17/01/2016

No ventre da baleia


Foi por um triz que eu quase não acompanhei O Inescrito. Há cerca de quatro anos, um preview do primeiro volume, Tommy Taylor e a Identidade Falsa, foi encartado numa edição da extinta revista mensal Vertigo. Gostei, até, mas não me senti, digamos... arrebatado. Eram tempos de pouca confiança nas comic shops virtuais, e a distribuição setorizada estava especialmente zoada, sendo que o encadernado só aportou em Alagoinhas quase seis meses depois de sair no sudeste do país.

(A bem da verdade, acredito que este modelo de distribuição tenha sido alterado: grandes bancas de Salvador, por exemplo, há anos recebem os lançamentos ao mesmo tempo que o Sudeste)

Ele ainda ficou lá uns bons dias, enquanto eu remoía a decisão de comprá-lo ou não. Quando finalmente o fiz (atraído, principalmente, pela bela arte de capa da japonesa Yuko Shimizu), reli aquele bom primeiro capítulo - agora, já prestando um pouco mais de atenção à criativa abordagem de Mike Carey para situações de suspense e metalinguagem que tinham tudo para redundar em erudição inadequada, ou numa enjoada sopa de clichês.


Não é como se eu tivesse expectativas muito altas em relação a Carey, roteirista que escreveu fases protocolares de Batman, X-Men e Hellblazer, sem qualquer brilho narrativo especial. Todavia, ali estava eu, completamente absorto, lendo compulsivamente aquelas histórias, repletas de diálogos muito bem escritos.

O ponto de partida de O Inescrito é a identidade de Tom Taylor, herdeiro da fortuna do recluso escritor Wilson Taylor, autor do maior sucesso da atualidade: a série de livros com seu epônimo, o garoto mago Tommy Taylor. Durante uma convenção dedicada ao personagem, uma repórter levanta dúvidas sobre o passado de Tom, para as quais ele não tem resposta. Acuado, ele decide investigar as suspeitas por conta própria. A busca de Tom por respostas, porém, acaba por levá-lo a situações muitos perigosas e a questionar os limites entre a realidade e a ficção (e não dá pra dizer muito mais que isso sem dar spoilers).

"Já vi isso antes," alguém pode dizer, não totalmente sem razão. Há elementos inevitáveis de Harry Potter e Tim Hunter (de Os Livros da Magia), mas, acredite: O Inescrito nada tem de óbvio ou raso. Ao longo da trama, reviravoltas tão espetaculares quanto genuínas vão se acumulando. O leitor vê-se imerso em um mar de referências e diversos Easter eggs, como as participações de autores reais e incursões surpreendentes ao mundo de clássicos da Literatura.


Além de suas qualidades intrínsecas, o que torna esta série especial para mim é o fato de que ela não é "requentada": Sandman, Fábulas e outras séries clássicas da Vertigo foram ignoradas por mim em suas primeiras edições nacionais, ganhando minha atenção apenas na Era Panini. Sinto-me imensamente feliz e recompensado por ter visto O Inescrito nascer (com o traço suave e preciso de Peter Gross e as sempre lindas capas de Yuko Shimizu), amadurecer (em tramas que explodiam ora em violência, ora em graciosidade, ora em questões filosóficas) e por fim, em lugar de morrer (visto que boas histórias nunca morrem, para aqueles que tocam), cristalizar-se na Eternidade.


Após 12 encadernados (descritos logo abaixo), seu canto-de-cisne está chegando às bancas. O Inescrito: Tommy Taylor e o Navio que Afundou Duas Vezes é uma graphic novel contendo a origem do protagonista desta série, cujos autores tinham o imenso desafio de começar e terminar atendendo aos altíssimos padrões estabelecidos por clássicos, como os já citados Sandman e Fábulas, e o cumpriram com distinções. Aquela nova e fulgurante estrela no céu da Vertigo, não tenha dúvidas, é O Inescrito.


O Inescrito
Roteiro: Mike Carey
Arte: Peter Gross

O Inescrito Vol. 1: Tommy Taylor e a Identidade Falsa
O Inescrito Vol. 2: O Informante
O Inescrito Vol. 3: O Retorno de um Morto
O Inescrito Vol. 4: Leviatã
O Inescrito Vol. 5: Ontogênese
O Inescrito Vol. 6: Tommy Taylor e a Guerra de Palavras, Parte 1
O Inescrito Vol. 7: Tommy Taylor e a Guerra de Palavras, Parte 1.5
O Inescrito Vol. 8: O Ferimento
O Inescrito Vol, 9: Orfeu no Mundo Abissal
O Inescrito Vol. 10: Fábulas Inescritas
O Inescrito - Apocalipse Vol. 1: Histórias de Guerra
O Inescrito - Apocalipse Vol. 2: A Jornada
O Inescrito: Tommy Taylor e o Navio que Afundou Duas Vezes

3 comentários:

Do Vale disse...

Também comprei lá atrás sem dar muito crédito e hoje é um dos melhores títulos do Vertigo que já li, até de quadrinhos em geral mesmo.
Chegando no final, hora de reler pra pegar todos os detalhes (e matar a saudade, por que não?).

Rodrigo disse...

Já no meu caso, fui fisgado na hora (embora confesse que tinha Lúcifer de Carey na memória). Resultado: deslumbrado com a obra e revoltado com a distribuição setorizada que me faz agonizar e recorrer a compras online (demora por demora...).

Gerlande Diogo disse...

As capas são primorosas