09/04/2016

Baú do Vexame, Parte 1 - Pirralho salgado à milanesa


A primeira lembrança que eu tenho de Salvador é uma mistura de traquinagem com insanidade e caipirice. Imagino que eu devia ter nove, talvez dez anos.

Na minha infância, em Feira de Santana, eu tinha problemas respiratórios que, volta e meia, levavam-me a nebulizações emergenciais. Certa vez, a prima de uma amiga de minha mãe gentilmente ofereceu-se para me hospedar em Salvador e levar-me a um médico de lá, "passeio" este de que não me lembro.

Minhas únicas lembranças desse dia são do quanto era grande a cabeça do filho dessa senhora - isso, vindo de um cara cuja cabeça parece uma abóbora de halloween, dá ideia da proporção - e do meu primeiro, rapidíssimo e arriscadíssimo banho de mar.

Acho que era na Pituba, na Praça de Nossa Senhora da Luz, o apartamento onde eu estava. O mar se estendia, lindo e azul, pela vista da janela do sei-lá-qual andar. Eu podia ter proposto a um adulto da casa que me levasse à praia. Eu podia ter chamado o garoto cabeçudo pra ir comigo, mas, não. Eu fui só. Eu, garoto de bairro, então ainda periférico, de uma cidade do interior, atravessei uma avenida de capital à beira-mar, disposto a ter meu primeiro encontro com as salgadas águas de Iemanjá.

Entenda o tamanho da encrenca: além de não conhecer Salvador, estar sozinho e não ter avisado a ninguém da minha aventura, eu nunca soube nadar, exceto na modalidade "bigorna". Mesmo assim, fui e não tive medo de me meter na água (que, felizmente, não estava em um dia particularmente furioso), de short e camiseta, mesmo. Do meu lado, um garoto qualquer seria a vítima de minha desajeitada tentativa de contato humano: "água salgada da porra, né?"

Poucos minutos depois, diante do receio de ser descoberto em minha travessura, eu fiz o que qualquer "meliante" discreto faria, só que não: voltei ensopado para o edifício, com o porteiro dirigindo olhares fulminantes a mim, além de alagar e deixar areia no elevador. 

Dane-se. Eu tinha ido à praia em Salvador. Sozinho. Com aquela idade, isso equivalia a vencer na vida - e eu venci, bitches!

2 comentários:

Gerlande Diogo disse...

Travessuras, quem ñ fez?

Do Vale disse...

Marlo, dia desses conversando com meus primos a gente lembrava de como nossos pais nos deixavam sair sozinhos, por volta dessa idade, aqui em São Luís. Era uma aventura MESMO. O programa era praia ou shopping, mas dava uma sensação de liberdade muito grande. Imagino tu SOZINHO então como foi na tua cabeça passar por tudo isso sozinho.
Abraço, meu querido!