12/02/2016

Você está convocado!


Embora tenham perdido boa parte de seu prestígio editorial para Os Vingadores, os X-Men continuam muito populares, a ponto de o núcleo de protagonistas ocupar nada menos que quatro títulos diferentes quando começou o evento Marvel NOW!, em 2013. 

Outra prova de seu valor está no destacado time de escritores: Simon Spurrier (vindos dos notórios títulos britânicos 2000 A.D. e Juiz Dredd) em X-Men: Legacy; Brian Wood (de ZDM e Vikings, da Vertigo) em X-Men; e o mais famoso deles, um dos arquitetos do que a Marvel se tornou ao longo dos últimos 15 anos, Brian Michael Bendis (de Demolidor e Vingadores) tomando conta de dois títulos, All-New X-MenUncanny X-Men.

É este último que tem reunidos neste volume suas cinco primeiras edições. Fabulosos X-Men - Revolução traz a equipe montada por Ciclope após os eventos da minissérie Vingadores vs. X-Men, ao fim da qual, possuído pela Força Fênix, Scott Summers matou o professor Charles Xavier. Com o fim da possessão, ele foi resgatado por Magneto e Magia, reunindo-se posteriormente a Emma Frost. Mesmo com seus poderes oscilando perigosamente, os quatro assumem a tarefa de proteger mutantes, em todo o mundo, do ódio e da perseguição.

Os uniformes da equipe parecem refletir essa disfuncionalidade. Ciclope usa um visor em X que se estende por todo o elmo, mas parece cobrir sua visão exatamente onde os olhos parecem estar. Um Magneto calvo e de roupas brancas usa um capacete ainda mais fechado que antes, lembrando a mim daquele usado por Sauron, nos filmes de O Senhor dos Anéis. Emma Frost, a Rainha Branca, agora traja preto da cabeça aos pés. Por fim, Magia carrega consigo uma espada que parece maior do que ela própria.

Apesar disso, preciso dizer que amo esta capa. Tudo nela, do desenho ao logotipo, além da equipe em si, carrega urgência política e perigosa beleza.

Tendo feito o que fez, Ciclope tornou-se, naturalmente, persona non grata para as demais equipes X e para gente como a SHIELD e os Vingadores. Todavia, isto não o intimida. Em Revolução, ele é o rosto do orgulho mutante, viralizando sua mensagem pela internet, inspirando jovens perseguidos por sua natureza a resistirem à opressão e assumirem o controle das próprias vidas. Alguns deles, como os novatos Christopher Muse (Triagem) e Eva Bell (Tempus), já acompanham o grupo em suas missões.

Muitos anos atrás, quando eu ainda acompanhava seu trabalho com regularidade, pareciam existir dois Brian Michael Bendis: um que era capaz de deixar personagens imóveis por páginas, tendo as conversas mais complexas, e, ainda assim, ser divertido e nada pretensioso; e outro que primava pela preguiça, apelando a pingue-pongues verbais superficiais e irritantes. Este aqui parece um terceiro, conseguindo um bom equilíbrio entre ação e reflexão, honrando a tradição que o título sempre teve de defender os excluídos. Seus afiados diálogos sobre questões de direitos civis encontram reflexo na conturbada realidade à nossa volta. Quando trata de relacionamentos, Bendis é irônico e sagaz, mas, com leveza.

Este primeiro volume termina com um gancho abrupto, levando a equipe a terreno místico. Nos parcos extras, rabiscos do artista Chris Bachalo revelam que ele teve umas ideias bem ruins para os uniformes, que, felizmente, foram rejeitadas. Bachalo desenha as quatro primeiras histórias de maneira bem mais agradável do que minhas últimas lembranças de sua arte. A quinta parte tem os sempre bons desenhos de Frazer Irving (Sete Soldados da Vitória).

Um recomeço muito promissor para personagens cuja relevância parece variar ao sabor das turbulências sociais. Com tudo que tem acontecido no Brasil (racismo na internet, a luta pelos direitos dos gays, o enfrentamento do machismo endêmico) e nos Estados Unidos (as mortes de cidadãos negros nas mãos de uma polícia cada vez mais violenta e instável), parece que Fabulosos X-Men é um título totalmente conectado ao seu mundo e ao seu tempo. Junte-se à Revolução!

Fabulosos X-Men - Revolução
Panini Comics - 124 páginas - R$ 26,90

09/02/2016

Teste dos 20 Anos - 1996

Um ano de transformações. Em 1996, eu vivi uma montanha-russa de experiências e emoções. Sucesso e fracasso profissional quase simultâneos, mudanças de endereço planejadas e inesperadas, autodescobertas importantes. "Intenso" é apelido.

Na música brasileira, foi a hora do batismo de fogo das bandas que surgiram entre 93 e 94. Era mostrar a que veio ou abraçar o ostracismo. Você talvez estranhe a ausência de alguns discos gringos importantes, como Odelay (Beck), Murder Ballads (Nick Cave & The Bad Seeds) e Pinkerton (Weezer), mas estes foram discos que só ouvi anos depois. Outros, como Load (Metallica) nunca foram devidamente degustados.

Nesta lista, foi alcançado um adequado equilíbrio entre discos brasileiros e estrangeiros, uma prova de que vivíamos tempos bem mais interessantes por aqui.

Ficou assim:


CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI
AFROCIBERDELIA



Foi amor à primeira vista?
NADA na música brasileira daquele ano era tão ambicioso, diferente e empolgante quanto o segundo disco dos pernambucanos, uma obra para a qual faltavam (ou se confundiam) adjetivos. Eletrônica, distorção e percussão de maracatu, dando à luz um som igualmente moderno e reverente às suas raízes. A produção do croata Bid reforçou o peso das alfaias e da guitarra de Lúcio Maia. Bateu forte e rodou muito no meu player. Pena que Chico Science nos deixaria menos de um ano depois de lançar este disco.

Ainda rola gostoso?
Afrociberdelia é um disco conceitual longo, mas nem por isso excessivo, até hoje fluindo com ritmo invejável. Seus únicos pecados são os três dispensáveis remixes de "Maracatu Eletrônico". Em comparação com a Nação Zumbi comandada por Jorge du Peixe, parece bem mais ágil, agressiva e articulada - e era, mesmo. Sem querer desmerecer tudo que a NZ alcançou sem Chico, sinto muito que não tenhamos visto mais de um cara que estava apenas começando e já era um gênio com tamanha personalidade.


COWBOY JUNKIES
LAY IT DOWN


Foi amor à primeira vista?
Eu já amava esta banda desde sempre e este disco apenas ampliou o sentimento. Parece um catálogo das coisas que eu mais curtia neles: o romantismo desenfreado e as afiadas observações do cotidiano das letras de Michael Timmins alcançavam um refinamento refletido no som da banda, mais acústico e menos "caipira" que em disco anteriores. Virou meu disco preferido dos canadenses e referência de como escrever sobre amor sem parecer banal.

Ainda rola gostoso?
Sim, embora eu o escute bem menos hoje em dia. Faço isso enquanto escrevo este parágrafo e, cara, se posso resumir o que sinto, digo que este disco me faz bem. Sem mencionar que, da faixa 4 ("Hold on to Me") à 10 ("Musical Key") temos algumas das melhores letras já escritas sobre o amor, seja ele romântico, fraterno ou parental. Da capa ao som, tudo em Lay It Down é muito bonito, sagaz, tranquilo e preciso. Um disco para se ter como objeto de culto.


DANIELA MERCURY
FEIJÃO COM ARROZ


Foi amor à primeira vista?
Eram os anos da ascensão do É o Tchan e domínio da axé music em geral. Não me surpreendia que, somente devido às origens de Daniela, este disco estivesse sendo jogado no mesmo balaio de tantas coisas de qualidade duvidosa. Era música baiana, sim. Era música pra dançar atrás do trio elétrico, sim. Só que não era música de "linha de produção". Era criteriosa e variada, muito bem tocada, arranjada e cantada. Nasceu clássico.

Ainda rola gostoso?
Mesmo que Daniela até hoje encha o saco com esse micado papo de ser "a branquinha mais neguinha do Brasil", ninguém vai negar que Feijão com Arroz ainda é um discaço. Tem samba reggae ("Minas com Bahia", "Dona Canô Chamou"), baião ("Feijão de Corda"), samba de roda ("Bate Couro"), funk ("Musa Calabar") e balada romântica ("À Primeira Vista"). Se for para ignorar tanta variedade e pedir a Daniela que abrace o rótulo de axé music, arrisco dizer que ela cometeu o melhor disco do gênero. 


FUGEES
THE SCORE


Foi amor à primeira vista?
Eu nunca fui muito de escutar rap, mas The Score chegava puxado por duas versões de clássicos: "No Woman No Cry" (Bob Marley) e "Killing Me Softly" (Roberta Flack), sendo que nesta última sobressaía a belíssima voz de Lauryn Hill. O trio era completado pelo haitiano Wyclef Jean e pelo americano Pras. Comprei o CD e, nas demais faixas, me agradou a variedade de batidas e samples, assim como a musicalidade do rap de Wyclef e Lauryn. Pras nunca me desceu bem, parecia que ele só servia pra trazer café pros dois gênios.

Ainda rola gostoso?
Apesar de claramente datado, ainda me agrada ouvir The Score. Faixas como "How Many Mics" "Zealots", "The Beast" e "The Mask" servem como crônicas da barra-pesada e como aulas de como samplear bem. As versões ainda funcionam, a de Marley com ampla vantagem. Dois remixes de "Fu-Gee-La" ajudam a tornar o disco comprido demais, um mal típico da época. Chato mesmo, porém, é que, nestes 20 anos, o grupo nunca tenha se reunido.


OS PARALAMAS DO SUCESSO
9 LUAS


Foi amor à primeira vista?
"Uma Brasileira" (faixa do EP de inéditas que acompanhava o ao vivo Vamo Batê Lata, de 1995) já dava a pista: os Paralamas estavam dispostos a deixar pra trás o experimentalismo de Severino (1994) e abraçar de novo a mistura de pop, reggae e brasilidade que os consagrou. Deu muito certo: "Loirinha Bombril" foi uma das músicas mais tocadas do ano e o disco todo descia redondinho, que era uma beleza.

Ainda rola gostoso?
Ô, e como! Assim como outro gênio do pop, Lulu Santos (autor da gostosa "Outra Beleza"), Herbert Vianna sabe como poucos falar de coisa séria através de música divertida. Além disso, segura firme o volante nas curvas onde muita gente despenca no abismo da banalidade, principalmente ao falar de amor. Até autoajuda, com ele, fica inteligente e divertida ("Seja Você"). Se você tem 38 minutos pra se divertir, coloque este disco pra tocar e seja feliz.


R.E.M.
NEW ADVENTURES IN HI-FI


Foi amor à primeira vista?
Depois do susto que foi Monster (grandes canções envoltas em uma tempestade de distorção) e dos traumas que o sucederam (a crise de hérnia de Michael Stipe, o aneurisma que afastou Bill Berry da bateria), o R.E.M. juntou os frutos das sessões gravadas entre os intervalos da turnê. O resultado foi um álbum bonito, solene e empoeirado, como os melhores road movies. Não colava no ouvido de primeira, como Out of Time (1991), mas revelava novas belezas a cada audição.

Ainda rola gostoso?
Você ainda precisa perguntar isso sobre um álbum que contém a ensolarada "Electrolite", a épica "Leave", a perfeição indie rock de "Bittersweet Me" e o monolito atemporal "E-Bow the Letter"? Sabe o que eu disse sobre belezas ocultas? A magia ainda acontece 20 anos depois e não me vejo deixando de curtir este e outros discos perfeitos que o R.E.M. legou para a humanidade. Afinal, a banda, infelizmente, nem existe mais.


SKANK
O SAMBA POCONÉ


Foi amor à primeira vista?
Se você não estava em Marte em 1996, certamente ouvia "Garota Nacional" em toda parte, diversas vezes ao dia. O Samba Poconé multiplicou o sucesso de Calango (1994) e transformou o Skank em febre nacional. Não satisfeitos, ainda emplacaram "É uma Partida de Futebol" (que gerou uma longa e enjoativa associação da banda com o esporte) e "Tão Seu". Eu curti, claro, mas achava o disco anterior melhor; sentia que O Samba tinha um ritmo irregular e algumas canções pouco simpáticas.

Ainda rola gostoso?
Eu já quase não ouço este disco, porque fiquei saturado das duas músicas de maior sucesso e porque não tenho paciência para o chacundum do dancehall por cerca de uma hora (embora eu deva admitir que "Tão Seu" continua sendo uma grande canção pop romântica). Ainda bem que, a partir do álbum seguinte, o Skank soube reinventar-se para sobreviver.


TIMBALADA
MINERAL


Foi amor à primeira vista?
O axé estava em alta e a Timbalada sempre foi diferenciada, a coisa mais próxima que tínhamos de um verdadeiro movimento artístico. Carlinhos Brown dava à banda algumas de suas melhores canções e não foi diferente desta vez. O começo era arrasador: "Formigueiro", "Minha História", "Maré Mansa", "Meia Hora", "Água Mineral" (a mais feia delas e a de maior sucesso, vai entender...). O carismático (e problemático) Xexéu ainda estava na banda, assim como Ninha e Patrícia, num repertório com samba de roda, forró e, obviamente, muita "música pra pular brasileira".

Ainda rola gostoso?
Menos que antes, mas se este disco começa a tocar, geralmente conta com minha boa vontade pra rolar até o fim. "Água Mineral" é uma bobagem que destoa do capricho romântico da maioria das músicas, mas é rápida demais pra incomodar. Hoje em dia, somente o responsável e versátil Denny Denan canta na banda, cujo repertório se recicla cada vez mais devagar. 


THE WALLFLOWERS
BRINGING DOWN THE HORSE


Foi amor à primeira vista?
"6th Avenue Heartache" é uma das músicas mais bonitas dos anos 90 e isso já parece muita coisa, mas este segundo disco da banda de Jakob Dylan (filho de Bob) parece uma coletânea, tamanha a qualidade das canções, perfeitamente equilibradas entre o folk, o southern rock e o pop. Um desses discos que dão gosto escutar de ponta a ponta. "Three Marlenas" foi o outro hit, com um clip que chamou atenção pelos efeitos especiais.

Ainda rola gostoso?
Se "inenjoável" fosse uma palavra de verdade, era o que eu diria sobre "6th Avenue Heartache", uma música ainda comovente, de tão simples e bonita. Por não se prender a nenhum movimento específico da época, o disco ainda soa fresquinho, com canções que ainda grudam facilmente, principalmente "Three Marlenas", "The Difference" e "Josephine". Pena que nunca mais a banda repetiu o talento pop mostrado aqui.


WILCO
BEING THERE


Foi amor à primeira vista?
Olhe para esta capa! Era impossível que este não fosse um bom disco. Animado pela resenha na Bizz, eu paguei caro por este CD duplo. Ao tocá-lo, nem curti tanto assim de primeira, porque o alt-country do Wilco era um som ao qual eu não estava acostumado. Mesmo assim, eu sabia que estava diante de um pequeno tesouro, principalmente quando me deparei com as preciosas "Sunken Treasure" e "The Lonely 1".

Ainda rola gostoso?
Rola, sim, e muito! O repertório do Wilco só melhora conforme passa o tempo. "Sunken Trasure" parece mais bonita a cada vez que a escuto. Além de belas baladas, monumentos rock & roll do calibre de "Monday" e "I Got You (At the End of the Century)" enchem um disco longo e feliz. A alma caipira moderna e apaixonada dos Estados Unidos resumida em 19 faixas.

02/02/2016

Pequeno Dicionário Idiossincrático, Parte 1


A
AUTOMÓVEIS - Eu não dirijo ainda. Coloquei a CNH como uma de minhas metas para 2016. Não é por nada, eu apenas não gostaria de precisar aprender, mas a sociedade faz parecer que você é menos gente quando não dirige. Se dinheiro não fosse problema, meu carro poderia ser qualquer um, desde que viesse com chofer. Uma paixão típica dos brasileiros que jamais ecoou no meu peito.

C
CRIANÇAS - Eu não tenho filhos e está muito bom assim, sendo tio e padrinho para os filhos de meus irmãos e de amigos. Meu trabalho como professor me põe em constante contato com crianças e, embora eu tenha certa impaciência com prodígios infantis ou crianças que se comportam feito mini-adultos, até que gosto delas. Não sei, então, por que é que toda vez que sonho sendo assaltado, são crianças que me atacam, os piores pesadelos que tenho.

L
LOUCOS - Eu sei que é uma bobagem de minha parte, mas tenho PAVOR de doentes mentais, desses que andam maltrapilhos pelas ruas, dialogando sem parar com algum interlocutor imaginário. É verdade que eles são, quase sempre, inofensivos e deveriam inspirar pena, em vez de medo; mas, entenda, eu também tenho medo de gente aparentemente normal que faz a mesma coisa - e, olha, muita gente faz.

M
MORTE - Eu não tenho medo de morrer, mas tenho medo da dor, por isso me apavora a ideia de uma morte violenta. Atropelamento está no topo da lista, é uma verdadeira paúra. Tenho medo de cair de algum lugar muito alto e morrer, mas meu medo de altura é algo que gosto de desafiar - por exemplo, adoro montanha-russa e outros brinquedos tensos, que envolvem altura e velocidade. Vai entender.

P
PEDESTRES - Eu tenho a firme convicção de que muita gente sai à rua apenas para me atrapalhar. É gente que está andando à minha frente e vem tombando para meu lado; gente que se aglomera pra conversar justamente onde a passagem é mais estreita; que anda em bando e forma uma "parede", tomando toda a calçada; que sai de onde está e para bem no meu caminho, quando estou passando, feito um totem de imbecilidade. Fiquem mais em casa, por favor. O mundo é pequeno demais e seu cotovelo está cutucando minha costela.