21/06/2016

Palavra da salvação


Desafiar o sistema é, desde sempre, um dos motores da arte. Sempre que a liberdade se vê ameaçada, a Arte floresce com especial vigor, tanto em quantidade quanto em impacto. Não poderia ser diferente quando a Arte desafia o que é tido como sagrado - afinal, a religião ainda é, em diferentes partes do mundo, um rolo compressor que esmaga sonhos e sonhadores. O risco de derrubar conceitos sacrossantos de seu pedestal está no ato em si: é preciso muita sutileza para não resvalar no choque gratuito ou na ofensa pura e simples. A crítica não-fundamentada e que não oferece alternativa não passa, apelando a um termo muito em voga, de mimimi.

Daí, você ouve falar de uma série da Vertigo chamada Preacher. Nela, o pastor do título é possuído por uma entidade meio anjo, meio demônio e passa a ter o dom da Palavra Divina. Ele usa seu poder numa caçada ao próprio Deus, que está escondido na Terra, depois de abandonar o céu sem maiores explicações. Ao seu lado, uma namorada que já foi ladra e matadora profissional; e um vampiro junkie irlandês. Tudo muito profano, violento e escatológico, perigosamente próximo do choque gratuito e da ofensa pura e simples a serem desejavelmente evitados.


Não se engane, Preacher é, sim, chocante e ofensiva. É leitura que exige estômago forte e mente aberta. Estando avisado, uma vez que você desbrave os primeiros cinco ou seis capítulos, vai começar a perceber que existe uma grande história sendo contada pelo irlandês Garth Ennis, que vai muito além da mera desconstrução de dogmas. Subtraída a estética bagaceira, evidenciada em sangrenta glória na arte de Steve Dillon, resta muita crítica ao modo de vida norte-americano, denúncia de exploração da fé e de violência doméstica, uma história de amor e amizade das melhores e muito, mas muito mesmo, dedo na sua cara e na minha, por conta de nossas pequenas, médias e grandes hipocrisias. Preacher não faz concessões, nem prisioneiros.

A saga de Jesse Custer começa na pequena Annville, Texas, onde ele é um pastor brigão e beberrão, em plena crise com sua fé. Durante um sermão, seu corpo é tomado por uma entidade chamada Gênesis, filha do amor proibido entre um anjo e uma "demônia". A possessão lhe confere o dom da Palavra Divina: ao ouvir um comando de Jesse, ninguém é capaz de desobedecê-lo.


Você pode pensar que, com um poder assim, a missão que Jesse se autodelega (achar Deus e forçá-lo a voltar ao Céu e encarar suas responsabilidades) será uma moleza, mas, se assim fosse, não haveria história. Após reencontrar seu grande amor (Tulipa) e conhecer seu novo melhor amigo (o vampiro Cassidy), Jesse enfrenta bandidinhos e bandidões, inocentes úteis e inúteis, cultos mequetrefes e um megaculto que deseja causar o Armagedom para empossar um novo messias. A cada edição, somos apresentados a um novo degrau de baixeza humana e, mesmo assim, tudo parece muito crível e próximo: podia ser seu vizinho; podia ser seu parente; podia ser você.

Toda essa galeria de personagens espetaculares (Herr Starr, Santo dos Assassinos, Cara de Cu e tantos outros) e situações extraordinárias poderia não render tão bem, não fosse Garth Ennis um escritor exemplar, mascarando profundas discussões políticas, morais e existenciais com coloquialidade e palavrões. A sagacidade do texto de Ennis está em parecer tão simples e, ao mesmo tempo, revelar tanto refinamento, sob leitura mais atenta. Nem os mais longos balões ou recordatórios causam fadiga ao leitor, uma proeza a ser tomada como exemplo por qualquer um com ambições no campo das letras. Aliadas à arte de Dillon, as capas de Glenn Fabry (algumas, maravilhosamente repulsivas) ajudam a compor um imaginário visual histórico e inconfundível.


O melhor de tudo é que toda a odisseia de violência, absurdo, tristeza e alegria vivida pelos personagens tem serventia. Jesse, Tulipa e Cassidy chegam ao final do nono volume marcados, porém, transformados. Nos momentos finais do último capítulo, existem duas splash pages maravilhosas, uma linda e econômica síntese da única coisa que, ao fim de tudo, permanece inabalável - porque esta é, como dito antes, uma história de amor das melhores. Envolve 66 edições de sangue, tripas, balas e heresias, mas acaba com os maus punidos e os bons felizes. Não é assim que se constroem clássicos universais?

PREACHER
Garth Ennis e Steve Dillon
Panini Books / Vertigo Comics

Vol. 1: A Caminho do Texas
Vol. 2: Até o Fim do Mundo
Vol. 3: Orgulho Americano
Vol. 4: Histórias Antigas
Vol. 5: Rumo ao Sul
Vol. 6: Guerra ao Sol
Vol. 7: Salvação
Vol. 8: Às Portas do Inferno
Vol. 9: Álamo

10/06/2016

Jukebox Encantada #5


GOSSIP
MUSIC FOR MEN
(2009)

Um disco de apenas sete anos atrás, frequentando uma seção dedicada a clássicos? Questionar é seu direito, mas, antes disso, você precisa entender (e comprovar) que Music for Men, quarto álbum do Gossip, é cheio de predicados que o qualificam para a honraria.

Não lembro se foi por sugestão da Rolling Stone Brasil ou diretamente no YouTube, mas meu primeiro contato com a música do Gossip foi com a sétima faixa - e quarto single - deste disco, "Men in Love". Abria com uma contagem marcada em baquetas, seguida por um riff de baixo estalado, ganhando peso com a bateria funky e um fraseado de guitarra curto e agressivo. Quando a vocalista Beth Ditto abriu os pulmões, eu já estava conquistado, mas ela ainda me fez babar colorido. Era um troço meio punk e meio disco, que me prendia pelos ouvidos e não soltava por nada!

Como você sabe, a música digital praticamente destruiu o hábito de escutar álbuns do começo ao fim. Eu sou vítima dessa síndrome. Demoraria bastante até que eu ouvisse Music for Men como se deve: do começo ao fim, em sua sequência original de faixas. A bem da verdade, afirmo, sem muita certeza, que fazer isso enquanto escrevo este texto talvez tenha sido a primeira vez. 

Não que isso me desqualifique para comentar e recomendar faixas matadoras, como a sublime trinca de abertura ("Dimestore Diamond", "Heavy Cross" e "8th Wonder"), em que o produtor Rick Rubin mesclou peso e groove à perfeição. Os três primeiros discos do Gossip têm boas canções, mas o polimento de um produtor de primeira linha trouxe o equilíbrio entre doçura e selvageria que costuma catapultar promessas do rock ao estrelato. Semi-baladas perfeitas, como "Love Long Distance" (que brinca com um clássico de Marvin Gaye em sua letra), comprovam o potencial radiofônico da banda, enquanto o encerramento furioso, com "Spare Me From the World", acena ao seu passado garageiro.

Gossip: Hannah Blilie, Beth Ditto e Brace Paine.

Estamos falando de um disco com 12 faixas, cheias de refrões ganchudos, desses que a gente tem ímpetos de cantar junto, enquanto anda na rua, toma banho ou lava a louça. Music for Men nasceu clássico, com a andrógina imagem da baterista Hannah Blilie na capa, mas é o capricho pop de suas canções que justifica sua inclusão entre os grandes discos lançados na primeira década do século 21. É um daqueles discos que não se ouve impunemente: é impossível que seu corpo não reaja à pulsação da música do Gossip.

Não sei se por força da comparação ingrata com um disco tão bom, senti que seu sucessor não chegou nem perto do brilhantismo alcançado aqui. A Joyful Noise permanece como um disco a ser redescoberto, mas, lá em 2012, me pareceu indigno de pleitear igualdade com o neoclássico anterior. 

Para minha tristeza, em meio à procura por informações sobre um possível novo álbum da banda, descobri que ela foi desfeita no começo deste ano. Desconheço as razões e, sinceramente, me importo muito pouco em descobrir. O que sei é que, sempre que puser este disco pra tocar, vou lamentar o fato de que o Gossip não teve oportunidade para desafiar seu próprio auge criativo.

Gossip - Music for Men
Lançamento: 19 de Junho de 2009.
Produção: Rick Rubin.

01 - "Dimestore Diamond"
02 - "Heavy Cross"
03 - "8th Wonder"
04 - "Love Long Distance"
05 - "Pop Goes the World"
06 - "Vertical Rhtyhm"
07 - "Men in Love"
08 - "For Keeps"
09 - "2012"
10 - "Love and Let Love"
11 - "Four Letter Word"
12 - "Spare Me From the World"