30/04/2016

Cicatrizes de Guerra


Analisando friamente, o imenso cemitério de promessas não-cumpridas chamado Batman vs Superman: A Origem da Justiça é apenas reflexo do que acontece na própria DC Comics: um panteão inigualável de heróis e vilões, sofrendo em "revoluções" meia-boca a cada doze meses nas HQs e em filmes que cedem ao peso da "genialidade" de executivos da Warner, pessoas que parecem não entender da sétima ou da nona arte, muito menos como combiná-las. Até quando será possível gabar-se das glórias da trilogia de Christopher Nolan com o Batman?

Capitão América: Guerra Civil é o mais espetacular chute no traseiro que a DC/Warner um dia sonhou que pudesse levar. É uma verdadeira aula de cinema de ação, elevando ao cubo o já alto padrão obtido pelos irmãos Anthony e Joe Russo em Capitão América: O Soldado Invernal (2014) e apontando um rumo novo e dramático (pero no mucho) para os principais personagens dos Marvel Studios. Batman vs Superman pode ter feito boa carreira nas bilheterias (mais por conta da expectativa gerada do que por méritos artísticos), mas suas pretensões como filme-evento do ano estão oficialmente sepultadas desde quinta-feira passada.

Enquanto nas HQs a Guerra Civil (escrita em 2006 pelo escocês Mark Millar) começa quando uma creche é explodida por um supervilão série C (Nitro, alguém?), no filme, o motivo é o rastro de destruição deixado a cada vez que os Vingadores salvam o mundo (incluindo uma nova e desastrosa missão na Nigéria). Nos quadrinhos, a luta é pelo registro das identidades secretas dos superseres. No filme, isso não faria sentido, já que o elenco atua sem máscaras. Em vez disso, temos o Tratado de Sokóvia, proposta que torna os Vingadores uma força-tarefa a serviço das Nações Unidas. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) aceita. O Capitão América (Chris Evans) rejeita.

O conflito ideológico não tarda a descambar para a violência física quando o Soldado Invernal (Sebastian Stan), foragido após os eventos do filme anterior, é acusado por um atentado a bomba contra a ONU. Recusando-se a acreditar que o amigo tenha cometido o ato, o Capitão parte em sua defesa. Com ele, estão o Falcão (Anthony Mackie) e a Feiticeira Escarlate (Elisabeth Olsen). Ao lado do Homem de Ferro, estão Máquina de Combate (Don Cheadle) e uma hesitante Viúva Negra (Scarlett Johansson). Com propósitos opostos, os dois times saem no encalço do Soldado, ganhando importantes acréscimos ao longo do filme.


A primeira coisa que chama atenção é a qualidade dos efeitos especiais, que tornam naturais as mais improváveis proezas físicas, e das elaboradíssimas coreografias de lutas. Embora não se veja muito sangue, existe uma "tensão pré-morte" permeando todo o filme e dá pra gente "sentir" o peso e a violência de cada golpe. Também merece crédito a espantosa versatilidade das asas do Falcão, transformando cada aparição sua em um show à parte. Como nos quadrinhos, Sam Wilson mostra-se o parceiro perfeito de Steve Rogers.

Há um ótimo equilíbrio na participação de todos os heróis envolvidos, com todos tendo momentos cruciais. Além dos já citados, temos ainda o Visão (Paul Bethany), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), o Homem-Formiga (Paul Rudd) e as esperadas adições de Pantera Negra e Homem-Aranha. O soberano de Wakanda é a presença mais ágil, vigorosa e impressionante, mostrando que Chadwick Boseman está apto para um filme só seu. Já Tom Holland entrega o melhor Homem-Aranha já visto nas telas, simples assim. A cena em que é convocado pelo Homem de Ferro rende as situações mais divertidas do filme. Do Homem-Formiga, durante a longa e empolgante batalha no aeroporto de Leipzig, vem a maior das surpresas.


Por mais que pareça mais um filme dos Vingadores, o roteiro necessariamente privilegia o conflito entre o Capitão e o Homem de Ferro, num crescendo dramático que atinge o ápice quando Stark descobre uma dolorosa verdade sobre seu passado. Cada duelo provoca as reações e reflexões do espectador, mas este é o momento em que mais nos perguntamos: "e se fosse comigo?" Durante todo o filme, as ações dos heróis e as consequências de sua falibilidade são discutidas com surpreendente consistência.

Capitão América: Guerra Civil é um filme de super-heróis porque desejamos chamá-lo assim. Na verdade, trata-se de um thriller sagaz e comovente, um filme de gente grande, conduzido com maestria. Dificilmente vai emplacar alguma indicação ao Oscar fora de categorias técnicas, mas não seria por falta de merecimento do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely ou da direção assombrosamente segura dos Russo. A última vez que me senti assim foi há oito anos, quando assisti a Batman: O Cavaleiro das Trevas. Como em 2008, sinto que hoje presenciei uma gigantesca quebra de paradigmas. Se já vai ficar difícil para a própria Marvel fazer melhor, o que dizer da DC/Warner, coitada...

2 comentários:

Jose Rabelo disse...

Ansioso por assistir e depois desse texto então...valeu Marlo...

Gerlande Diogo disse...

Ainda ñ vi o filme, mas em relação à DC, torço pra que alcance o mesmo nível da Marvel