27/02/2026
Música & Mágica #11
24/02/2026
Agente como a gente
Voltando ao Recife de 1977, o professor Armando (Wagner Moura) tenta escapar à perseguição dos militares em seu encalço. Aproveitando a distração do violento carnaval daquele ano, ele se instala em um lar de refugiados, adota o pseudônimo de Marcelo e passa a trabalhar num instituto de identificação, na esperança de voltar a viver com seu filho, criado pelos avós após a morte de sua esposa. Em paralelo, uma perna humana é encontrada dentro de um tubarão, dando origem a teorias e uma lenda urbana.
O Agente Secreto é a esperança brasileira de um bicampeonato no Oscar, um ano após a consagração de Ainda Estou Aqui. Divide com o filme de Walter Salles o tema dos dias sombrios da ditadura militar, mas é só: o que aquele tem de lírico, este tem de caótico. Como em Bacurau (2019), seu filme anterior, o diretor Kleber Mendonça Filho adota uma estética popular e bagaceira, coloca trocentos personagens em cena e explode nossas mentes com lisergia, violência, absurdos e ocasional vulgaridade.
Não apenas porque se passa 50 anos no passado, o filme versa muito sobre a memória: para além de focar sobre os desmandos dos militares, a busca de Armando por informações sobre a mãe que mal conheceu (cujo nome muito comum, Maria Aparecida dos Santos, dificulta sua identificação) é, também, a busca dos familiares dos sumidos e provavelmente mortos pelo regime. Gente que passou (passa?) a vida sem saber do destino de entes queridos. A cuidadosa reconstituição de época (que deu à Recife retoques de beleza e feiúra bastante autênticos) é uma homenagem do diretor à cidade onde nasceu.
Muitas obras já revisitaram nossos famosos "anos de chumbo" em cenários como Rio e São Paulo. Ao escolher Recife como cenário, o diretor mostra que os tentáculos da ditadura se estendiam por todo o país, sem distinção, além de reforçar uma identidade cultural orgulhosa, quase sempre menosprezada por tipos como o executivo paulista da Eletrobrás com quem Armando compra uma briga política e pessoal, ao ver-se desrespeitado junto com a esposa, Fátima (Alice Carvalho). A cena com o guardanapo e a "carteirada racial" trazem à memória a cena do jantar em Bacurau. Como naquele, quem diz o que quer, acaba ouvindo o que não quer.
Para quem cresceu ouvindo Chico Science & Nação Zumbi, os ataques e invasões atribuídos à tal "Perna Cabeluda" já não eram novidade. No filme, a Perna ganha vida e ataca um grupo de homossexuais (em cena feita para arrepiar moralistas). É tosco e parece despropositado, mas, longe disso: na vida real, a violência oficial sempre foi encoberta com metáforas, atribuída a forças misteriosas, ou, pior ainda, "ninguém sabe, ninguém viu". Pouca gente teria aquela coragem dos amigos do Scooby-Doo de "puxar a máscara" da Perna. O medo é uma ferramenta poderosa de controle.
22/02/2026
Espada, escudo e coração
20/02/2026
Indignados, pero no mucho
17/02/2026
Espiões ao relento
Deu tristeza saber do melancólico fim da Editora Mino. Por cerca de cinco anos, ela foi responsável pelo lançamento da obra autoral de Ed Brubaker por aqui. Foi graças a ela que os leitores brasileiros puderam saber como Criminal prosseguia após Lawless (segundo volume da série e último publicado pela Panini, há 15 anos), além de ter acesso a grande parte do impecável catálogo da dupla, em ótimo padrão gráfico. Porém, embora quadrinhos sejam uma paixão, eles também são um negócio e precisam gerar dinheiro. A conta não fechava mais, e a Mino liquidou seu estoque em janeiro, anunciando a suspensão total de suas atividades. Reckless ficou incompleta, faltando o quinto volume. Embora a Panini tenha publicado Sleeper (2002) e a QS Comics tenha publicado Friday (2020), até o momento, nenhuma editora foi confirmada como a nova casa oficial de Brubaker no Brasil.
Incógnito: Edição Confidencial foi o último Brubaker da Mino que comprei e, por alguma razão, ele furou a fila de leitura (que inclui Fade Out, Reckless #3 e o Sleeper da Panini). Foi degustado com avidez, ao longo de duas sentadas (mmm), uma para cada minissérie do encadernado: sábado foi dia da Incógnito original, domingo foi dia de Incógnito: Más Influências. As 368 páginas deste bonito encadernado incluem as capas duplas originais e alguns sketches de Sean Phillips (o parceiro mais constante de Brubaker) e um posfácio do escritor Jess Nevins, com a qualidade gráfica irrepreensível que foi uma marca da Mino.
Todo esse luxo em celulose seria inútil se a história fosse um lixo. Felizmente, um quadrinho de segunda de Ed Brubaker ainda consegue ser melhor do que os melhores esforços de muito escritor chamado de "gênio" a esmo por aí - e nem é o caso: Incógnito é um senhor quadrinho. Se há algo de que reclamar, é que ambas têm final em suspenso; a diferença é que a minissérie original termina deixando o futuro a cargo da imaginação do leitor, enquanto a segunda tem cara de ideia abandonada no meio, mesmo.
Inclusive, no prefácio do autor, a gente descobre que Incógnito nasceu de um impulso de voltar ao universo dos super-humanos, do qual ele se distanciou para escrever sobre gente comum. Após deixar sua marca em heróis da Marvel e DC (entre outros, Demolidor e Batman), ele sentiu o comichão de uma ideia sobre um supervilão aposentado e inserido em um programa de proteção a testemunhas. A Incógnito original foi publicada dentro do selo autoral Icon, da Marvel, a partir de dezembro de 2008.
Por anos, Zack Chacina e seu irmão Xander aterrorizaram o país em nome do Morte Negra, um supervilão bicentenário. Com força e resistência sobre-humanas, os irmãos Chacina matavam muito e alegremente. Após a morte de Xander, Zack foi colocado sob proteção do governo numa nova identidade civil, como arquivista, usando um soro inibidor de poderes. Ser um cidadão comum o está matando aos poucos - de tédio. Para extravasar, certa noite, ele fica chapado com um amigo, que o oferece um líquido para apagar o rastro das drogas no sangue, mas que acaba tendo um efeito adverso bastante interessante: ele anula o efeito do soro inibidor.
Para testar os poderes reconquistados, Zack quebra a cara (e o resto da cabeça) de bandidinhos que iam atacar uma mulher. Não é a única surpresa do dia: ele adora matar, mas acaba descobrindo que também gosta de salvar pessoas. Suas saidinhas noturnas logo deixam de ser secretas e chamam atenção do governo e de seus antigos aliados no crime - e ninguém parece muito satisfeito com a volta de Zack Chacina à atividade. Seu novo mergulho no submundo vai colocá-lo diante de verdades sobre seu passado e dúvidas sobre seu futuro.
Como dito antes, a conclusão da minissérie original é daquelas que deixam a imaginação do leitor trabalhar, mas, de fato, é uma conclusão - ainda que atípica, abrupta e em aberto, como é de praxe nos trabalhos de Brubaker. A impressão é diferente ao fim de Incógnito: Más Influências (2010). Nas cinco edições da série, Zack Chacina está integrado ao programa de espionagem do governo e recebe a missão de se infiltrar na Level 9 para resgatar um agente duplo. Uma figura ligada ao passado de Zack reaparece, mas Brubaker não amarra as pontas soltas deixadas com Más Influências - e lá se vão 15 anos, então, é pouca a chance de que ele volte a este universo para uma conclusão, o que é uma pena.
Confesso que comprei Incógnito: Edição Confidencial às cegas e que este porém da falta de conclusão me desanimaria, mas este encadernado é, como tudo feito pela dupla Brubaker/Phillips, uma ótima leitura. Resta torcer para, um belo dia, acordar com a notícia de que Incógnito voltará para mais uma temporada - agora, com a esperança extra de que a dupla já tenha um novo (e bom) lar por aqui. A Mino nos deixou mal acostumados.






















