguém sabe cuidar de plantas e enche a casa de verde. Infelizmente, acho que só terei "dedo verde" se contrair alguma doença hepática. Não tenho paciência, disciplina ou disponibilidade para memorizar quais plantas podem ou não tomar sol, em quais horários, se é pra regar muito ou pouco, podar, limpar folha, trocar vaso... Na dúvida, não deixe aquela sua orquídea premiada sob meus cuidados.

S
Sexo - Acho que sou um alienígena quando o assunto é sexo. Não vejo graça nessa coisa de "apimentar a relação", porque meu pinto não é acarajé. Todos esses artifícios que as pessoas costumam usar pra "esquentar as coisas" costumam me dar apenas tédio e vergonha alheia. Máscara, chicote, fantasias, óleos, velas... Porra, sexo é instinto, o bom nessa hora é o cheiro do corpo (desde que a devida atenção seja dada à higiene corporal, claro). Sou caretaço: dois é ótimo, três já é multidão. Aprecio bastante o conforto de uma boa cama, também. Mas, não, a criatura quer transar num cavalo branco (oi?)! Quer uma posição acrobática! Quer passar leite condensado no meu pinto! Quer cagar no meu peito! Ôxe, sai pra lá, diabo!

12/02/2016

Você está convocado!


Embora tenham perdido boa parte de seu prestígio editorial para Os Vingadores, os X-Men continuam muito populares, a ponto de o núcleo de protagonistas ocupar nada menos que quatro títulos diferentes quando começou o evento Marvel NOW!, em 2013. 

Outra prova de seu valor está no destacado time de escritores: Simon Spurrier (vindos dos notórios títulos britânicos 2000 A.D. e Juiz Dredd) em X-Men: Legacy; Brian Wood (de ZDM e Vikings, da Vertigo) em X-Men; e o mais famoso deles, um dos arquitetos do que a Marvel se tornou ao longo dos últimos 15 anos, Brian Michael Bendis (de Demolidor e Vingadores) tomando conta de dois títulos, All-New X-MenUncanny X-Men.

É este último que tem reunidos neste volume suas cinco primeiras edições. Fabulosos X-Men - Revolução traz a equipe montada por Ciclope após os eventos da minissérie Vingadores vs. X-Men, ao fim da qual, possuído pela Força Fênix, Scott Summers matou o professor Charles Xavier. Com o fim da possessão, ele foi resgatado por Magneto e Magia, reunindo-se posteriormente a Emma Frost. Mesmo com seus poderes oscilando perigosamente, os quatro assumem a tarefa de proteger mutantes, em todo o mundo, do ódio e da perseguição.

Os uniformes da equipe parecem refletir essa disfuncionalidade. Ciclope usa um visor em X que se estende por todo o elmo, mas parece cobrir sua visão exatamente onde os olhos parecem estar. Um Magneto calvo e de roupas brancas usa um capacete ainda mais fechado que antes, lembrando a mim daquele usado por Sauron, nos filmes de O Senhor dos Anéis. Emma Frost, a Rainha Branca, agora traja preto da cabeça aos pés. Por fim, Magia carrega consigo uma espada que parece maior do que ela própria.

Apesar disso, preciso dizer que amo esta capa. Tudo nela, do desenho ao logotipo, além da equipe em si, carrega urgência política e perigosa beleza.

Tendo feito o que fez, Ciclope tornou-se, naturalmente, persona non grata para as demais equipes X e para gente como a SHIELD e os Vingadores. Todavia, isto não o intimida. Em Revolução, ele é o rosto do orgulho mutante, viralizando sua mensagem pela internet, inspirando jovens perseguidos por sua natureza a resistirem à opressão e assumirem o controle das próprias vidas. Alguns deles, como os novatos Christopher Muse (Triagem) e Eva Bell (Tempus), já acompanham o grupo em suas missões.

Muitos anos atrás, quando eu ainda acompanhava seu trabalho com regularidade, pareciam existir dois Brian Michael Bendis: um que era capaz de deixar personagens imóveis por páginas, tendo as conversas mais complexas, e, ainda assim, ser divertido e nada pretensioso; e outro que primava pela preguiça, apelando a pingue-pongues verbais superficiais e irritantes. Este aqui parece um terceiro, conseguindo um bom equilíbrio entre ação e reflexão, honrando a tradição que o título sempre teve de defender os excluídos. Seus afiados diálogos sobre questões de direitos civis encontram reflexo na conturbada realidade à nossa volta. Quando trata de relacionamentos, Bendis é irônico e sagaz, mas, com leveza.

Este primeiro volume termina com um gancho abrupto, levando a equipe a terreno místico. Nos parcos extras, rabiscos do artista Chris Bachalo revelam que ele teve umas ideias bem ruins para os uniformes, que, felizmente, foram rejeitadas. Bachalo desenha as quatro primeiras histórias de maneira bem mais agradável do que minhas últimas lembranças de sua arte. A quinta parte tem os sempre bons desenhos de Frazer Irving (Sete Soldados da Vitória).

Um recomeço muito promissor para personagens cuja relevância parece variar ao sabor das turbulências sociais. Com tudo que tem acontecido no Brasil (racismo na internet, a luta pelos direitos dos gays, o enfrentamento do machismo endêmico) e nos Estados Unidos (as mortes de cidadãos negros nas mãos de uma polícia cada vez mais violenta e instável), parece que Fabulosos X-Men é um título totalmente conectado ao seu mundo e ao seu tempo. Junte-se à Revolução!

Fabulosos X-Men - Revolução
Panini Comics - 124 páginas - R$ 26,90

09/02/2016

Teste dos 20 Anos - 1996

Um ano de transformações. Em 1996, eu vivi uma montanha-russa de experiências e emoções. Sucesso e fracasso profissional quase simultâneos, mudanças de endereço planejadas e inesperadas, autodescobertas importantes. "Intenso" é apelido.

Na música brasileira, foi a hora do batismo de fogo das bandas que surgiram entre 93 e 94. Era mostrar a que veio ou abraçar o ostracismo. Você talvez estranhe a ausência de alguns discos gringos importantes, como Odelay (Beck), Murder Ballads (Nick Cave & The Bad Seeds) e Pinkerton (Weezer), mas estes foram discos que só ouvi anos depois. Outros, como Load (Metallica) nunca foram devidamente degustados.

Nesta lista, foi alcançado um adequado equilíbrio entre discos brasileiros e estrangeiros, uma prova de que vivíamos tempos bem mais interessantes por aqui.

Ficou assim:


CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI
AFROCIBERDELIA



Foi amor à primeira vista?
NADA na música brasileira daquele ano era tão ambicioso, diferente e empolgante quanto o segundo disco dos pernambucanos, uma obra para a qual faltavam (ou se confundiam) adjetivos. Eletrônica, distorção e percussão de maracatu, dando à luz um som igualmente moderno e reverente às suas raízes. A produção do croata Bid reforçou o peso das alfaias e da guitarra de Lúcio Maia. Bateu forte e rodou muito no meu player. Pena que Chico Science nos deixaria menos de um ano depois de lançar este disco.

Ainda rola gostoso?
Afrociberdelia é um disco conceitual longo, mas nem por isso excessivo, até hoje fluindo com ritmo invejável. Seus únicos pecados são os três dispensáveis remixes de "Maracatu Eletrônico". Em comparação com a Nação Zumbi comandada por Jorge du Peixe, parece bem mais ágil, agressiva e articulada - e era, mesmo. Sem querer desmerecer tudo que a NZ alcançou sem Chico, sinto muito que não tenhamos visto mais de um cara que estava apenas começando e já era um gênio com tamanha personalidade.


COWBOY JUNKIES
LAY IT DOWN


Foi amor à primeira vista?
Eu já amava esta banda desde sempre e este disco apenas ampliou o sentimento. Parece um catálogo das coisas que eu mais curtia neles: o romantismo desenfreado e as afiadas observações do cotidiano das letras de Michael Timmins alcançavam um refinamento refletido no som da banda, mais acústico e menos "caipira" que em disco anteriores. Virou meu disco preferido dos canadenses e referência de como escrever sobre amor sem parecer banal.

Ainda rola gostoso?
Sim, embora eu o escute bem menos hoje em dia. Faço isso enquanto escrevo este parágrafo e, cara, se posso resumir o que sinto, digo que este disco me faz bem. Sem mencionar que, da faixa 4 ("Hold on to Me") à 10 ("Musical Key") temos algumas das melhores letras já escritas sobre o amor, seja ele romântico, fraterno ou parental. Da capa ao som, tudo em Lay It Down é muito bonito, sagaz, tranquilo e preciso. Um disco para se ter como objeto de culto.


DANIELA MERCURY
FEIJÃO COM ARROZ


Foi amor à primeira vista?
Eram os anos da ascensão do É o Tchan e domínio da axé music em geral. Não me surpreendia que, somente devido às origens de Daniela, este disco estivesse sendo jogado no mesmo balaio de tantas coisas de qualidade duvidosa. Era música baiana, sim. Era música pra dançar atrás do trio elétrico, sim. Só que não era música de "linha de produção". Era criteriosa e variada, muito bem tocada, arranjada e cantada. Nasceu clássico.

Ainda rola gostoso?
Mesmo que Daniela até hoje encha o saco com esse micado papo de ser "a branquinha mais neguinha do Brasil", ninguém vai negar que Feijão com Arroz ainda é um discaço. Tem samba reggae ("Minas com Bahia", "Dona Canô Chamou"), baião ("Feijão de Corda"), samba de roda ("Bate Couro"), funk ("Musa Calabar") e balada romântica ("À Primeira Vista"). Se for para ignorar tanta variedade e pedir a Daniela que abrace o rótulo de axé music, arrisco dizer que ela cometeu o melhor disco do gênero. 


FUGEES
THE SCORE


Foi amor à primeira vista?
Eu nunca fui muito de escutar rap, mas The Score chegava puxado por duas versões de clássicos: "No Woman No Cry" (Bob Marley) e "Killing Me Softly" (Roberta Flack), sendo que nesta última sobressaía a belíssima voz de Lauryn Hill. O trio era completado pelo haitiano Wyclef Jean e pelo americano Pras. Comprei o CD e, nas demais faixas, me agradou a variedade de batidas e samples, assim como a musicalidade do rap de Wyclef e Lauryn. Pras nunca me desceu bem, parecia que ele só servia pra trazer café pros dois gênios.

Ainda rola gostoso?
Apesar de claramente datado, ainda me agrada ouvir The Score. Faixas como "How Many Mics" "Zealots", "The Beast" e "The Mask" servem como crônicas da barra-pesada e como aulas de como samplear bem. As versões ainda funcionam, a de Marley com ampla vantagem. Dois remixes de "Fu-Gee-La" ajudam a tornar o disco comprido demais, um mal típico da época. Chato mesmo, porém, é que, nestes 20 anos, o grupo nunca tenha se reunido.


OS PARALAMAS DO SUCESSO
9 LUAS


Foi amor à primeira vista?
"Uma Brasileira" (faixa do EP de inéditas que acompanhava o ao vivo Vamo Batê Lata, de 1995) já dava a pista: os Paralamas estavam dispostos a deixar pra trás o experimentalismo de Severino (1994) e abraçar de novo a mistura de pop, reggae e brasilidade que os consagrou. Deu muito certo: "Loirinha Bombril" foi uma das músicas mais tocadas do ano e o disco todo descia redondinho, que era uma beleza.

Ainda rola gostoso?
Ô, e como! Assim como outro gênio do pop, Lulu Santos (autor da gostosa "Outra Beleza"), Herbert Vianna sabe como poucos falar de coisa séria através de música divertida. Além disso, segura firme o volante nas curvas onde muita gente despenca no abismo da banalidade, principalmente ao falar de amor. Até autoajuda, com ele, fica inteligente e divertida ("Seja Você"). Se você tem 38 minutos pra se divertir, coloque este disco pra tocar e seja feliz.


R.E.M.
NEW ADVENTURES IN HI-FI


Foi amor à primeira vista?
Depois do susto que foi Monster (grandes canções envoltas em uma tempestade de distorção) e dos traumas que o sucederam (a crise de hérnia de Michael Stipe, o aneurisma que afastou Bill Berry da bateria), o R.E.M. juntou os frutos das sessões gravadas entre os intervalos da turnê. O resultado foi um álbum bonito, solene e empoeirado, como os melhores road movies. Não colava no ouvido de primeira, como Out of Time (1991), mas revelava novas belezas a cada audição.

Ainda rola gostoso?
Você ainda precisa perguntar isso sobre um álbum que contém a ensolarada "Electrolite", a épica "Leave", a perfeição indie rock de "Bittersweet Me" e o monolito atemporal "E-Bow the Letter"? Sabe o que eu disse sobre belezas ocultas? A magia ainda acontece 20 anos depois e não me vejo deixando de curtir este e outros discos perfeitos que o R.E.M. legou para a humanidade. Afinal, a banda, infelizmente, nem existe mais.


SKANK
O SAMBA POCONÉ


Foi amor à primeira vista?
Se você não estava em Marte em 1996, certamente ouvia "Garota Nacional" em toda parte, diversas vezes ao dia. O Samba Poconé multiplicou o sucesso de Calango (1994) e transformou o Skank em febre nacional. Não satisfeitos, ainda emplacaram "É uma Partida de Futebol" (que gerou uma longa e enjoativa associação da banda com o esporte) e "Tão Seu". Eu curti, claro, mas achava o disco anterior melhor; sentia que O Samba tinha um ritmo irregular e algumas canções pouco simpáticas.

Ainda rola gostoso?
Eu já quase não ouço este disco, porque fiquei saturado das duas músicas de maior sucesso e porque não tenho paciência para o chacundum do dancehall por cerca de uma hora (embora eu deva admitir que "Tão Seu" continua sendo uma grande canção pop romântica). Ainda bem que, a partir do álbum seguinte, o Skank soube reinventar-se para sobreviver.


TIMBALADA
MINERAL


Foi amor à primeira vista?
O axé estava em alta e a Timbalada sempre foi diferenciada, a coisa mais próxima que tínhamos de um verdadeiro movimento artístico. Carlinhos Brown dava à banda algumas de suas melhores canções e não foi diferente desta vez. O começo era arrasador: "Formigueiro", "Minha História", "Maré Mansa", "Meia Hora", "Água Mineral" (a mais feia delas e a de maior sucesso, vai entender...). O carismático (e problemático) Xexéu ainda estava na banda, assim como Ninha e Patrícia, num repertório com samba de roda, forró e, obviamente, muita "música pra pular brasileira".

Ainda rola gostoso?
Menos que antes, mas se este disco começa a tocar, geralmente conta com minha boa vontade pra rolar até o fim. "Água Mineral" é uma bobagem que destoa do capricho romântico da maioria das músicas, mas é rápida demais pra incomodar. Hoje em dia, somente o responsável e versátil Denny Denan canta na banda, cujo repertório se recicla cada vez mais devagar. 


THE WALLFLOWERS
BRINGING DOWN THE HORSE


Foi amor à primeira vista?
"6th Avenue Heartache" é uma das músicas mais bonitas dos anos 90 e isso já parece muita coisa, mas este segundo disco da banda de Jakob Dylan (filho de Bob) parece uma coletânea, tamanha a qualidade das canções, perfeitamente equilibradas entre o folk, o southern rock e o pop. Um desses discos que dão gosto escutar de ponta a ponta. "Three Marlenas" foi o outro hit, com um clip que chamou atenção pelos efeitos especiais.

Ainda rola gostoso?
Se "inenjoável" fosse uma palavra de verdade, era o que eu diria sobre "6th Avenue Heartache", uma música ainda comovente, de tão simples e bonita. Por não se prender a nenhum movimento específico da época, o disco ainda soa fresquinho, com canções que ainda grudam facilmente, principalmente "Three Marlenas", "The Difference" e "Josephine". Pena que nunca mais a banda repetiu o talento pop mostrado aqui.


WILCO
BEING THERE


Foi amor à primeira vista?
Olhe para esta capa! Era impossível que este não fosse um bom disco. Animado pela resenha na Bizz, eu paguei caro por este CD duplo. Ao tocá-lo, nem curti tanto assim de primeira, porque o alt-country do Wilco era um som ao qual eu não estava acostumado. Mesmo assim, eu sabia que estava diante de um pequeno tesouro, principalmente quando me deparei com as preciosas "Sunken Treasure" e "The Lonely 1".

Ainda rola gostoso?
Rola, sim, e muito! O repertório do Wilco só melhora conforme passa o tempo. "Sunken Trasure" parece mais bonita a cada vez que a escuto. Além de belas baladas, monumentos rock & roll do calibre de "Monday" e "I Got You (At the End of the Century)" enchem um disco longo e feliz. A alma caipira moderna e apaixonada dos Estados Unidos resumida em 19 faixas.