24/03/2016

Sob o jugo do Superdiretor


Sem saber, hoje, eu devo estar doente, mal-humorado ou, simplesmente, desconectado do meu tempo. Por mais boa vontade que houvesse em meu peito ao entrar na sala de cinema, sinto que Batman vs Superman: A Origem da Justiça está longe de ser a redenção definitiva da DC/Warner nas telas, em seus planos de igualar ou superar os Marvel Studios.

Pode ser que assisti-lo em versão dublada tenha contribuído para a má impressão, mas, em nível consciente, os problemas que enxergo são outros. O maior deles, responsável por boa parte dos outros, chama-se Zack Snyder.

Ao contrário do que li pela internet, na ocasião da pré-estreia do filme, o diretor não parece ter aprendido muito desde O Homem de Aço (2013) e repete muitos de seus erros aqui: edição impaciente (embora o filme seja longo), escuridão excessiva, destruição em larga escala e raios, muitos raios, raios demais!

Batman vs Superman: A Origem da Justiça abre com uma nova versão da origem do Batman e, olha, vou ser franco: a gente não precisava de mais essa. Ela termina de um jeito bem pirado - disso, eu gostei. Felizmente, não quiseram recontar a origem do Superman e isso nos salvou de mais déjà-vu em câmera lenta.

Os eventos de O Homem de Aço são revisitados, mostrando que Bruce Wayne estava em Gotham City e tentava desesperadamente salvar os funcionários de sua empresa, vitimados pelo conflito entre Superman e Zod. Longe de aposentado, o Batman (Ben Affleck, muito bem no manto) já tem 20 anos de carreira e não alivia. É elogiável a agilidade do personagem e as demonstrações práticas de sua "foditude": ele toma facada no pescoço e até tiro à queima-roupa na cabeça e o capuz o protege de tudo, como nos quadrinhos. Suas brigas foram as mais caprichadas do longa.

Entretanto, as cenas de perseguição são péssimas, devido à escuridão e aos cortes malucos nas cenas. O Batmóvel e o Batwing tornam-se praticamente indistinguíveis em meio a tanto preto e travelings de câmera exagerados. Não me pergunte se eles ficaram legais, porque eu não consegui ver para saber.

Alguém que parecia caminhar para ser um dos maiores problemas do filme surge como um autêntico trunfo: o Lex Luthor histriônico de Jesse Eisenberg é uma figuraça, uma interessante revisão do personagem, e revela-se um estrategista exemplar: é dele o plano (executado com maestria) que alimenta a animosidade entre os dois heróis. O Alfred insolente de Jeremy Irons é outro sopro de ar fresco, num filme tão sisudo.


Outro acerto do filme é a Mulher-Maravilha. Seu tempo em cena é curto, mas cada aparição sua inspira, com o devido perdão pelo trocadilho, maravilhamento. Sexy sem ser vulgar em roupas de gala, segura sem ser babaca em trajes de batalha, Gal Gadot revelou-se uma excelente escolha. Bônus: ela dá uma volta no Batman, sem fazer força.

O Superman (Henry Cavill) tem boas cenas de ação, mas não é aqui que perde a fama de arma de destruição em larga escala. Nada que se compare ao que foi visto em 2013, mas ainda muito imprudente para quem é visto como o maior herói do planeta.

A esperada briga com o Batman já é muito impactante, considerando que o filme terá uma já anunciada versão mais violenta para blu-ray e download. É aquilo que quem leu os quadrinhos já sabe: com tecnologia e kryptonita, o Batman esfrega o chão com a cara do Superman, mas o Super não perde nenhuma oportunidade de socar pesado a fuça do Morcego.

Está tudo bem, então? Não, não está, e a culpa é do diretor. Snyder pesa com força a mão no uso de flare - os raios, saca? - e de travelings malucos (provando que ele não é um "poeta visual" nível Peter Jackson). Tudo parece corrido e empoeirado demais, o que quase compromete o ápice do filme: o momento em que Batman, Superman e Mulher-Maravilha se reúnem contra Apocalypse. Mas é tão legal ver os três em cena, que, vá lá, relevemos. A trilha sonora tonitruante (de Hans Zimmer) causa estranheza inicial, mas vai ganhando personalidade.

Como todo mundo também já sabe, aqui são plantadas as sementes dos próximos filmes da DC, em especial os dois longas da Liga da Justiça, com breves (e criativos) lampejos de Flash, Aquaman e Cyborg. O final vai dividir opiniões, mas era necessário que fosse daquele jeito. 

Não deixo de imaginar o quanto este filme poderia ter sido melhor, caso estivesse nas mãos de um diretor mais hábil. Enxergo Zack Snyder, hoje em dia, como o equivalente no cinema de Geoff Johns nos quadrinhos: alguém cuja fama foi alcançada com talento e bons trabalhos inicias, mas que agora é mais famoso por ser famoso do que por entregar bons produtos.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça vale o seu ingresso, mas não pretenda sair do cinema com a vida transformada. Se há algo bastante visível aqui, é o tamanho da oportunidade perdida. Vai fazer muita grana, claro, mas perdeu-se a chance de fazer História.

23/03/2016

Pequeno Dicionário Idiossincrático, Parte 2


A
Acidentes - Marcone, meu irmão do meio, já quebrou o mesmo braço duas vezes e quase virou tira-gosto de leão de circo. Na infância, novidade era o dia em que ele não aparecia arrebentado de algum jeito. Já eu, o rei da prudência (ou seja, um adolescente bundão), cometi apenas a proeza de quebrar a clavícula numa ridícula trombada de bicicleta. Alguém normal se aproveitaria da situação e ficaria ainda mais dengoso, mas eu... Bom, eu fiz bem isso, mesmo.

C
Cerveja - Minha atual rotina de "rato de academia" não combina com bebedeira, mas este não é o único motivo para eu estar bebendo cada vez menos. Eu, simplesmente, não gosto mais da sensação de embriaguez e, menos ainda, de ter ressaca. É verdade que dá pra beber sem ter ressaca e eu até já aprendi uns macetes, mas, hoje em dia, odeio estar fora do controle. Ainda tomo umas, mas minha "linha de chegada", que antes era de maratonista, agora corresponde ao trajeto de comprar pão.

E
Erudição - Acho importante possuir uma boa cultura geral. Pode ser que isso não ajude você a ganhar mais dinheiro ou a transar (se você quer mesmo saber, ajuda, sim), mas sentir-se excluído de uma conversa é muito ruim. Não precisa ser erudito (e eu não sou). Saber um pouco sobre muitas coisas é melhor do que saber tudo sobre uma coisa só. Por exemplo: em uma aula, se faço uma pergunta sobre datas, lugares ou nomes históricos, geralmente ouço réplicas do tipo, "Pra que eu preciso saber disso?". No entanto, quando falo desses assuntos, as mesmas pessoas perguntam: "Poxa, como é que você sabe tudo isso? Queria ser assim!". Vai entender.

P
Plantas - Acho lindo quando alguém sabe cuidar de plantas e enche a casa de verde. Infelizmente, acho que só terei "dedo verde" se contrair alguma doença hepática. Não tenho paciência, disciplina ou disponibilidade para memorizar quais plantas podem ou não tomar sol, em quais horários, se é pra regar muito ou pouco, podar, limpar folha, trocar vaso... Na dúvida, não deixe aquela sua orquídea premiada sob meus cuidados.

S
Sexo - Acho que sou um alienígena quando o assunto é sexo. Não vejo graça nessa coisa de "apimentar a relação", porque meu pinto não é acarajé. Todos esses artifícios que as pessoas costumam usar pra "esquentar as coisas" costumam me dar apenas tédio e vergonha alheia. Máscara, chicote, fantasias, óleos, velas... Porra, sexo é instinto, o bom nessa hora é o cheiro do corpo (desde que a devida atenção seja dada à higiene corporal, claro). Sou caretaço: dois é ótimo, três já é multidão. Aprecio bastante o conforto de uma boa cama, também. Mas, não, a criatura quer transar num cavalo branco (oi?)! Quer uma posição acrobática! Quer passar leite condensado no meu pinto! Quer cagar no meu peito! Ôxe, sai pra lá, diabo!