17/03/2017

Animal ferido


Já faz quase 20 anos que X-Men (Bryan Singer, 2000) fez os estúdios acordarem, mais uma vez, para o potencial lucrativo das adaptações de HQs - e Hugh Jackman já estava lá, a única unanimidade naquele e nos filmes que vieram em seguida. O ator certo, no papel certo, na hora certa.

A gente se acostumou a ver Hugh Jackman como Wolverine. Não importa que, entre os intervalos da franquia mutante, ele tenha feito diversos filmes de diversos estilos - ora, diabos, não importa nem mesmo que ele tenha sido indicado ao Oscar! Bom mesmo era quando ele ejetava as garras e fatiava um sujeito (ou vários!).

Acontece que Jackman, previsivelmente, se cansou de ser o carcaju. Desde o início da produção, Logan foi anunciado como sua despedida do personagem - e, felizmente, é uma saída de cena bastante honrosa: simples assim, Logan rivaliza com os melhores momentos das aventuras mutantes (em minha opinião, X-Men 2 e X-Men: Primeira Classe), se é que não os supera.

A evidente inspiração em O Velho Logan, minissérie de Mark Millar e Steve McNiven, que apresentou ao mundo um Wolverine idoso, está limitada à aparência do personagem e à ambientação num futuro em que uma grande tragédia forçou Logan a guardar as garras. Envelhecido e visivelmente doente, ele opta por "sumir" e evitar problemas.

No filme, Logan trabalha como motorista de limousine de aluguel. Ao fim de cada dia, retorna para uma fazenda abandonada, onde vive recluso, contando apenas com a companhia do mutante rastreador Caliban (Stephen Merchant) e de um combalido Charles Xavier (Patrick Stewart), delirante e sob medicações que ajudam a manter seu poder sob controle.



Quando recebe uma proposta para levar uma garota até Dakota do Norte, perto da fronteira com o Canadá, Logan inicialmente reluta, mas o envolvimento do ciborgue Donald Pierce e seus Carniceiros - mais o fato de que a garota, Laura (Dafne Keen), guarda espantosas semelhanças com o próprio Logan - o faz embarcar numa jornada de perigo e morte - mas, também, de emoção e descobertas.

O que faz de Logan um filme tão bom é o óbvio ululante: existe uma boa história sendo bem contada. Não é um amontoado de cenas "massavéio" pra impressionar adolescentes (e que se diga, como em Deadpool, a opção pela censura R fez toda a diferença), nem existe obrigação de interromper os dramas em curso pra inserir piadas (o humor existe, mas é espontâneo e discreto). 

Logan serve ainda para Patrick Stewart justificar seu título de Sir. Ator shakespeareano, ele deixa para trás a pose impassível de "velho sábio e sereno" e, sob a batuta de um diretor de atores bem melhor do que Bryan Singer, entrega uma performance emotiva e rica em nuances. James Mangold extrai de Hugh Jackman, também, seu melhor trabalho na série (e isso tem a ver com qualidade, não quantidade - quem já viu, entendeu). Coroando o afiado trio de protagonistas, a menina Dafne Keen é um verdadeiro achado, alternando selvageria e doçura igualmente generosas.


Para não dizer que tudo dá tão certo assim, o calcanhar-de-Aquiles dos filmes da Marvel é exposto mais uma vez: os vilões de Logan, embora não comprometam, não chegam a fazer a gente temer ou espumar de ódio deles. Boyd Holbrook como Donald Pierce é pouco mais que um leão-de-chácara com braço mecânico, e Richard E. Grant não causa grande impacto como Zander Rice. O caráter não-espetacular dos caras maus pode ter sido uma opção consciente, visto que o filme tem todo um jeitão pé-no-chão, mas, mesmo assim, vai pro caderninho de vilões meia-boca que comprometem os filmes da Marvel, de vez em sempre.

O mesmo trunfo que, quase duas décadas atrás, colocava X-Men acima de tudo que havíamos visto até então, é o que, hoje, consagra Logan como um filme redentor: é preciso haver dramas com os quais o espectador se importe, e é preciso que os personagens sejam transformados pela dor que enfrentam. Logan tem como protagonista um homem doente, atravessando o país com um sequelado que já foi a mente mais poderosa do planeta e seu pai de consideração, pra levar uma garota pouco sociável e que não teve infância a um encontro com supostos amigos, num lugar que talvez nem exista. Redenção, abnegação, utopia. Estas coisas tocam as pessoas nos músculos certos do coração.

Transformada em evento, a despedida de Hugh Jackman do papel de Wolverine merece o status. Logan é o canto-de-cisne mais bonito no subgênero de super-heróis. Ele soprou vida real em um personagem que só existia em papel. É o tipo de proeza que a gente costuma atribuir a seres de outra grandeza.

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