08/05/2016

Os que chegam com a noite


Com sua cota de pequenas obras-primas e grandes decepções, a coleção Graphic MSP rompeu a marca das dez edições como uma das mais sólidas novidades do quadrinho nacional. Claro, tudo isso tem muito a ver com a "grife" Maurício de Sousa e o imenso amor que suas criações têm despertado há mais de 50 anos. Agora que o potencial comercial está mais que confirmado, a responsabilidade da MSP é garantir roteiristas e artistas cada vez melhores e assegurar a sobrevida da coleção por mais dez edições e além.

Papa-Capim: Noite Branca, a 11ª, é um bom esforço neste propósito. A dupla responsável pela transposição das aventuras do indiozinho, criado por Maurício em 1963, foi muito bem escolhida. O consagrado Renato Guedes (Superman, Constantine) empresta seu traço leve e realístico para dar forma e força à trama, com elementos de terror, conduzida com habilidade por Marcela Godoy (Liah e o Relógio).

Havia um grande risco de fracasso em adaptar Papa-Capim aos olhos adultos - um risco que se ampliava com a opção de retirar da histórias os elementos cômicos (ainda está fresca, na memória, a enorme decepção com Turma da Mata: Muralha). Para nosso alívio, não houve sacrifício da essência do personagem. O medo e o perigo de morte existem para Papa-Capim, mas a história de Godoy os coloca a serviço de seu amadurecimento (ritos de passagem e purificação são, afinal, um tema caro à mitologia indígena).

Existia, ainda, a possibilidade de cair no ridículo dos estereótipos sobre os nativos, mas a história não os trata, em momento algum, como coitados ou exóticos. A crítica social está presente, mas não é panfletária, nem toma o centro da história. Talvez seja este cuidado com o que realmente importa (fazer uma história que possa levar um adulto à reflexão, mas que ainda possa divertir uma criança) que tenha tornado este volume uma leitura tão agradável.


Resumidamente, a trama coloca Papa-Capim contra uma ameaça sobrenatural que paira sobre sua aldeia. Suas piores suspeitas se confirmam, mas os adultos parecem ignorar seus avisos. Com a ajuda de seu amigo Cafuné, ele espera salvar os aldeões, especialmente a Jurema que tanto lhe encanta. Papa tem a chance de obter ajuda contra o terror da noite, mas isso significa entregar-se a uma experiência assustadora.

Não é uma HQ para se ler com medo (como chega a cogitar Maurício, na introdução), mas é boa diversão e traz surpresas interessantes. É uma história honesta, bem contada e, diga-se de passagem, com grande potencial para adaptação ao cinema. Não alcança as rarefeitas altitudes de Laços e Lições, da Turma da Mônica, mas merece estar sentada apenas algumas nuvens abaixo, em lugar seguro e confortável. Ainda bem. Com a quantidade absurda de títulos publicados hoje em dia, errar na compra de uma HQ é um luxo a que muitos (eu, inclusive) não podem se dar. Papa-Capim: Noite Branca é, felizmente, uma flechada certeira.

Um comentário:

Gerlande Diogo disse...

Mais uma pra comprar :\ cadê dinheiro?