Uma crítica do álbum
A Man from the Future, de Pet Shop Boys
A Man from the Future, de Pet Shop Boys
Um pouco lembrado aspecto negativo de se viver no armário, é que a gente não conhece (ou reconhece) nossos heróis. Nos anos 80, como um rapaz gay que não queria parecer ou ser apontado como tal, vivendo numa cidade pequena e tacanha, eu me deixava entreter pela música de artistas como Madonna e Pet Shop Boys, por exemplo, sem associá-los à comunidade GLS, como se dizia então.
No caso do duo inglês, composto por Neil Tennant e Chris Lowe, eu os via como artistas de technopop chique e inteligente, curtido por basicamente todo mundo à minha volta - logo, não os entendia como "artistas gays" (somente em 1994 o próprio Neil falaria abertamente de sua sexualidade, e Chris Lowe simplesmente não toca no assunto até hoje).
Eu era tão travado que mesmo a capa em arco-íris de Introspective (1988) passou batido porque, naquele tempo, ainda não havia essa associação quase imediata que existe, hoje em dia, entre o fenômeno natural e a cultura gay. Some a isso o fato de que o disco foi um sucesso estrondoso e bastante democrático, no sentido de que as pessoas "normais" à minha volta não se incomodavam - sequer se perguntavam - se aqueles dois rapazes eram "alegres" além da conta.
Em 1991, saiu a irretocável coletânea Discography: The Complete Singles e, depois dela, eu meio que perdi o interesse pelos Pet Shop Boys. Muito raramente é que eu escutava uma faixa que me chamava atenção, como "Home and Dry", de 2003, elevada a favorita pessoal. Agora, mais especificamente no último dia 9, os PSB voltaram com A Man from the Future, um disco experimental, sem hits para tocar em festas ou clubes, dedicado ao pioneiro da computação inglês Alan Turing.
A aula de hoje não é de dança, mas de história
Ao criar uma máquina capaz de decifrar a criptografia nazista e ajudar seu país a vencer a Alemanha, Turing achou que sua proximidade com o poder o protegeria da perseguição. Porém, com a chegada de Elizabeth II ao poder, a homossexualidade passou a ser crime na Inglaterra, e ele acabou preso, submetido a castração química e morreu em circunstâncias cercadas de mistério, em 1954. A homossexualidade deixou de ser crime em 1967, mas somente em 2009 houve um pedido de desculpas formal do governo, que estendia perdão a todos os condenados pelo mesmo "crime" que Turing.
A Man from the Future é, basicamente, um relato musicado da vida de Touring. Mesclando o eletrônico e o sinfônico, Tennant e Lowe fizeram o disco como uma expansão de um musical apresentado na BBC em 2014. As letras, narradas pela atriz Juliet Stevenson, foram escritas pela dupla com o biógrafo de Turing, Andrew Hodges. Sobre belíssimos arranjos de cordas (cortesia do octeto Manchester Camerata), suaves beats eletrônicos e ocasionais intervenções de Tennant musicando as frases mais marcantes e definidoras do que era Turing em sua essência.
Não há como destacar esta ou aquela faixa entre as oito que compõem o álbum, porque trata-se de um relato em ordem cronológica e com pouca distinção. Tudo é muito bonito, muito tranquilo e muito sério. Apesar disso - e do fato de que Turing teve um fim trágico - o disco não é melancólico, mas lírico e emocionante. Presta homenagem a um gênio de todo o seu povo, mas cujos feitos e destino ressoam de modo especial entre a minoria que compunha. Um homem cujo imenso talento não bastou para garantir-lhe uma vida feliz, mas que, agora, Tennant e Lowe resgatam como o herói que ele foi - de si mesmo e de seus iguais.
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Pet Shop Boys
A Man from the Future
Produzido por Pet Shop Boys e Sven Helbig
Lançado em 9 de outubro de 2026
1. Natural Wonders Every Child Should Know
2. He Dreamed of Machines
3. The Enigma
4. Other Ranks
5. The Memory and the Control
6. The Trial
7. Only in His Death
8. A Man from the Future






















