21/01/2016

Jukebox Encantada #4


COWBOY JUNKIES
PALE SUN, CRESCENT MOON
(1993)

Não seria estranho que alguém começasse a leitura deste artigo perguntando: "Cowboy quem?" O grande prestígio com a crítica garantiu ao quarteto canadense um público fiel, mas restrito, longe de permitir-lhes figurar em um Top 10 qualquer. Isso não parece preocupá-los. Pelo contrário, quando o estrelato esteve mais próximo (entre 1996 e 1998, com o sublime Lay It Down e o quase ortodoxo Miles From Our Home), a banda decidiu parar tudo e voltar à independência, lançando seus discos seguintes pelo seu pequeno selo próprio, Latent Recordings.

Cowboy Junkies chamaram a atenção da imprensa musical em 1988, com seu segundo disco, o tristíssimo The Trinity Session. Em The Caution Horses (1990), eles pintavam um lento e bucólico quadro da vida interiorana, enquanto que o impecável Black Eyed Man (1992) fazia observações simultaneamente românticas e impiedosas do "American way of life" caipira.

Pale Sun, Crescent Moon, sairia em seguida. É neste disco que estão plantadas as bases do que quase foi o megaestrelato para a banda. No disco anterior, seu som já se mostrava ligeiramente modificado, com marcações mais fortes, guitarras mais perceptíveis e o vocal celestial de Margo Timmins abrindo-se mais do que de costume. Neste, a proposta foi radicalizada: é blues rock dos bons, com instrumental forte, canções de primeira grandeza, e a poesia de Michael Timmins (letrista e guitarrista) atingindo um tocante refinamento.

Em 12 faixas, o disco aborda diversas facetas do amor: nascimento, vivência e morte dos relacionamentos são temas caros à banda desde sempre. Além disso, traçando-se um paralelo com a trajetória da própria banda até aquele momento, existe em outras faixas o sentimento de que o interior, pouco a pouco, ficava para trás, também, nas vidas dos personagens das canções.

Cowboy Junkies: Michael Timmins, Peter Timmins, Margo Timmins e Alan Anton

Naquela década, já era lendário o talento de Michael Timmins para escrever sob o ponto-de-vista feminino, mas o que ele alcança em canções soberbas como "White Sail" e "Ring on the Sill" chega a ser divino. Em uma, a promessa de amor eterno e inabalável, com lindos exageros figurativos. Na outra, a incerteza do casamento que se aproxima amedronta o casal. Na pungente "Cold Tea Blues", pequenos gestos, como servir um simples chá, disfarçam sentimentos quase impossíveis de se conter. Costurando as histórias, a voz suave de Margo Timmins, cada vez mais encorpada, evocando Carole King, Carly Simon e Stevie Nicks.

A inspirada guitarra de Michael tem a companhia da bateria forte do primo Peter Timmins e do baixo pulsante do amigo Alan Anton. A distorção e o peso do blues tomam conta do som da banda em faixas como "Seven Years", "Hunted", "The Post" (do Dinosaur Jr.) e, com especial qualidade, em "Hard to Explain", do bluesman Ray Agee, com um solo cristalino e poderoso (do músico de apoio Ken Myhr), que desperta impulsos de air guitar imediatos.

A aridez on the road de "Pale Sun" pinta paisagens bonitas e desoladas, contrastando com a alegria incontida de "Anniversary Song", mas encontrando reflexos nas mágoas e despedidas de "First Recollection".

As duas últimas faixas, a já citada "Hunted" e "Floorboard Blues", chamam a atenção por retratar a barra de ser mulher por aquelas bandas. Na primeira, os versos colocam várias moças em situações de risco iminente, lançando a pergunta: você sabe como é ser caçada? Na segunda, um blues acústico tenso e sombrio, o perigo está dentro de casa: é o padrasto da personagem encarnada por Margo que lhe inspira medo e desconfiança. Vale a tradução de uns poucos versos:

Olhe debaixo das tábuas do assoalho dele, mamãe
Eu não gosto daquele tom sugestivo 
Do jeito como as palavras escorrem de sua boca
Enquanto ele pergunta: 'posso te levar pra casa?'

Não importa quantos quilômetros eu tenha à frente
Eu acho que prefiro ir caminhando sozinha
Do que sentar em seu banco traseiro
Enquanto seus olhos no retrovisor me desnudam

Para muitos, Pale Sun, Crescent Moon é o ápice criativo dos Cowboy Junkies. Refina a diversificação iniciada em Black Eyed Man e precede o acento pop acústico de Lay It Down, funcionando como uma álbum de transição bastante coeso, de ambos os lados da imaginária ponte entre esses discos. Um álbum que, certamente, merecia ter sido ouvido por muito mais gente.


Cowboy Junkies - Pale Sun, Crescent Moon
Lançamento: 23 de novembro de 1993
Produção: Michael Timmins

01 - "Crescent Moon"
02 - "First Recollection"
03 - "Ring on the Sill"
04 - "Anniversary Song"
05 - "White Sail"
06 - "Seven Years"
07 - "Pale Sun"
08 - "The Post"
09 - "Cold Tea Blues"
10 - "Hard to Explain"
11 - "Hunted"
12 - "Floorboard Blues"

17/01/2016

No ventre da baleia


Foi por um triz que eu quase não acompanhei O Inescrito. Há cerca de quatro anos, um preview do primeiro volume, Tommy Taylor e a Identidade Falsa, foi encartado numa edição da extinta revista mensal Vertigo. Gostei, até, mas não me senti, digamos... arrebatado. Eram tempos de pouca confiança nas comic shops virtuais, e a distribuição setorizada estava especialmente zoada, sendo que o encadernado só aportou em Alagoinhas quase seis meses depois de sair no sudeste do país.

(A bem da verdade, acredito que este modelo de distribuição tenha sido alterado: grandes bancas de Salvador, por exemplo, há anos recebem os lançamentos ao mesmo tempo que o Sudeste)

Ele ainda ficou lá uns bons dias, enquanto eu remoía a decisão de comprá-lo ou não. Quando finalmente o fiz (atraído, principalmente, pela bela arte de capa da japonesa Yuko Shimizu), reli aquele bom primeiro capítulo - agora, já prestando um pouco mais de atenção à criativa abordagem de Mike Carey para situações de suspense e metalinguagem que tinham tudo para redundar em erudição inadequada, ou numa enjoada sopa de clichês.


Não é como se eu tivesse expectativas muito altas em relação a Carey, roteirista que escreveu fases protocolares de Batman, X-Men e Hellblazer, sem qualquer brilho narrativo especial. Todavia, ali estava eu, completamente absorto, lendo compulsivamente aquelas histórias, repletas de diálogos muito bem escritos.

O ponto de partida de O Inescrito é a identidade de Tom Taylor, herdeiro da fortuna do recluso escritor Wilson Taylor, autor do maior sucesso da atualidade: a série de livros com seu epônimo, o garoto mago Tommy Taylor. Durante uma convenção dedicada ao personagem, uma repórter levanta dúvidas sobre o passado de Tom, para as quais ele não tem resposta. Acuado, ele decide investigar as suspeitas por conta própria. A busca de Tom por respostas, porém, acaba por levá-lo a situações muitos perigosas e a questionar os limites entre a realidade e a ficção (e não dá pra dizer muito mais que isso sem dar spoilers).

"Já vi isso antes," alguém pode dizer, não totalmente sem razão. Há elementos inevitáveis de Harry Potter e Tim Hunter (de Os Livros da Magia), mas, acredite: O Inescrito nada tem de óbvio ou raso. Ao longo da trama, reviravoltas tão espetaculares quanto genuínas vão se acumulando. O leitor vê-se imerso em um mar de referências e diversos Easter eggs, como as participações de autores reais e incursões surpreendentes ao mundo de clássicos da Literatura.


Além de suas qualidades intrínsecas, o que torna esta série especial para mim é o fato de que ela não é "requentada": Sandman, Fábulas e outras séries clássicas da Vertigo foram ignoradas por mim em suas primeiras edições nacionais, ganhando minha atenção apenas na Era Panini. Sinto-me imensamente feliz e recompensado por ter visto O Inescrito nascer (com o traço suave e preciso de Peter Gross e as sempre lindas capas de Yuko Shimizu), amadurecer (em tramas que explodiam ora em violência, ora em graciosidade, ora em questões filosóficas) e por fim, em lugar de morrer (visto que boas histórias nunca morrem, para aqueles que tocam), cristalizar-se na Eternidade.


Após 12 encadernados (descritos logo abaixo), seu canto-de-cisne está chegando às bancas. O Inescrito: Tommy Taylor e o Navio que Afundou Duas Vezes é uma graphic novel contendo a origem do protagonista desta série, cujos autores tinham o imenso desafio de começar e terminar atendendo aos altíssimos padrões estabelecidos por clássicos, como os já citados Sandman e Fábulas, e o cumpriram com distinções. Aquela nova e fulgurante estrela no céu da Vertigo, não tenha dúvidas, é O Inescrito.


O Inescrito
Roteiro: Mike Carey
Arte: Peter Gross

O Inescrito Vol. 1: Tommy Taylor e a Identidade Falsa
O Inescrito Vol. 2: O Informante
O Inescrito Vol. 3: O Retorno de um Morto
O Inescrito Vol. 4: Leviatã
O Inescrito Vol. 5: Ontogênese
O Inescrito Vol. 6: Tommy Taylor e a Guerra de Palavras, Parte 1
O Inescrito Vol. 7: Tommy Taylor e a Guerra de Palavras, Parte 1.5
O Inescrito Vol. 8: O Ferimento
O Inescrito Vol, 9: Orfeu no Mundo Abissal
O Inescrito Vol. 10: Fábulas Inescritas
O Inescrito - Apocalipse Vol. 1: Histórias de Guerra
O Inescrito - Apocalipse Vol. 2: A Jornada
O Inescrito: Tommy Taylor e o Navio que Afundou Duas Vezes

10/01/2016

Bem-vindo à selva


Apesar do selo Vertigo impresso na capa, a passagem de Grant Morrison pelo título do Homem-Animal aconteceu antes mesmo da criação da divisão adulta da DC Comics. Suas inovações narrativas e temáticas, porém, a distanciavam do típico quadrinho de super-heróis daquele final da década de 80, o que posteriormente levou a DC a colocá-lo na "gaveta" de coisas estranhas e belas que é a Vertigo.

Para os brasileiros, o Homem-Animal começou em março de 1990, na terceira edição da extinta revista mensal DC 2000 (Editora Abril), terminando na edição 36. Embora o título tenha prosseguido a cargo de outras equipes criativas, essas fases posteriores saíram no Brasil por editoras menores e, desde sempre, era grande o desejo dos leitores de ver a fase de Grant Morrison republicada. 

Isto acabou acontecendo entre 2002 e 2003, só que pelas mãos erráticas da editora Brainstore, que tinha distribuição limitadíssima, preços astronômicos, optou pelo preto-e-branco e só publicou 13 das 27 histórias originais. Daí a importância de a Panini Comics finalmente estar cumprindo uma promessa antiga, dando a saudosistas e novos leitores a oportunidade de acompanhar as aventuras e desventuras de Buddy Baker, sob a batuta do genial escocês.

Homem-Animal: O Evangelho do Coiote (primeira de três compilações previstas) traz as nove primeiras edições do título. São histórias que adicionam preocupações ecológicas e filosóficas aos clássicos conflitos super-heroicos. Em oito delas, Morrison teve a companhia do artista Chaz Truog. Na última, a arte é de Tom Grummett, famoso por seu trabalho com os Novos Titãs e Superboy.

Nas quatro primeiras histórias, as fortes preocupações ecológicas do escritor (estendidas ao personagem) encontraram eco em seus leitores, e a saga de vingança do Fera Buana foi apresentada com toques de terror e violência gráfica. É o próprio Morrison quem conta, na introdução, que esta história seria seu único trabalho com o personagem, mas a boa recepção de crítica e público animaram a DC a estender seu contrato. 

Sorte a nossa, porque, logo em seguida, Morrison nos brindaria com aquela que continua sendo uma das melhores histórias que tive o prazer de ler. Com o título levemente modificado para "O Evangelho Segundo o Coiote", o conto que batiza este volume mistura, de forma magistral, elementos de road movies, cartoons, terror e religião, para questionar a violência de nossas existências. Dadas a extensão e a qualidade do currículo de Morrison, parece precipitado cravar, mas, para alguns, e não sem bons motivos, é a melhor coisa que ele já escreveu. Exagero, talvez, mas é uma história à qual ninguém fica indiferente.

Novos leitores podem boiar nas referências à saga Invasão! na sexta e sétima histórias, mas é possível desfrutá-las sem grandes problemas. Na oitava, aparecem os primeiros exercícios de metalinguagem que deixariam os leitores boquiabertos e desnorteados na conclusão da série. Por fim, a última trata das vantagens e desvantagens do Homem-Animal por sua participação na Liga da Justiça Europa.

Por não ter identidade secreta, o universo em redor do herói é bastante prosaico: como qualquer pessoa, ele tem contas a pagar, uma família imperfeita e alguns amigos questionáveis. A simpatia e os problemas pé-no-chão de Buddy Baker o tornam aparentado de um Peter Parker, por exemplo. É muito fácil gostar dele.

Apesar do declarado hermetismo de algumas passagens, a identificação com o leitor é facílima, sendo este um dos motivos para o status de clássicas que estas histórias, com o tempo, receberam. É Grant Morrison aprendendo a ser Grant Morrison, uma oportunidade que não tínhamos e que desejávamos havia muito tempo. Convém aproveitar.