24/02/2026

Agente como a gente


Uma crítica do filme
O Agente Secreto

Voltando ao Recife de 1977, o professor Armando (Wagner Moura) tenta escapar à perseguição dos militares em seu encalço. Aproveitando a distração do violento carnaval daquele ano, ele se instala em um lar de refugiados, adota o pseudônimo de Marcelo e passa a trabalhar num instituto de identificação, na esperança de voltar a viver com seu filho, criado pelos avós após a morte de sua esposa. Em paralelo, uma perna humana é encontrada dentro de um tubarão, dando origem a teorias e uma lenda urbana.

O Agente Secreto é a esperança brasileira de um bicampeonato no Oscar, um ano após a consagração de Ainda Estou Aqui. Divide com o filme de Walter Salles o tema dos dias sombrios da ditadura militar, mas é só: o que aquele tem de lírico, este tem de caótico. Como em Bacurau (2019), seu filme anterior, o diretor Kleber Mendonça Filho adota uma estética popular e bagaceira, coloca trocentos personagens em cena e explode nossas mentes com lisergia, violência, absurdos e ocasional vulgaridade.

Não apenas porque se passa 50 anos no passado, o filme versa muito sobre a memória: para além de focar sobre os desmandos dos militares, a busca de Armando por informações sobre a mãe que mal conheceu (cujo nome muito comum, Maria Aparecida dos Santos, dificulta sua identificação) é, também, a busca dos familiares dos sumidos e provavelmente mortos pelo regime. Gente que passou (passa?) a vida sem saber do destino de entes queridos. A cuidadosa reconstituição de época (que deu à Recife retoques de beleza e feiúra bastante autênticos) é uma homenagem do diretor à cidade onde nasceu.

Muitas obras já revisitaram nossos famosos "anos de chumbo" em cenários como Rio e São Paulo. Ao escolher Recife como cenário, o diretor mostra que os tentáculos da ditadura se estendiam por todo o país, sem distinção, além de reforçar uma identidade cultural orgulhosa, quase sempre menosprezada por tipos como o executivo paulista da Eletrobrás com quem Armando compra uma briga política e pessoal, ao ver-se desrespeitado junto com a esposa, Fátima (Alice Carvalho). A cena com o guardanapo e a "carteirada racial" trazem à memória a cena do jantar em Bacurau. Como naquele, quem diz o que quer, acaba ouvindo o que não quer.

Para quem cresceu ouvindo Chico Science & Nação Zumbi, os ataques e invasões atribuídos à tal "Perna Cabeluda" já não eram novidade. No filme, a Perna ganha vida e ataca um grupo de homossexuais (em cena feita para arrepiar moralistas). É tosco e parece despropositado, mas, longe disso: na vida real, a violência oficial sempre foi encoberta com metáforas, atribuída a forças misteriosas, ou, pior ainda, "ninguém sabe, ninguém viu". Pouca gente teria aquela coragem dos amigos do Scooby-Doo de "puxar a máscara" da Perna. O medo é uma ferramenta poderosa de controle.

Wagner como Armando como Marcelo

Desde a famosa cena de abertura, com o cadáver no posto de gasolina, há momentos que beiram o surreal, seja pelo absurdo da situação em si ou pelas opções visuais do filme, que tornam algumas cenas quase oníricas (como a de Armando dirigindo à noite no interior de São Paulo). Somados à estética geral naturalmente cafona dos anos 70, estão lugares, nomes e músicas que montam um quadro muito rico e peculiar do Recife de então.

Há pouco que ainda precise ser dito sobre a atuação de Wagner Moura. O cara é espetacular, com Oscar ou sem, e é natural pro espectador sentir empatia por Armando, compartilhando de sua indignação, seu medo e sua coragem. O numeroso elenco, que conta com Maria Fernanda Cândido, Thomás Aquino, Ítalo Martins, Hermila Guedes, Licínio Januário e uma multidão de quase anônimos (entre os quais se destacam a sapeca velhinha Tânia Maria e o garoto Robson Andrade, que faz Clóvis, o fofíssimo filho de Armando) é todo muito bem dirigido, uma prova de justiça na indicação na nova categoria do Oscar, a de Melhor Elenco.

Guardadas as devidas proporções, os anos de ditadura militar são para o Brasil o que o Holocausto é para a Alemanha: uma chaga ainda aberta e que, se não for denunciada pelo que realmente foi (uma vergonha histórica), corre o risco de tomar o corpo da nação mais uma vez. Não é de hoje que se vasculha o período em filmes, e O Agente Secreto não há de ser o último a fazê-lo. Se a Justiça foi branda com nossos ditadores, preferindo o "deixa disso" às punições cabíveis, a Arte (sempre tão atacada em governos repressivos) tem o dever de cutucar e jogar sal nessa ferida.

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