10/01/2016

Bem-vindo à selva


Apesar do selo Vertigo impresso na capa, a passagem de Grant Morrison pelo título do Homem-Animal aconteceu antes mesmo da criação da divisão adulta da DC Comics. Suas inovações narrativas e temáticas, porém, a distanciavam do típico quadrinho de super-heróis daquele final da década de 80, o que posteriormente levou a DC a colocá-lo na "gaveta" de coisas estranhas e belas que é a Vertigo.

Para os brasileiros, o Homem-Animal começou em março de 1990, na terceira edição da extinta revista mensal DC 2000 (Editora Abril), terminando na edição 36. Embora o título tenha prosseguido a cargo de outras equipes criativas, essas fases posteriores saíram no Brasil por editoras menores e, desde sempre, era grande o desejo dos leitores de ver a fase de Grant Morrison republicada. 

Isto acabou acontecendo entre 2002 e 2003, só que pelas mãos erráticas da editora Brainstore, que tinha distribuição limitadíssima, preços astronômicos, optou pelo preto-e-branco e só publicou 13 das 27 histórias originais. Daí a importância de a Panini Comics finalmente estar cumprindo uma promessa antiga, dando a saudosistas e novos leitores a oportunidade de acompanhar as aventuras e desventuras de Buddy Baker, sob a batuta do genial escocês.

Homem-Animal: O Evangelho do Coiote (primeira de três compilações previstas) traz as nove primeiras edições do título. São histórias que adicionam preocupações ecológicas e filosóficas aos clássicos conflitos super-heroicos. Em oito delas, Morrison teve a companhia do artista Chaz Truog. Na última, a arte é de Tom Grummett, famoso por seu trabalho com os Novos Titãs e Superboy.

Nas quatro primeiras histórias, as fortes preocupações ecológicas do escritor (estendidas ao personagem) encontraram eco em seus leitores, e a saga de vingança do Fera Buana foi apresentada com toques de terror e violência gráfica. É o próprio Morrison quem conta, na introdução, que esta história seria seu único trabalho com o personagem, mas a boa recepção de crítica e público animaram a DC a estender seu contrato. 

Sorte a nossa, porque, logo em seguida, Morrison nos brindaria com aquela que continua sendo uma das melhores histórias que tive o prazer de ler. Com o título levemente modificado para "O Evangelho Segundo o Coiote", o conto que batiza este volume mistura, de forma magistral, elementos de road movies, cartoons, terror e religião, para questionar a violência de nossas existências. Dadas a extensão e a qualidade do currículo de Morrison, parece precipitado cravar, mas, para alguns, e não sem bons motivos, é a melhor coisa que ele já escreveu. Exagero, talvez, mas é uma história à qual ninguém fica indiferente.

Novos leitores podem boiar nas referências à saga Invasão! na sexta e sétima histórias, mas é possível desfrutá-las sem grandes problemas. Na oitava, aparecem os primeiros exercícios de metalinguagem que deixariam os leitores boquiabertos e desnorteados na conclusão da série. Por fim, a última trata das vantagens e desvantagens do Homem-Animal por sua participação na Liga da Justiça Europa.

Por não ter identidade secreta, o universo em redor do herói é bastante prosaico: como qualquer pessoa, ele tem contas a pagar, uma família imperfeita e alguns amigos questionáveis. A simpatia e os problemas pé-no-chão de Buddy Baker o tornam aparentado de um Peter Parker, por exemplo. É muito fácil gostar dele.

Apesar do declarado hermetismo de algumas passagens, a identificação com o leitor é facílima, sendo este um dos motivos para o status de clássicas que estas histórias, com o tempo, receberam. É Grant Morrison aprendendo a ser Grant Morrison, uma oportunidade que não tínhamos e que desejávamos havia muito tempo. Convém aproveitar.

3 comentários:

Alexandre Melo disse...

Faz-me sentir velho. Li todo o run do Grant Morrison quando saiu na DC 2000. Nostálgico, que mix era aquele? (Além do Homem-Animal, tinha Xeque-Mate e Mulher-Maravilha do mestre Perez, depois na fase que tinha 160 era minha favorita das compras do mês). E orgulhoso: desde moleque gostava de coisa boa.

Mas não tão esperto,que odiava desenho de Chaz Truog. Agora que contemplo arte no tamanho original e papel de qualidade, faço justiça ao talento do cara. Imutável é opinião do que o escocês maluco que vale mesmo, não é Millar, mas o Morrison. Só que fica aviso, como já deve ser patente, que sou fanboy mesmo, e aguardando loucamente que a PANINI se mexa, e traga finalmente Patrulha do Destino do careca pro Brasil.

Despeço-me jogando polêmica na mesa: a melhor história de todas do cara é Asilo Arkham, não? :D

Gerlande Diogo disse...

Socorro... (grita o meu bolso) Vou à falência, é muita HQ boa.

Do Vale disse...

O Homem-Animal do Morrison me marcou tanto na infância em DC 2000 (os caras falando com o leitor depois de se chapar!) quanto na segunda leitura já adolescente. Ainda hoje segue no meu top 10, bom demais ver publicado do jeito que merece.