03/03/2017

Teste dos 20 Anos - 1997


Em 1997, a música vivia tempos estranhos.

Quem mandava lá fora era o techno (de sonoridade mais suja e pesada que o technopop do começo dos anos 80, favor não confundir), a ponto de a maior banda do planeta, o U2, fazer um disco com alto grau de influência da tal coisa. Outra moda clubber, o drum 'n' bass, nascia para o grande mercado (morrendo já no ano seguinte, sem deixar saudade). O Metallica lançou mais um disco odiado (ReLoad) e o Oasis chegava ao megaestrelato com um disco chato, pontuado por bons singles (Be Here Now). Na black music, foi ano em que o mundo conheceu Beyoncé, via Destiny's Child.

No Brasil, Chico Science morreu, forçando a Nação Zumbi a achar um caminho sem ele - e acharam! Os últimos registros de estúdio da Legião Urbana chegavam ao público, um ano após a morte de Renato Russo. Nas rádios, reinavam o axé e o pagode romântico, mas o rock achava espaço, com a  alta popularidade do primeiro disco do Charlie Brown Jr.

Só esclarecendo, mais uma vez: tinha discos mais importantes pra comentar, tipo o Urban Hymns, do The Verve? Tinha, mas eu escolhi discos que eu ouvi por inteiro, no momento certo (ou seja, no lançamento, ou pouco depois disso). Conheço os discos acima, mas não escutei alguns deles por inteiro - até hoje! - ou só os ouvi muito tempo depois. Se seu disco favorito não está na lista, você pode deixar sua opinião (antiga e atual) sobre ele nos comentários.



THE BRAND NEW HEAVIES
SHELTER


Foi amor à primeira vista?
Eu já lia sobre The Brand New Heavies havia uns quatro anos, sem nunca ter chance de ouvi-los. Um elogio da Showbizz e uma promoção do saudoso Musiclub (lembra?) me levaram a comprar este disco. Logo tornou-se um dos meus discos favoritos, com sua mistura precisa e elegante de funk e soul, um oceano de melodia, num ano em que a estranheza dos anos 90 atingia uma espécie de ápice. Pop e chique até dizer chega!

Ainda rola gostoso?
Sim, sim! É o unico álbum da banda com vocais de Siedah Garrett e ela vai bem tanto em baladas açucaradas ("Feels Like Right") e magoadas ("Stay Gone", um passa-fora daqueles!), quanto em momentos funky ("I Like It", "You Are the Universe"). A banda tem outro vocalista fabuloso, o baterista Jan Kincaid, que canta a minha favorita, "After Forever". Tudo é de tão alto nível que a boa cover de "You've Got a Friend" (Carole King) acaba soando dispensável.


FLEETWOOD MAC
THE DANCE


Foi amor à primeira vista?
Eu só conheci este álbum em 1999, quando um amigo em Itumbiara (GO) o apresentou. Tratava-se do MTV Unplugged do Fleetwood Mac - o que era bastante estranho, sendo o disco tão elétrico. Rock folk setentista dos bons, com Lindsey Buckingham debulhando na guitarra e Stevie Nicks carregando lindamente no drama de "Rhiannon" e "Landslide". O grupo esteve oficialmente desfeito por 10 anos, mas os membros seguiam colaborando entre si, o que explica a sintonia ouvida aqui.

Ainda rola gostoso?
A versão de "The Chain" (a música dos trailers de Guardiões da Galáxia Vol. 2) contida neste álbum é minha favorita. Ainda é muito agradável escutá-lo, porque ele é cheio de músicas pop de primeira, como "Dreams" e "Say You Love Me" e as então inéditas "My Little Demon" e "Bleed to Love Her". Com o Fleetwood Mac saindo em turnê mundial este ano, não custa sonhar com uma passagem pelo Brasil.


GABRIEL O PENSADOR
QUEBRA-CABEÇA


Foi amor à primeira vista?
Ah, foi, sim! Dois anos antes, Gabriel tinha cometido um disco fraco (Ainda É Só o Começo), autorreferente e mal-humorado em demasia. Voltando sob a produção do DJ Memê (um mestre dos remixes e samples), Gabriel mostrou que dava pra fazer música alegre falando de coisa séria ("Dança do Desempregado", "Pátria que Me Pariu", "Cachimbo da Paz") ou nem tão séria assim ("2345meia78", "Eu e a Tábua", "Festa da Música"). Tocou e vendeu pra caramba, dando moral pra Gabriel abrir um show do U2 em BH, no ano seguinte.

Ainda rola gostoso?
Encarado como música pop, sim. Memê sampleou Chic, The Floaters, Hall & Oates e Jocelyn Brown (entre outros), criando bases matadoras pra Gabriel deitar seu rap, cujos temas sociais permanecem relevantes (violência, legalização da maconha, desemprego, abandono infantil), mas cujo compasso ficou datado e, agora, me provoca certa impaciência pelo uso exagerado de vozes coadjuvantes "engraçadinhas".


MORRISSEY
MALADJUSTED


Foi amor à primeira vista?
Depois do estranho Southpaw Grammar (1995), com algumas faixas quilométricas onde pouco se ouvia a voz de Morrissey, foi bom tê-lo de volta a um formato mais ortodoxo, mas este foi um disco que custou a me ganhar. Exceto por "Wide to Receive" (emocionante desde a primeira audição do primeiro acorde), tudo veio se acomodando aos poucos em meus ouvidos.

Ainda rola gostoso?
Não sei bem. Este é um disco que ouço pouco, embora goste muito de músicas como "Alma Matters", "Satan Rejected My Soul", "Roy's Keen" e "Papa Jack". Confesso que ando meio cansado de Morrissey, ultimamente, como já me cansaram antes outros artistas que amo. É só uma fase, eu sei, mas é este o momento em que escrevo. Como vários outros de Moz, este disco tem uma versão remasterizada, com faixas extras e com capa diferente.


RADIOHEAD
OK COMPUTER


Foi amor à primeira vista?
The Bends (1995), o anterior, tinha sido um discaço. Natural esperar coisa boa do Radiohead, mas a crítica exagerou tanto no endeusamento a este disco, que eu peguei um bode do cão (sic) antes de ouvir qualquer faixa. O Radiohead tinha ficado esquisito, mas de um jeito que ainda era bom. Minhas favoritas eram as mesmas de hoje: "Exit Music (For a Film)", "Let Down" e "No Surprises".

Ainda rola gostoso?
Hoje, para mim, Radiohead virou sinônimo de chatice. Claro, tem músicas formidáveis aqui e ali, mas tem muita, muita, muita esquisitice pela esquisitice. OK Computer, porém, segue sendo um grande disco, retrato preciso de um momento da humanidade, e minhas três favoritas são, afinal, atemporais.


SOUL II SOUL
TIME FOR CHANGE


Foi amor à primeira vista?
Corroborando o título ("tempo de mudança"), este foi um disco bastante diferente do Soul II Soul. Em lugar de house music, o disco tinha funk e pequenas concessões à chatice do drum 'n' bass (quase obrigatório entre 1997 e 1998). Em lugar de Caron Wheeler e outras divas, vocalistas masculinos em quase todas as faixas, exceto pela linda "Thank You". Desde a primeira audição, "Pleasure Dome", "Get Away" e "I Feel Love" grudaram bonito.

Ainda rola gostoso?
Engraçado como eu nunca considerei o positivismo de Jazzie B como sendo autoajuda - e é. Ele tem um modo de dizer as coisas que me agrada desde o primeiro álbum. Este aqui até que envelheceu bem e creio que deveria ter feito mais sucesso. "I Feel Love" (com vocais masculino e feminino) é mortífera numa pista de dança e as baladas continuam muito agradáveis. Infelizmente, Time for Change foi o canto-de-cisne do Soul II Soul.


TIMBALADA
MÃE DE SAMBA


Foi amor à primeira vista?
A Timbalada, naqueles históricos cinco primeiros anos de atividade, era a maior beneficiária da criatividade e talento de Carlinhos Brown. Mesmo sendo um disco mais "difícil" do que Mineral (1996), Mãe de Samba emplacou alguns hits, apesar da pegada mais roots, com mais peso percussivo e metais cristalinos de tão límpidos.

Ainda rola gostoso?
Não todo de uma vez, mas dá pra programar as faixas em duas metades, pra ouvir em momentos distintos. Ainda é arrepiante a participação de Alcione em "O Erro e o Concerto", e o pula-pula desenfreado de faixas como "Ai", "Bum" e "A Latinha" é um desafio pra minha energia de quarentão. Para irritar vizinhos intolerantes, nada melhor que a primeira ("Na Beira do Mar") e a última ("Mãe Oyá"), faixas que ainda ouriçam o que quer que seja africano dentro de mim.


TITÃS
ACÚSTICO MTV


Foi amor à primeira vista?
Depois do peso de Titanomaquia (1993), os Titãs haviam voltado ao pop em Domingo (1995) e parecia justo querer coroar isso com um disco acústico, um dos quatro cavaleiros do apocalipse (sendo os outros três: discos ao vivo, coletâneas vagabundas e techno). Era preciso muita má-vontade pra não se derreter com os arranjos modificados de músicas como "Flores", "Pra Dizer Adeus" e "Comida". Vendeu e tocou um absurdo!

Ainda rola gostoso?
Sim, pois estamos falando de clássicos perenes do rock nacional e de convidados sensacionais (Jimmy Cliff, Marisa Monte, Fito Paez), ora essa. As então inéditas ("Os Cegos do Castelo", "A Melhor Forma" e "Nem 5 Minutos Guardados") já davam mostra de que os Titãs seriam suavizados - naturalmente, devido à idade que chegava; e mercadologicamente, tornando-se irritantes ícones românticos e de autoajuda.


U2
POP


Foi amor à primeira vista?
Ora, na década de 90, após os irretocáveis Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), o U2 podia qualquer coisa e eu aplaudiria até peidos! Mas, em Pop, a mão techno pesou. Barulhinhos e deboche demais, em canções não tão inspiradas assim, ainda que dignas, em sua maioria. Apesar disso, foi muito ouvido e repetido, principalmente em seus momentos mais "padrão U2", como "Staring at the Sun", "If God Will Send His Angels" e o monumento western "Wake Up Dead Man".

Ainda rola gostoso?
"MoFo" era puro techno, e techno é uma coisa morta e nada saudosa. Passo por cima dela e de "Miami" sem dor na consciência.  Por outro lado, a cada ano que passa, gosto mais do riff de "Discothèque", a carta de intenções da época. Enquanto escrevo, me pego pensando em como seria se Johnny Cash tivesse encerrado este disco, também, cantando "Wake Up Dead Man". Que mundo lindo teríamos!


WYCLEF JEAN
THE CARNIVAL


Foi amor à primeira vista?
O estrelato conjunto dos Fugees durou pouco - dois discos. Em carreira solo, Wyclef Jean largou na frente de Lauryn Hill e Pras, poucos meses após o fim do grupo. Longo (24 faixas, entre canções e vinhetas) e cheio de participações memoráveis (Celia Cruz, The Neville Brothers, Rita Marley), o álbum mostrava uma diversidade musical e bom humor contagiantes, com pausas para momentos românticos e reflexivos. Caiu em meu gosto como poucos do gênero.

Ainda rola gostoso?
Sim, embora seja inegável (e até inevitável) que a maioria das batidas estejam datadas. Ainda dá pra rir com o "julgamento" de Wyclef entre as faixas. Os samples e convidados ainda agradam bastante, especialmente The Neville Brothers, em "Mona Lisa" (que vocais, amigos!), e Lauryn Hill, que brilha e emociona em "Sang Fézi", flutuando graciosamente sobre a melodia de "House of the Rising Sun" e roubando o show do colega por breves e lindos segundos.

3 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo blog!
O álbum "Ok Computer" não é bom, na minha opinião, claro!
abraços...

Gerlande Diogo disse...

Ah, como eu gosto desses testes dos 20 Anos :)
The Brand New Heavies, Soul II Soul e Wyclef Jean, se eu ouvi ñ lembro; o do Fleetwood Mac, infelizmente, ñ ouvi, passei batido; esse de Gabriel O Pensador ouvi quase todo, gostava de algumas, outras ñ; Morrissey, Morrissey, Morrissey, pouco ouvi Maladjusted, ñ sei porquê; ai contrário de The Bends, que gosto demais, acho Ok Computer um saco, muito ruim; da Timbalada ouvi algumas, nunca fui muito fã; o acústico dos Titãs eu tenho e gosto muito; esse do U2 nunca me convenceu, é fraco

Alex Voltagem disse...

Ainda me lembro do Brand New Heavies quando passo na porta de onde você morava lá na Benjamim.