05/01/2026

Música & Mágica #9


CAETANO VELOSO
Estrangeiro
1989

Em 1989, ao mesmo tempo em que a geração BRock estava lançando discos elogiados e bem-sucedidos (Big Bang, dos Paralamas; Õ Blésq Blom, dos Titãs; As Quatro Estações, da Legião Urbana), havia no ar claros sinais de desgaste e mudança: a estética e a sonoridade "gringas" das bandas começavam a perder a atenção do público e da mídia, e o país voltava a olhar para dentro de si: o sertanejo e a axé music estavam surgindo para as plateias fora de seus estados originários, o romantismo desbragado de FM de Sullivan e Massadas ainda reinava, e até a estrangeira lambada ajudava a chamar atenção para a música feita na região Norte.

É bastante irônico que Caetano Veloso tenha escolhido esse contexto para lançar um álbum chamado Estrangeiro, que soava muito brasileiro e muito "do mundo" em iguais proporções. A produção esmerada dos brasilianistas Arto Lindsay e Peter Scherer deu ao disco timbres fortes, dignos de discos gringos, e a percussão de Carlinhos Brown e Naná Vasconcelos (1944-2016) deixavam pouca dúvida sobre seu alto teor de brasilidade.

"O Estrangeiro" (a canção tem o artigo masculino que falta ao nome do disco) abre com impressões de estrangeiros famosos sobre a Baía de Guanabara, principal cartão-postal do país. Na rebuscada letra, cheia de menções a artistas e movimentos culturais, Caetano, baiano radicado no Rio desde jovem, mistura suas próprias percepções às alheias, abraçando umas e refutando outras. Não finjo entender plenamente suas intenções, mas não há como ficar indiferente ao riff hipnótico de piano, a percussão poderosa, a gravidade da interpretação, e os mil barulhinhos eletrônicos sabiamente colocados.

"Os Outros Românticos", dedicada a Jorge Mautner, parece versar sobre a amizade dos dois, enquanto alude a Pixote e crianças abandonadas. Sobre mais uma base pesada de percussão, a letra de Caetano é vertida para o inglês e declamada pelo produtor Arto Lindsay, na segunda metade da canção.

Caetano em 1989

Para as mulheres de sua vida, Caetano dedica duas belas canções. Paula Lavigne é a musa da bossa "Branquinha", em que ele parece mal acreditar que ela pudesse ter-se interessado por "um velho baiano, um fulano, um Caetano, um mano qualquer". Para a primeira esposa, Dedé, Caetano dedica a delicada e sofisticada "Este Amor": "o que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer, o que de mim ninguém tira".

A admiração por João Gilberto (1931-2019) é reafirmada na funkeada "Outro Retrato" e na bossa "Etc.", enquanto "Jasper" tem poesia em inglês sobre teclados bonitos e climáticos. "Rai das Cores" fala disso mesmo: as cores das coisas. Parece óbvio falar que o mar é azul e a rosa é rosa, mas Caetano o faz com curiosidade e graça.

Dois momentos maravilhosos do disco são aqueles dedicados ao chamado "Brasil profundo", aquele pouco óbvio a uma mídia então acostumada a achar que o país era apenas Rio e São Paulo, "e o resto ao resto", para citar o próprio Caetano.

A primeira é a canção que se tornou simbólica da ascensão de Carlinhos Brown como compositor de prestígio: "Meia Lua Inteira" já era conhecida na Bahia por uma versão eletrificada do Chiclete com Banana, mas, ao ser incluída na trilha da novela Tieta, da Globo, ganhou o mundo na versão de Caetano. Os versos de fonética percussiva e nem sempre decifráveis de Brown trouxeram um frescor à MPB que se espalhou rapidamente. Ajudava muito que a música fosse um samba reggae delicioso, levado sobre riffs de teclado precisos e imediatamente reconhecíveis.

A segunda é "Genipapo Absoluto", que encerra o disco. A grafia atípica talvez traga referência a uma paquera de alguma festa de São João, em "junhos de fumaça e frio", quando se toma licor de jenipapo como se fosse água, na Bahia. A emocionante letra ainda traz menções carinhosas aos pais de Caetano, e evoca saudade de tempos mais simples, que pareciam perdidos para as novidades (de quase 40 anos atrás, mas, sim).

A sensação de ouvir Estrangeiro pela primeira vez foi a de estar escutando um disco extremamente moderno, carinhoso com o Brasil e culturalmente relevante. Não deixa de ser curioso que o polimento final tenha sido por um estadunidense (Lindsay) e um suíço (Scherer), mas, sejamos justos: mesmo nem sempre sendo um artista fácil (pelo que canta ou pelo que fala), Caetano sempre pautou sua carreira (que tinha em 1989 pouco mais de 20 anos) por um amor imenso ao Brasil e aos brasileiros. Tudo que ele diz e faz reverbera. Tudo mesmo.

* * * * *

Caetano Veloso
Estrangeiro
Produzido por Arto Lindsay e Peter Scherer
Lançado em 12 de novembro de 1989

1. O Estrangeiro
2. Rai das Cores
3. Branquinha
4. Os Outros Românticos
5. Jasper
6. Este Amor
7. Outro Retrato
8. Etc.
9. Meia Lua Inteira
10. Genipapo Absoluto

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