27/05/2018

Noite de Trevas


Há 25 anos, o roteirista Paul Dini já gozava de prestígio na indústria de entretenimento, devido ao seu trabalho na Warner Animation, onde era um dos responsáveis por sucessos como Animaniacs e a impecável Batman: The Animated Series. Por todo esse tempo, um episódio muito traumático de sua biografia permaneceu pouco conhecido do público.

Em certa noite de 1993, ao voltar para casa após um encontro frustrado, Dini foi abordado por dois desconhecidos e cruelmente espancado. Um ataque sem causa aparente, mas que custou alto: socado e chutado principalmente na cabeça, Dini teve ossos do rosto esmigalhados e quase perdeu um olho. Para piorar, em vez de procurar ajuda médica imediatamente, ele apenas foi pra casa. Até que o bom-senso finalmente o fizesse ir ao hospital, o idiota ficou entregue à dor e aos delírios, "torcendo pra melhorar".


Em 2016, Shelly Bond, a então editora-chefe do selo Vertigo, da DC Comics, convenceu a Dini de que a história de sua tragédia valia a pena ser contada. Em vez de apenas contar o que aconteceu na noite em que quase perdeu a vida, ele decidiu fazer uma verdadeira "lavagem de roupa suja" de sua personalidade e suas relações pessoais. O resultado pode ser visto em Noite de Trevas: Uma História Real do Batman, recentemente lançada no Brasil pela Panini Comics.

O relato de Dini começa ainda em sua infância. Criança frágil e medrosa, o pequeno Paul encontrava refúgio na sua imaginação (povoada com os personagens dos quadrinhos e desenhos que amava), tentando escapar da uma realidade de bullying e invisibilidade social. Para sorte do autor, seu talento para desenhar e escrever sempre foi estimulado por seus pais. Para sorte da gente, foi esse talento que o levou ao universo (real) dos desenhos animados e quadrinhos.

É rápido o salto temporal até sua passagem pela Warner Animation. Os flashes do passado são entremeados por uma reunião (aparentemente, conosco) em que Dini explica a importância da história e do tom confessional, que inclui detalhes nada lisonjeiros sobre sua ocasional pequenez de caráter: ao longo de sua vida pessoal e profissional, Dini foi arredio, arrogante, ingrato, bunda-mole, autocondescendente e, às vezes, simplesmente, um grande filho-da-puta. É preciso muito autoconhecimento e uma dose ainda maior de coragem pra abrir o peito e expor-se ao julgamento alheio desta maneira.

Os momentos cruciais do relato de Dini são pontuados por participações de seu personagem favorito, o Batman - a quem "culpa" por não intervir em sua hora de necessidade, o que gera um bloqueio criativo. Não só ele: outros aliados e vilões "conversam" com Dini, ora incitando-o a fazer alguma idiotice, ora exortando-o a ter alguma hombridade. Embora tenha com eles os diálogos mais interessantes, as interações de Dini, porém, não estão limitadas a seres irreais: gente como Alan Burnett (notório roteirista de HQs e animações da DC) e Arleen Sorkin (atriz que empresta voz à Arlequina na animação do Batman) aparecem como amigos a quem Dini, desde então, devia um tributo de gratidão.

O artista recrutado para ilustrar sua descida ao inferno e posterior redenção foi alguém já acostumado a explorar recantos pouco iluminados da alma humana: o argentino Eduardo Risso, de 100 Balas (Vertigo) e "Cidade Castigada" (Batman). Com a maestria habitual, Risso transmite a dor, autopiedade e vergonha experimentadas por Dini. Noite de Trevas, porém, não é uma egotrip de masoquismo: é a jornada de um homem em busca de uma melhor versão de si mesmo - e, caramba, Dini apanhou um bocado (literal e figurativamente) para chegar a ela.


Para completar sua experiência com Noite das Trevas, após a leitura, escute AQUI o episódio de 7 Jagunços da Derrota sobre a graphic novel, em que meus colegas do Arte-Final discutem sobre a obra.

Um comentário:

Gerlande Diogo disse...

Uma hq do "Batman" diferente. Isso é bom. Pretendo comprar futuramente.