14/11/2016

Abra seu olho e veja


A tal "fórmula Marvel" é um assunto muito discutido internet afora. O mix de aventura e humor costuma agradar mais do que desagradar (ou os filmes não fariam centenas de milhões de dólares a cada lançamento), mas a tática dos Marvel Studios de nunca se aprofundar muito no desenvolvimento dos personagens ou tramas já começa a irritar a espectadores mais exigentes.

Doutor Estranho não é imune a críticas, uma vez que é um dos seus filmes com humor mais capenga. Algumas tiradas até funcionam, mas muitas são deslocadas ou, simplesmente, inconvenientes (como a reação de Wong, ao final da última batalha). Em que pesem as interrupções engraçadinhas, Dr. Estranho tem bom ritmo e acaba revelando-se um dos melhores filmes de origem da Marvel, além de expandir as fronteiras místicas de seu universo.

Se você nunca tinha ouvido falar do Dr. Estranho, não se sinta mal: o personagem nunca foi nenhum fenômeno de popularidade. Shamballa, de J. M. de Matteis e Dan Green, é a única HQ protagonizada por Stephen Strange que me recordo de ter lido, há mais de 20 anos (ainda assim, a verdade é que me lembro que li, mas não me lembro do que li). A propósito, o título está de volta às bancas, em relançamento pontual da Panini Comics.

A trama segue o que sempre me veio como a origem clássica do Mago: Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um cirurgião exímio e arrogante, para quem importa menos a salvação do paciente do que seu sucesso pessoal na execução. Egomaníaco de carteirinha, ele destrata a estranhos, colegas e a agora ex-namorada, a dra. Christine Palmer (Rachel McAdams). Ao sofrer um horrível acidente de carro, tem suas mãos (seus mais caros instrumentos de trabalho) esmagadas, além de qualquer recuperação ao alcance da medicina.

Sua busca por uma cura virtualmente impossível o leva, primeiramente, à falência; em seguida, ao Nepal, onde é acolhido como aprendiz da Anciã (Tilda Swinton), que o inicia nos segredos de coisas que Stephen, ao chegar, sequer acredita: energias e projeções espirituais, entidades cósmicas, universos alternativos...


Para incredulidade da Anciã e dos mestres Mordo (Chiwetel Ejiofor) e Wong (Benedict Wong), além da sua própria, Stephen revela altíssima afinidade com as artes místicas, tanta quanto já teve o antigo mestre Kaecilius (Mads Mikkelsen), que violou as leis naturais e aliou-se a forças malignas. Com ajuda de alguns discípulos, Kaecilius espera preparar a Terra para anexar-se à dimensão sombria. Cabe a Strange e seus aliados impedi-los.

Mesmo que Scott Derrickson não possa ser considerado um diretor com assinatura, ele não decepciona em entregar um blockbuster divertido e com visual psicodélico (as primeiras viagens astrais de Strange me remeteram à minha própria experiência com ayahusca, há quatro anos). Os efeitos visuais são incríveis, com a experiência de "dobras de realidade" de A Origem sendo elevada à enésima potência. Talvez seja prematuro cravar, mas me parece que já temos o vencedor do Oscar da categoria em 2017.

Salta aos olhos, também, o elenco acima da média, com óbvio destaque para Cumberbatch e Swinton. Os ataques de fúria de um e a serenidade extrema da outra encontraram o tom exato. A trajetória de desilusão do personagem de Ejiofor também ganha uma interpretação com boas nuances. Por outro lado, Mikkelsen me pareceu um tanto canastrão, e McAdams, apagada.

Até a primeira de suas duas cenas pós-créditos, Doutor Estranho funciona perfeitamente para quem nunca assistiu aos demais filmes do Universo Marvel (mas, fala sério, ainda existe alguém assim?). Nessa primeira cena, abre-se a porta para a participação de Strange em um filme de outro personagem. Na segunda, nasce o provável inimigo da segunda aventura do mago (ainda sem previsão de estreia, mas inevitável, diante do sucesso deste primeiro filme).

Cobrar mais "densidade" da Marvel pode até não fazer muito sentido, uma vez que seus filmes são produtos de escapismo assumidos, mas este filme, com suas breves discussões sobre o tempo e a mortalidade, dá um bom vislumbre de que o estúdio poderia - e deveria - arriscar-se um pouco mais. Algumas boas sacadas do roteiro são comprometidas pela incompreensível necessidade de encaixar piadas em momentos tensos. Esse negócio de dar ao público apenas o que ele (supostamente) quer pode prender os filmes numa espiral de previsibilidade que, com o tempo, talvez acabe afastando esse mesmo público, enjoado da mesmice. Doutor Estranho ainda conta pontos a favor da Marvel, mas talvez seja hora de alguém acender uma luz amarela.

3 comentários:

Gerlande Diogo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gerlande Diogo disse...

Tb tenho pensado assim da Marvel. Tem q mudar pra ñ enjoar

Scant Tales disse...

Ótimo post!