30/05/2026
Corações ao alto
23/05/2026
Sangue de ketchup
Pense em grandes roteiristas de quadrinhos de super-heróis e alguns nomes pulam na sua mente logo de saída: Alan Moore, Grant Morrison, Neil Gaiman... O Olimpo particular de cada leitor tem alguns nomes em comum, mas sempre vai haver quem se lembre de um nome que pouca gente menciona. Meu "esquecido" preferido é Garth Ennis, um roteirista norte-irlandês que escreveu grandes momentos da Nona Arte, como Preacher, além de fases estelares de Justiceiro e Hellblazer.
Embora Ennis seja um escritor de mão cheia - desses que enchem as páginas de texto e você lê tudo como se estivesse chupando um picolé - é preciso reconhecer que, às vezes, ele pesa a mão no deboche, na sacanagem e na escatologia. Eu acho Preacher uma obra-prima, mas tenho amigos que a evitam, devido ao choque com algumas falas e ilustrações (a cargo de sua "alma gêmea", o brilhante artista inglês Steve Dillon).
Mesmo sendo fã de Ennis, não passei nem perto de The Boys, o quadrinho. Já bastava o Alan Moore descendo a lenha na DC, na Marvel e nos leitores que se recusavam a crescer e deixar os super-heróis para trás (no que ele tem muito de razão, mas isso é discussão para outro dia). Já bastava Watchmen (do mesmo Moore, coincidência?) mostrando super-heróis como problemáticos ou francamente degenerados. Eu não queria ler uma série com mais heróis problemáticos e degenerados.
Mas eis que a Prime Video decidiu fazer uma série baseada em The Boys e ficou impossível não prestar atenção. Para minha surpresa, todo o absurdo gore e quase pornográfico típico da obra de Ennis estava lá, recriado com ótimos efeitos especiais e um elenco perfeito em seus papéis. Quando A-Train (Jessie T. Usher) esbarra na namorada de Hughie (Jack Quaid) a altíssima velocidade e a transforma num pudim de sangue e tripas, a gente entende, logo nos primeiros minutos, que The Boys, a série de TV, não faz concessões.
Quem viu as duas versões, garante: a série de TV dá um banho de qualidade nos quadrinhos. Aparentemente, enquanto a série ainda cria contextos para discussões e situações interessantes (sem os quais dificilmente a Amazon se arriscaria investindo tanto), a revista era um caminhão de baixaria sem freios ladeira abaixo. A ousadia valeu a pena: as três primeiras temporadas de The Boys são irretocáveis e criaram um séquito de fãs (com uma parcela numerosa não muito inteligente, pelo visto nas reações de surpresa, ao saber que a série era crítica ao governo Trump).
Precedida pela primeira temporada de um bom spin-off, Gen-V, a quarta temporada já dava as primeiras mostras de cansaço, com muita enrolação e teimosia intermináveis. Não foi à toa que coadjuvantes ganharam destaque: pode ter sido de propósito, mas prolongar demais alguns dramas dos personagens centrais foi um dos pecados que fizeram das temporadas 4 e 5 blocos inferiores.
Como se a decisão de cancelar Gen-V após a segunda temporada fosse pouco, os personagens e eventos trabalhados nela foram burramente jogados no lixo. A participação de seu elenco na quinta temporada de The Boys é vergonhosa. Marie Moreau (Jaz Sinclair) e seus amigos (vários deles ignorados como se não tivessem existido) passaram pelo inferno pra acabar trancados em casa, dando sopinha pra gente que, pouco antes de um choque de realidade, bateria palmas ao saber de suas mortes.
No geral, The Boys merece crédito por ter feito ótimo comentário da situação política mundial atual, reservando um deboche todo especial ao bebezão apedeuta, mimado e delirante que ocupa a presidência dos EUA (mas, que se diga, nunca foi tão difícil para a ficção superar o absurdo da realidade). O ótimo elenco, no qual sempre se destacava Anthony Starr como o amoral Homelander (Capitão Pátria na legenda e na dublagem), era garantia de carisma, ainda que o Billy Butcher de Karl Urban tenha caído na vala da repetição.
Pois bem, The Boys acabou, mas não nos livraremos do "theboysverso" tão cedo: o derivado Vought Rising já está adiantado em suas gravações, mas só deve estrear no ano que vem. Talvez eu pague minha língua e acabe assistindo, mas, neste momento, me sinto saturado e frustrado, tendo que me limpar de tanta sujeira em troca de um encerramento tão aquém da expectativa. De sua casa em Southampton, Alan Moore sorve um gole de chá Earl Grey quentinho, enquanto se reclina na poltrona e alisa a barba, com um pequeno sorriso de satisfação nos lábios.
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Agente como a gente
Voltando ao Recife de 1977, o professor Armando (Wagner Moura) tenta escapar à perseguição dos militares em seu encalço. Aproveitando a distração do violento carnaval daquele ano, ele se instala em um lar de refugiados, adota o pseudônimo de Marcelo e passa a trabalhar num instituto de identificação, na esperança de voltar a viver com seu filho, criado pelos avós após a morte de sua esposa. Em paralelo, uma perna humana é encontrada dentro de um tubarão, dando origem a teorias e uma lenda urbana.
O Agente Secreto é a esperança brasileira de um bicampeonato no Oscar, um ano após a consagração de Ainda Estou Aqui. Divide com o filme de Walter Salles o tema dos dias sombrios da ditadura militar, mas é só: o que aquele tem de lírico, este tem de caótico. Como em Bacurau (2019), seu filme anterior, o diretor Kleber Mendonça Filho adota uma estética popular e bagaceira, coloca trocentos personagens em cena e explode nossas mentes com lisergia, violência, absurdos e ocasional vulgaridade.
Não apenas porque se passa 50 anos no passado, o filme versa muito sobre a memória: para além de focar sobre os desmandos dos militares, a busca de Armando por informações sobre a mãe que mal conheceu (cujo nome muito comum, Maria Aparecida dos Santos, dificulta sua identificação) é, também, a busca dos familiares dos sumidos e provavelmente mortos pelo regime. Gente que passou (passa?) a vida sem saber do destino de entes queridos. A cuidadosa reconstituição de época (que deu à Recife retoques de beleza e feiúra bastante autênticos) é uma homenagem do diretor à cidade onde nasceu.
Muitas obras já revisitaram nossos famosos "anos de chumbo" em cenários como Rio e São Paulo. Ao escolher Recife como cenário, o diretor mostra que os tentáculos da ditadura se estendiam por todo o país, sem distinção, além de reforçar uma identidade cultural orgulhosa, quase sempre menosprezada por tipos como o executivo paulista da Eletrobrás com quem Armando compra uma briga política e pessoal, ao ver-se desrespeitado junto com a esposa, Fátima (Alice Carvalho). A cena com o guardanapo e a "carteirada racial" trazem à memória a cena do jantar em Bacurau. Como naquele, quem diz o que quer, acaba ouvindo o que não quer.
Para quem cresceu ouvindo Chico Science & Nação Zumbi, os ataques e invasões atribuídos à tal "Perna Cabeluda" já não eram novidade. No filme, a Perna ganha vida e ataca um grupo de homossexuais (em cena feita para arrepiar moralistas). É tosco e parece despropositado, mas, longe disso: na vida real, a violência oficial sempre foi encoberta com metáforas, atribuída a forças misteriosas, ou, pior ainda, "ninguém sabe, ninguém viu". Pouca gente teria aquela coragem dos amigos do Scooby-Doo de "puxar a máscara" da Perna. O medo é uma ferramenta poderosa de controle.






















