22/02/2026

Espada, escudo e coração


Uma crítica da série
O Cavaleiro dos Sete Reinos, da HBO Max

Eu demorei cinco temporadas para entrar no hype de Game of Thrones, mas, uma vez envolvido, não tive como não admitir: a série merecia o status de fenômeno cultural que havia conquistado. Era bem produzida, escrita e atuada, um típico produto HBO. A força da série excedeu os livros onde teve origem: diante da demora do autor George R. R. Martin em concluir as Crônicas de Gelo e Fogo - o quinto de supostos sete livros saiu em 2011 - a HBO teve que imaginar (com supervisão criativa de Martin) os destinos de seus personagens, o que deu muito certo na sexta temporada e terrivelmente errado nas duas seguintes. O final de GoT é frequentemente apontado como um dos mais frustrantes da história da TV.

Apesar da decepção, uma nova série dentro do universo de Westeros chegou em 2022: prestes a estrear sua terceira temporada, A Casa do Dragão traz histórias de quase 200 anos antes de onde começa Game of Thrones. Até aqui, teve uma boa primeira temporada e uma segunda irregular, por vezes tediosa, e correções de rumo são esperadas na terceira, já que a previsão é que ela acabe na quarta, em 2028. A HBO, porém, decidiu não nos deixar esperando demais e anunciou um segundo spin-off: O Cavaleiro dos Sete Reinos se situa cerca de 100 anos após A Casa do Dragão e 100 antes da série original.

Quando vi o trailer, não fiquei animado: piadinhas, escatologia e crianças, uma combinação que me lembrava mais a Sessão da Tarde da Globo do que o horário nobre da HBO. Mesmo assim, mantive a fé, abri o HBO Max na noite de 19 de janeiro e dei play no primeiro episódio.

Coisa boa é estar errado: desde o momento em que aparece enterrando seu mentor, o ingênuo escudeiro Dunk (Peter Claffey) conquista nossa simpatia. Ao ver-se sozinho no mundo, ele decide carregar o legado do finado Sir Arlan de Centárbor (Danny Webb): espada, escudo e três cavalos. Numa estalagem, ele é abordado por um garoto careca, Egg (Dexter Sol Ansell), que lhe pede que o deixe ser seu escudeiro. Inicialmente, Dunk tenta livrar-se do pirralho, mas acaba cedendo à sua insistência.

Dunk e Egg: pagando pra entrar numa briga

Ao saber de um torneio de cavaleiros em Vaufreixo, ele pede para ser listado como competidor, alegando que Sir Arlan o nomeou cavaleiro antes de morrer. Com dificuldade para ter seu título reconhecido, ele apela aos cavaleiros e nobres presentes com as memórias de seu mentor. O problema é que ninguém parece se lembrar das histórias contadas a Dunk por Sir Arlan. Por vias muito tortas, ele acaba reconhecido e ganha direito de competir. Egg lhe diz que "Dunk" não é um nome digno de cavaleiro, o que o faz adotar a alcunha de Sir Duncan, o Alto.

Se os problemas de Dunk pareciam resolvidos, a verdade é que estavam apenas começando: além de não ter real experiência de combate, Dunk é puro até a medula, e seu elevado senso de justiça vem de uma idealização do posto de cavaleiro. Seus competidores, guerreiros experientes, parecem mais interessados na festa e no prêmio. Ao defender uma mulher da crueldade de um nobre, tanto o cavaleiro quanto o escudeiro se veem confrontados com decisões difíceis.

Enquanto escrevo esta crítica, falta sair apenas o sexto e último episódio desta temporada inaugural, e 2026 mal começou, mas O Cavaleiro dos Sete Reinos já se apresenta como uma das melhores produções do ano. Sem a distração artificial dos dragões (que são dados como extintos), toda a força dramática está nos poucos personagens e seu desenvolvimento. A gradual transformação de Dunk - de maltrapilho desastrado a cavaleiro autêntico - convence e emociona. A amizade entre ele e Egg resulta em conversas iluminadas, ternas e engraçadas. As batalhas seguem o padrão impecável da franquia, crescendo em escala, violência e importância.

Termino este texto a menos de duas horas da estreia do sexto episódio de O Cavaleiro dos Sete Reinos, confiante de que o brilhantismo dos cinco anteriores (especialmente do terceiro ao quinto) será ratificado - os produtores tinham tamanha confiança na série que uma segunda temporada foi anunciada antes mesmo da estreia da primeira. A esta altura, já nem me lembro de ter sentido qualquer desconfiança por aquele primeiro trailer. Imagina, nunca critiquei!

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