17/05/2017

Olhos coloridos


Meu melhor amigo é negro. Eu não me lembro de um momento na vida em que a gente não se conhecia. A gente era vizinho de porta, e não é exagero dizer que nossa amizade começou no berço. Em um mundo ideal, isto bastaria para afirmar que eu não sou racista, mas a verdade é que eu sou racista, sim, e é incômodo admitir.

Em nível consciente, estou sempre conversando, estudando, mudando atitudes. Sob minha casca de civilidade, porém, ainda luto contra pensamentos de "preto isso" e "preto aquilo", que surgem sem dar aviso. É uma programação mental secular. Não sei se conseguirei apagá-la totalmente antes de morrer, mas eu tento.

Eu e Hermes continuamos melhores amigos, basicamente, porque ele é uma pessoa melhor do que eu, que perdoou meu racismo por mais vezes do que consigo me lembrar. Obrigado, Herminho. Entre outras, te devo essa.

Se você é branco e acredita em mimimi, vitimismo e racismo reverso, sinto muito, mas Cara Gente Branca (Dear White People), produção da Netflix, vai lhe ofender muito. Sem um mea culpa, um mínimo de autocrítica que o faça entender que certas "brincadeiras" ou "verdades culturais" são, sim, expressões de racismo, você deve procurar outra coisa pra assistir.

Samantha White, a protagonista.

Na série, Samantha White é uma estudante da universidade Winchester que comanda um programa de rádio, no qual denuncia os episódios de racismo na instituição. Sentindo-se injustamente acuados, alguns estudantes brancos promovem uma festa blackface, em que brancos pintam o rosto de preto e usam perucas afro. A furiosa entrada na festa dos estudantes negros mais engajados é o estopim das tensões que pontuam os 10 episódios da série.

Embora pareça uma série que simplesmente destrata quem não é negro, Cara Gente Branca apenas esfrega na nossa cara as pequenas e grandes injustiças a que os negros são submetidos diariamente (e eu gostaria de concluir esta frase dizendo "nos Estados Unidos", mas não é segredo pra ninguém que o bicho pega ainda mais por aqui, na terra da "democracia racial").

E lá, como aqui, a admissão e o enfrentamento do problema não são unanimidades. Entre os personagens negros da série, existem aqueles que "não enxergam" o racismo ou preferem que Sam fique na sua, em prol de uma convivência aparentemente pacífica com os brancos donos do pedaço; existem os exaltados, que querem que Winchester acorde à força; e existe a própria Sam, com um pé nos dois mundos: negra de pele e olhos claros e namorado branco; nada branca para muitos, pouco negra para outros (para entender o que isso traz de vantagem e de perrengue, leia sobre colorismo aqui e onde mais puder).

Como parece que não pode deixar de ser quando o ambiente é uma universidade americana, existe o desfile de estereótipos: o nerd pequeno e fracote, o atleta bonitão, o menos bonitão e mais gente fina, a bonitona popular e inimiga da protagonista, a alienada engraçadinha... A comicidade dos tipos e de algumas situações, porém, está a serviço de discussões sérias e relevantes - e prepare-se para ficar bastante revoltado com um punhado de momentos difíceis de assistir.

Estranhamente, embora trate de um tema espinhoso com muito mais leveza e, ainda assim, mais responsabilidade do que uma 13 Reasons Why, por exemplo, parece que a ordem do dia é calar a repercussão de Cara Gente Branca e, mais ainda, evitar o desagradável exercício de encarar o dedo apontado para nossa cara e enfiado em nossas feridas mais feias.

Nenhum comentário: